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'Governo não entendeu minha vontade de ajudar', diz Maia sobre Previdência

"Governo não entendeu minha vontade de ajudar", diz Maia

UOL Notícias

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

26/03/2019 17h09

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou hoje que se sente incompreendido pelo governo de Jair Bolsonaro em relação à sua atuação pela reforma da Previdência.

Eu me coloquei nas últimas semanas tentando ajudar, cumprindo um papel que não é meu e que é muito perigoso, que é articular de alguma forma pelo governo. O governo não compreendeu minha vontade de ajudar dessa forma."
Rodrigo Maia

O deputado federal deu entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, e comentou a nova postura que assumiu frente à tramitação.

"Eu restabeleci minha posição original de presidente da Câmara, que é pautar. Vou continuar mostrando o que vai acontecer com o Brasil caso essa reforma não seja aprovada", afirmou.

Maia defendeu que a reforma não é uma "pauta exclusiva da Câmara" e afirmou que isso pode ser comprovado pelo fato de o presidente Bolsonaro ter levado pessoalmente o projeto para os parlamentares.

O presidente da Câmara voltou a argumentar sobre a necessidade do governo construir uma base de apoio à reforma, dialogando com deputados de todas as vertentes ideológicas.

Hoje, conforme revelado pela Folha de S. Paulo, os líderes partidários decidiram estabelecer alterações no projeto de Bolsonaro para a Previdência. As bancadas mais numerosas se posicionaram de forma contrária às alterações no BPC (benefício pago a idoso carente) e nas regras de aposentadoria rural.

Alguns dispositivos da proposta também permitiriam retirar da Constituição as regras da aposentadoria, o que, teoricamente, tornaria mais fácil a aprovação de mudanças nessas normas, já que seriam necessários menos votos. Esse grupo de lideranças também se disse contrário a essas mudanças.

'Bolsonaro precisa chamar os deputados para conversar'

Na avaliação de Maia, Bolsonaro precisa dialogar com os deputados se quiser aprovar seus projetos.

"A política é feita de diálogo, e diálogo positivo, não negativo. (...) O presidente precisa construir uma base, e não é uma base para o governo, é uma base para as reformas. Ele precisa mostrar para a sociedade o porquê da reforma, precisa chamar os deputados para conversar", disse Maia.

Em relação ao chamado pacote anticrime, apresentado pelo ministro da Justiça Sergio Moro, disse que o chamou para conversar nos últimos dias para "zerar as caneladas".

Maia fez referência à sequência de desavenças entre ele e o ministro na última semana, que teve seu apogeu no fim de semana, quando o democrata deu a entender que não vai priorizar o projeto de Moro.

Ontem, os atritos entre os dois tiveram novo desdobramento. Um grupo de trabalho criado na Câmara para discutir o pacote anticrime realizou sua primeira reunião sem a presença de Moro, que minimizou a ausência. "Esse é um comitê de trabalho lá deles, né? Nós temos o projeto e devemos ser consultados do percurso", disse Moro ao jornal Estado de São Paulo.

O encontro, todavia, teve a participação do ministro do Supremo Tribunal Federa (STF), Alexandre de Moraes, que presidiu uma comissão de juristas responsável por um projeto muito semelhante ao de Moro entregue no ano passado. Maia, na semana passada, chegou a dizer que o conjunto de normas proposto pelo ministro da Justiça era um "copia e cola" do projeto de Moraes.

Brasil tem que "tomar cuidado" com política internacional

Durante a conversa, Maia foi questionado sobre o que pensa das recentes viagens do presidente Jair Bolsonaro ao Chile e aos Estados Unidos. Disse, em um primeiro momento, que o presidente está cumprindo o que havia asseverado na campanha eleitoral, mas que o país precisa "tomar cuidado" com as alianças comerciais.

"Estamos perdendo mercado de carne dos países islâmicos, a cada semana vamos perdendo uma parte da nossa exportação. 40% das nossas exportações vão para os países árabes", criticou Maia. "E essa aproximação com os EUA está deixando a China muito preocupada, eu conversei com um amigo de lá e eles têm o Brasil como parceiro prioritário. A gente se aproximou dos americanos e começamos a perder mercado da China", disse.

Maia citou os países árabes especificamente por conta das pretensões do governo de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. A pauta tende a voltar às discussões por conta da viagem de Bolsonaro à Israel - o presidente brasileiro deve desembarcar no país no próximo dia 31.

De acordo com o presidente da Câmara, o país precisa traçar uma balança de perdas e ganhos para entender se vale a pena entrar em determinadas discussões. "O que os Estados Unidos podem agregar ao Brasil do ponto de vista comercial? É mais ou menos do que com a China, com a União Europeia e com o mundo árabe? Eles [norte-americanos] são muito pragmáticos, pensam só no interesse deles, há 15 ou 20 anos que o Brasil é deixado de lado pelos EUA", argumentou Maia.

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