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Ditadura mentiu aos EUA sobre circunstâncias da morte de Iara Iavelberg

Imagem: Arte/UOL

Eduardo Reina

Colaboração para o UOL, em São Paulo

18/09/2021 04h00

A ditadura militar brasileira mentiu em documentos sigilosos enviados ao governo dos Estados Unidos sobre as circunstâncias do assassinato da ativista Iara Iavelberg, ocorrido em Salvador, em 20 de agosto de 1971.

A reportagem teve acesso a arquivos dos chamados "disclosed documents" (documentos que perderam a classificação de sigilosos) do Departamento de Estado dos EUA sobre o período da ditadura militar brasileira (1964-1985).

Psicóloga e professora universitária nascida em São Paulo, Iara Iavelberg era militante da organização MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) quando foi assassinada aos 27 anos por agentes da repressão. Ela era companheira de Carlos Lamarca, o capitão que desertou do Exército para se tornar comandante guerrilheiro. Lamarca foi assassinado depois de Iara, quase um mês depois, no interior da Bahia. A morte dos dois militantes completou 50 anos em 2021.

Desde 2004, o Estado brasileiro reconhece que foi o responsável pela morte de Iara Iavelberg. A decisão foi tomada por unanimidade pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, órgão do governo federal.

Carlos Lamarca foi assassinado há 50 anos por agentes da repressão da ditadura militar no Brasil Imagem: Yasmin Ayumi

Monitoramento dos EUA

O Departamento de Estado dos EUA acompanhava de perto as ações dos órgãos de repressão. O serviço consular enviava relatórios sobre os fatos registrados nos porões, nas prisões, nas ruas e sobre assassinatos e desaparecimento de opositores.

As informações falsas enviadas aos Estados Unidos eram repassadas pelo coronel da Aeronáutica Araújo Lima, pertencente ao Cisa (Centro de Informações da Aeronáutica) e também chefe do Comando Costeiro da Bahia -era considerado como especialista em MR-8.

Num desses relatórios, elaborado pelo Consulado dos EUA em Recife, há mentiras repassadas pelas forças militares brasileiras a respeito de Iara Iavelberg.

O documento, classificado como "secreto", de 26 de agosto de 1971, tem como assunto "prisões em Salvador podem levar à captura de Lamarca". Registra que "prisão e mortes de subversivos importantes em Salvador, nas noites de 19 e 20 de agosto" foram relatadas ao membro do Consulado Geral de Recife pelo coronel Lima Araújo, após longa conversa ocorrida "na residência do cônsul em 25 de agosto".

No item 3 do documento, é informado que "Yara [sic] foi identificada como membro do MR-8 e ex-membro do VAR-Palmares e VPR, em São Paulo, e conheceu Lamarca enquanto ambos estudavam em uma universidade lá [em São Paulo]. Uma teórica brilhante e militante subversiva, segundo a fonte, teria sido Yara quem convenceu Lamarca a abandonar o Exército e se juntar a ela em atividades subversivas. Ela abandonou seu marido, um físico de São Paulo e duas crianças para ficar com Lamarca".

Tal relato é falso. Iara não conheceu o capitão Carlos Lamarca na universidade. O encontro ocorreu em abril de 1969, praticamente dois meses após o militar desertar do Exército. Também não é verdade que ela abandonou o marido, um físico, em São Paulo, o casamento e duas crianças para acompanhar Lamarca.

"Tudo isso é pura mentira. Informações totalmente erradas. Iara foi casada com um médico, não com um físico. O casamento deles terminou sem nenhuma conexão com o que foi dito no relatório. Iara também nunca teve filhos", esclarece o jornalista Samuel Iavelberg, irmão de Iara.

A ativista política Iara Iavelberg Imagem: Arquivo

O documento oficial informa ainda que, segundo a versão repassada pelo coronel Araújo Lima, "aproximadamente no dia 6 de agosto, unidades do Codi [Centro de Operações de Defesa Interna] de Salvador capturaram o membro [do] MR-8 conhecido pelo codinome Rocha".

Após intensa interrogação por Lima Araújo, Rocha confessou relacionamento próximo com o líder terrorista e ex-soldado do Exército Carlos Lamarca, admitindo que tinha aconselhado Lamarca de que era "seguro para ele e cerca de 10 membros de seu grupo vieram a Salvador".

Este homem de codinome Rocha é José Carlos de Souza, hoje professor na Bahia. Ele conta que a pessoa que estava com ele quando foi capturado era César Benjamin, que fugiu. César conseguiu tirar a arma do agente que o segurava e atirar para o alto, antes de escapar.

"Nós estávamos na Avenida Sete [centro de Salvador] quando fui preso. Nos interrogatórios, consegui enrolar durante todo o tempo de suplício que passei nas mãos deles [militares]. Eu falava da existência de pontos de encontro que não existiam. Tempo suficiente para todo mundo fugir", conta Souza.

O coronel Lima Araújo torturou Souza pessoalmente. "Foi ele quem fez minha tortura. Era um homem alto, de mais ou menos 1,80 metro. Estava sempre presente às sessões de tortura, por ser especialista em MR-8. Mas não confirmo que estava presente ao cerco a Iara", diz Souza.

O cerco a que o documento do Departamento de Estado dos EUA faz referência ocorreu na madrugada do dia 20 de agosto de 1971 ao edifício Santa Terezinha, na rua Minas Gerais, bairro de Pituba, em Salvador, onde se encontrava Iara Iavelberg.

A ação foi comandada pelo coronel do Exército Luiz Arthur de Carvalho. O prédio foi cercado e o quarteirão totalmente tomado pelos agentes. Fazia parte da chamada Operação Pajussara, ofensiva para localizar e eliminar Carlos Lamarca, o principal alvo da ditadura naquele momento.

A ativista Iara Iavelberg, em foto registrada em São Paulo Imagem: Arquivo

Suicídio forjado

Nos últimos anos de suas vidas Iara e Lamarca viveram uma grande paixão. A tal ponto que os militares disseram ao cônsul dos EUA em Recife "que Yara [sic] era a maior influência na vida e formação ideológica de Lamarca, e que quando Lamarca descobrir sobre sua morte ficará profundamente perturbado e possivelmente mais vulnerável para captura", prossegue o relatório dos EUA.

"Todos os ocupantes do abrigo secreto, com exceção de Yara, renderam-se prontamente. Yara se trancou no banheiro e concordou em sair apenas após três bombas de gás lacrimogêneo jogadas pela janela. Quando as autoridades abriram a porta do banheiro, ela atirou em si mesma, no peito, e morreu logo em seguida".

O atestado de óbito de Iara descrevia que a morte era decorrente de suicídio. Mas a versão falsa foi desmontada ao longo do tempo.

No livro "Lamarca - O Capitão da Guerrilha", em capítulo dedicado a Iara, os jornalistas Emiliano José e Oldack Miranda contam a história do sargento Rubem Otero, que participou da operação em 1971. O militar relatou ter disparado uma rajada de metralhadora contra a porta do cômodo onde Iara se encontrava. "Como não ouviu reação, arrombou a porta e se deparou com Iara agonizando".

Tal informação fora revelada pelo jornalista Bernardino Furtado, em 23 de setembro de 1997, à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, no gabinete da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo.

A dona do apartamento onde Iara morou, Shirley Freitas Silveira, disse que esteve no local do assassinato e constatou marcas de vários tiros nas paredes. Arquivos da Polícia Federal baiana mostram que Iara havia gritado aos agentes "eu me entrego", fato revelado pela militante dos Direitos Humanos na Bahia, Diva Santana. Tais documentos desapareceram depois.

Em depoimento que consta no documentário "Em busca de Iara" —dirigido por Flávio Frederico e roteirizado por Maria Pamplona—, o cientista político César Benjamin, que depois também foi preso em Salvador, disse que "ela [a sessão de choques elétricos] foi se prolongando, prolongando, entrou pela madrugada e eles [os torturadores] começaram a dizer, lá pelas tantas, não sei exatamente o porquê, imagino que para quebrar o meu moral, começaram a dizer: 'Matamos a Iara, Iara está morta, Iara já era'. Eu estava encapuzado, rolando pelo chão, porque com a descarga elétrica você fica sem controle... de alguma maneira eu acho que eles intuíram que eu não estava acreditando, e eu realmente não acreditei. [Então] eles me arrastaram para uma quina da sala, levantaram o capuz e me mostraram uma foto... era a Iara morta".

O filme "Em busca de Iara" desmonta a farsa criada pelos militares. A roteirista Maria Pamplona é sobrinha de Iara Iavelberg. "Tanto os documentos de sua autópsia, quanto os que relatam a cena do crime desapareceram depois", escreve Mariana no roteiro do filme.

"O corpo de Iara ficou durante um mês em uma gaveta do IML de Salvador, sendo usado como isca para atrair Lamarca. Posteriormente, ela foi enterrada numa espécie de operação militar na ala dos suicidas, no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo", aponta Mariana Pamplona, em sua dissertação de Mestrado apresentada à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2009.

Busca pela verdade

A família de Iara foi persistente para desvendar a história sobre a morte da militante. Os judeus consideram o suicídio indigno e os que morrem assim devem ser enterrados de costas para os demais jazigos, com os pés voltados para o muro do cemitério, de modo que não possam ver os outros mortos.

Foi uma longa e difícil batalha para conseguir realizar a exumação do corpo de Iara. A direção do cemitério não queria permitir a exumação. "Foi preciso recorrer à Justiça. E mesmo assim quase não foi possível fazê-la", conta o irmão Samuel.

Túmulo de Iara Iavelberg em São Paulo Imagem: Arquivo

A exumação revelou que Iara não se matara. "O professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Daniel Romero Muñoz, examinando os restos mortais de Iara, produziu um laudo circunstanciado onde conclui que o tiro que a matou não foi um tiro decorrente de suicídio, quando a arma é encostada no corpo para que o ato se consuma, mas um tiro dado a alguma distância", afirma Emiliano José. O exame foi feito no ano de 2003.

Para realizar seu trabalho, Muñoz também utilizou um rascunho do laudo da autópsia de 1971, escrito pelo médico legista Charles Pittex por ocasião da morte de Iara, e encontrado apenas recentemente. Neste documento, Pittex questiona se Iara cometeu suicídio, e descreve detalhadamente o tamanho e o tipo de perfuração encontrados nos restos mortais da guerrilheira.

Desta forma, o corpo de Iara foi removido da ala dos suicidas e sepultado ao lado dos restos mortais de seus pais, no dia 11 de junho de 2006.

"Desde o início, eu e meus irmãos sabíamos que o problema religioso não estava em jogo. Era uma questão política", diz Samuel.

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