Aprender e resistir

Após perder o Enem com covid e colapso em Manaus, jovem indígena estuda com otimismo e orgulho das origens

Rosiene Carvalho (texto) e Bruno Kelly (imagens) Colaboração para o UOL, em Manaus

No Centro Cultural Wakenai Anumarehit, em Manaus, o telhado e as paredes de madeira pintadas com grafismos vedam a luz, mas deixam passar o clima intenso.

Sem ventilador na sala, o calor desconcentra. Mas é um problema menor a ser enfrentado todos os sábados por indígenas em busca de uma vaga na universidade. Para se preparar, assistem a aulas com voluntários para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil.

O cursinho surgiu após estudantes deixarem em branco a redação da edição de 2019, quando a prova pediu para discursar sobre o tema "Democratização do acesso ao cinema no Brasil". Os indígenas não sabiam o que era nem nunca tinham entrado numa sala de projeção de filmes.

Aos 17 anos, Vivian Baré é uma das frequentadoras desse espaço. Deseja cursar artes na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no interior de São Paulo.

O nome do centro inspira a estudante. Na língua aruak, que faz parte do tronco linguístico do povo baré, Wakenai significa "origem" e Anumarehit quer dizer "guerreiro". Para alcançar seu sonho, é preciso lutar.

Ela mora em Parque das Tribos, na periferia de Manaus, considerado o primeiro bairro indígena da capital e também lar de 5.000 pessoas, entre 35 etnias de diferentes regiões do Amazonas, espalhadas pelas margens dos rios Negro e Solimões.

O bairro é formado por moradias inadequadas e sem infraestrutura. Falta asfalto, fornecimento regular de água, energia elétrica, policiamento, unidades de saúde básica, sistema de esgoto e escolas. A lista de problemas é grande.

Vivian faz parte de um grupo pequeno que não perdeu o calendário para a prova deste ano.

Mesmo com a inscrição e o cursinho, a jovem cogitou não fazer a prova em 21 e 28 de novembro por se considerar despreparada. Foi convencida pela mãe, a pedagoga indígena e fundadora do centro cultural, Cláudia Baré, 43, a não desistir e tentar também universidades em Manaus.

Era para Vivian já ter tido a experiência da prova passada do Enem, ocorrida em fevereiro na cidade.

Mas daquela vez ela perdeu a inscrição, em meio a um surto de covid na família e com medo. No Amazonas e em dois municípios de Rondônia, a Justiça determinou o adiamento da prova, de janeiro para fevereiro, devido ao colapso no sistema de saúde.

À época, o governo federal pressionou cidades a não barrarem o exame, afirmando que não garantiria a reaplicação em todas as localidades. O Brasil já tinha até aquele mês um total de 209 mil mortos pela covid.

Sua mãe ficou bastante doente, mas optou por se tratar em casa diante do cenário reproduzido na imprensa sobre os hospitais em Manaus. "Ela tomou chás medicinais. Ficou muito grave. Eu também peguei, mas só tive sintomas leves", diz.

A rotina da adolescente é puxada e sobra pouco tempo de dedicação exclusiva para os estudos.

Às 5h, encara os precários serviços de transporte coletivo e o trânsito da capital. Não consegue estudar no caminho para o trabalho.

É por um lado um tempo perdido, mas que garante todos os meses meio salário mínimo como jovem aprendiz numa empresa distante de seu bairro. O dinheiro ajuda em casa e nas despesas pessoais.

À tarde, vai à escola estadual Solon de Lucena, centro-sul da cidade. Na volta, encara de novo ônibus lotado, engarrafamento e calor.

Agora, no final do ano, as atividades escolares também tomam seu tempo. É preciso entregar trabalhos para garantir a aprovação. Mas ela diz que as condições na escola não favorecem o aprendizado nem a preparação para o Enem.

O ensino à distância funcionou para Vivian como um caminho para abandonar a rotina de estudos --mesmo tendo internet em casa.

Em 23 de agosto, foram retomadas as aulas 100% presenciais na rede pública de Manaus.

"Voltou a aula. Mas mesmo assim não mudou muita coisa do que era antes. Temos muitos tempos vagos, sem professor na sala. Não mudou quase nada se comparado ao que tínhamos antes da pandemia."

A estudante conta que os alunos sabiam que todos iam passar de ano em 2020. Por isso ficou menos tensa. Mas agora se culpa.

"Sabia que não iam reprovar ninguém e acabei deixando de lado, já que não estava entendendo nada mesmo. Passei de ano sem saber nada. Foi falta de responsabilidade minha", disse.

Em casa, a mãe e o pai, também indígenas, se dividem entre a atenção para outros três filhos (de 15, 10 e 4 anos) e o trabalho.

Cláudia é responsável pela educação de indígenas e ribeirinhos em uma escola em Santa Isabel do Rio Negro, a 631 km de Manaus.

"A minha mãe se mudou para trabalhar. Tem vezes em que está em casa e outras não. Ela não dá muita atenção para mim porque tem meus irmãos que são pequenos", afirma Vivian.

Nos primeiros anos da vida escolar, Vivian estudou em escolas da zona rural e ribeirinha em Santa Isabel e em Manaus. Quando a mãe cursou pedagogia na UEA (Universidade do Estado do Amazonas), por meio de cotas para indígenas, ela foi para o ensino público e conta ter sofrido bullying.

Quando trocava de escola, diz que queria ser uma "estudante normal" para evitar ser deixada de lado ou ser maltratada por sua origem e raça.

"Já tive problemas psicológicos. Quis esconder que era indígena para não passar esse tipo de situação. As pessoas acabaram descobrindo e começaram tudo de novo", disse.

Ao tomar consciência da resistência da mãe e do avô materno, mudou sua forma de reagir ao preconceito em Manaus.

O avô Silvano Baré, cujo nome indígena era Kaapura, foi criado desde os 10 anos por padres salesianos em Santa Isabel do Rio Negro.

Era obrigado a não falar sua língua, mas resistiu. Até a sua morte por covid, nos braços da mãe de Vivian, falava nheengatu --língua indígena do tronco tupi. "Foi há seis meses e nossa maior perda na pandemia", diz.

Na década de 1980, formado em magistério, ele fundou na área ribeirinha da zona rural de Manaus duas escolas para alfabetização.

As escolas existem até hoje e funcionam como parte da estrutura pública municipal. O Centro Cultural Wakenai Anumarehit, erguido pela mãe seguindo os passos do avô, alfabetiza crianças em português e nheengatu.

"Depois que me dei conta do quão importante e privilegiada eu sou por ter sangue indígena, passei a lidar diferente com o assunto. Assumi na escola que sou indígena. Não fico mais calada", contou.

Ela quer usar o Enem como passaporte para os estudos. Apesar das dificuldades, está otimista.

"Eu não estudei direito. Porém estou com pensamento bem positivo. Quero fazer artes, mas também não quero ficar um ano parada. Se eu não passar, vou trabalhar e depois tentar de novo", disse.

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