Na escuridão total

Pessoas que perderam a visão após protestos no Chile já passam de 160: "Bala fez com que meu olho explodisse"

Luciana Rosa Colaboração para o UOL, em Buenos Aires
Mario Ruiz/EFE

A reportagem ouviu relatos de manifestantes que contam como estavam participando pacificamente dos atos no Chile e foram reprimidas com violência pela polícia chilena.

Os protestos têm sido constantes desde o anúncio do aumento da tarifa de transporte público, no dia 18 de outubro. Apesar de o governo de Sebastián Piñera ter revogado a medida, as manifestações não cessaram.

O presidente trocou, então, boa parte dos ministros, mas ainda assim a situação não mudou. Ele tem sido pressionado a renunciar, mas disse em entrevista que não vai fazer isso.

ATENÇÃO: AS IMAGENS A SEGUIR FORAM FEITAS MOMENTOS APÓS AS VÍTIMAS TEREM SIDO ATINGIDAS PELAS BALAS DA POLÍCIA E SÃO FORTES.

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Ybar Pizarro (na foto acima), 29, está há mais de uma semana tomando pílulas para dormir e evitar os pesadelos recorrentes de que está sendo perseguido pela polícia. No sonho, ele tenta correr para escapar, ensaia um grito, mas sua voz não sai.

O sono perturbado e a dor constante são apenas alguns dos traumas deixados pela bala de chumbo que atingiu em cheio seu olho direito em um protesto no último 24 de outubro, em Santiago, no Chile.

"Me operaram no dia seguinte, mas não foi possível retirar a bala de chumbo do olho", lamenta Pizarro.

A bala fez com que meu olho explodisse. Então, tiveram que reconstruí-lo. Por sorte, ainda o tenho, mas a visão é nula. Não vejo absolutamente nada. É uma escuridão total
Ybar Pizarro

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Não no mesmo dia, mas sob circunstâncias muito parecidas, José Ignácio Soto (na imagem), 23, e Rodrigo Lagarini, 24, também ficaram parcialmente cegos.

Eles participavam das manifestações que se espalharam pelo Chile desde o dia 18 de outubro, quando foi anunciado um aumento no preço do metrô, se expandindo para demandas de outros direitos sociais deixados de lado pelo governo.

No dia 22 de outubro, por volta das 17h30, Lagarini conta que "estava pacificamente protestando". "Foi quando uns quatro ou cinco efetivos policiais se aproximaram dos manifestantes. Eu estava na esquina olhando. Os policiais pararam a menos de 20 metros e lançaram, com uma escopeta, uma bomba de gás lacrimogêneo", relata.

Essa é uma arma usada para dissuadir. O policial apontou para mim e atirou diretamente no meu rosto, a menos de 20 metros, impactando com tudo no meu olho direito
Rodrigo Lagarini

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Às 17h30 do dia 24 de outubro, Pizarro participava de uma manifestação. "A polícia, sem dar nenhum prévio aviso ou advertência, começou a reprimir o protesto. E começou um conflito, com gente atirando pedras", conta.

"Eu estava bastante distante dos 'carabineros' [policiais], a uns 50 metros. Em nenhum momento fui enfrentá-los diretamente, no meio dessa desordem, desse tumulto. Eu estava com um amigo", explica o jovem.

"A marcha se dispersou, tentando evitar o controle policial. Eu me perdi do meu amigo e aí senti um golpe no olho. Sendo sincero, imaginei que tivesse sido uma pedra, nunca imaginei que tivesse sido uma bala de chumbo", relata.

"Levei a mão ao rosto e elas ficaram ensanguentadas. A Cruz Vermelha estava prestando os primeiros socorros e veio me acudir, levando-me para longe da marcha, a um lugar mais seguro. Foram eles que me explicaram que eu tinha levado um tiro de chumbo no olho", diz.

Na marcha do dia 21, foi a vez de José Soto. "Começaram a disparar, e eu nem percebi", conta ele. "Senti uma golpe forte no nariz. Pensei que tivesse sido uma pedrada, porque eu estava perto de um caminhão dos bombeiros que estava sendo atacado com pedras", relembra.

"Sangrava muito. Fiquei assustado, sem saber o que tinha me acontecido. Procurei não desmaiar e seguir caminhando para pedir ajuda, porque eu estava sozinho. Consegui chegar às laterais do protesto e alguns paramédicos vieram me ajudaram. Eles jogaram água no meu rosto, colocaram uma venda e me levaram ao centro assistencial mais próximo."

Os três jovens fazem parte de um grupo que só aumenta no Chile: pessoas feridas nos olhos durante a forte repressão aos protestos.

Segundo dados do Instituto Nacional de Direitos Humanos, já somam 160 os casos, dos quais em 26 houve dano aos dois olhos, com perda total da visão.

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Sem arrependimento, mas com sequelas

Eles dizem não se arrepender de terem participado das manifestações. Mas sentem as consequências.

"Não me arrependo de nada", diz Pizarro. Mas se imagina com dificuldade para conseguir trabalho. "Trabalho cavando túneis, inclusive para uma empresa que presta serviço ao metrô. Eu estava trabalhando na extensão de uma das linhas, mas será difícil conseguir trabalho agora que tenho a visão comprometida."

Soto diz que, enquanto continuarem os protestos, vai "seguir apoiando a causa". "Penso que talvez eu poderia não haver estado ali, mas eu estive e estive lutando", afirma.

O que aconteceu com meu olho não foi culpa minha, porque eu não fiz nada de mal, é um direito que temos de protestar e de nos expressar livremente sem machucar outras pessoas
José Soto

Já Lagarini (na foto acima) afirma que "no Chile estão nos matando, violentando homens e mulheres". "Estão disparando balas de chumbo, balas de borracha. Pode ser que essas balas não matem, mas deixam sequelas", afirma.

Chile em chamas

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