Enquadrado

Líder do PCC, Marcola está há 20 anos preso, ficou 1.415 dias na solitária e tem pena para cumprir até 2276

Luís Adorno, Flávio Costa e Aiuri Rebello Do UOL, em São Paulo
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Apontado como chefe máximo da maior facção criminosa do país, o PCC (Primeiro Comando da Capital), Marco Willian Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, enfrenta uma situação inédita em quase 20 anos seguidos de vida no cárcere: pela primeira vez, está preso em uma penitenciária de segurança máxima federal, a de Porto Velho

Transferido do interior de São Paulo no último dia 13 de fevereiro, nos primeiros 60 dias ele ficará em isolamento. Esta sim, uma situação corriqueira para o criminoso de 51 anos e extensa ficha corrida. Somadas as diversas vezes que esteve no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), Marcola já passou quase quatro anos na solitária, 22 horas por dia sozinho na cela, sem direito nem a um livro de companhia para matar o tempo. 

Agora, com regras ainda mais rígidas do que enfrentou na prisão até hoje, Marcola terá dificuldades para manter-se na liderança da organização criminosa, que vive uma disputa interna há quase um ano.

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1ª prisão aos 18, 3 fugas e 330 anos em condenações

Em 31 de janeiro de 1986, seis dias depois de completar 18 anos, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi preso em São Paulo pela primeira vez. Era acusado de ter roubado uma empresa de segurança privada. Foi a primeira de uma série de prisões e fugas que dariam início à história de um dos maiores chefes do crime organizado na história do país. 

Segundo a folha de antecedentes de Marcola, consultada com exclusividade pela reportagem no último dia 18 de fevereiro de 2019, ele está condenado a um total de 330 anos, 6 meses e 24 dias de prisão. Praticamente todos os crimes violentos ou hediondos do Código Penal são citados em sua folha corrida em algum momento: formação de quadrilha, tráfico de drogas, roubo a banco, roubo a mão armada e homicídios em diversos graus, entre outros. 

Sempre que a Justiça considera que um crime atribuído à facção criminosa que comanda foi praticado com seu conhecimento, anuência ou ordem, ele entra no rol de acusados.

O documento mostra que Marcola passou por 19 presídios antes de ser levado para Rondônia. Em 1999, quando já havia evidências de sua articulação junto ao PCC, ele chegou a ser transferido cinco vezes: para Carumbé (MT), Araraquara, Tremembé, Carandiru e Taubaté, em São Paulo. Marcola é considerado o chefe máximo do PCC pela polícia desde 2002, porém no ano anterior já aparecia entre as principais lideranças em investigações da Polícia Civil paulista. 

Isolamento já passa dos 1.400 dias 

Pela gravidade dos crimes dos quais é acusado, Marcola foi penalizado nove vezes com o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), entre novembro de 2002 e setembro de 2018, totalizando 1.415 dias em isolamento. No RDD, o detento fica 22 horas por dia sozinho na cela, sem comunicação e sem ver ninguém, perde o direito a visitas e mesmo o contato com os advogados fica mais restrito.

O maior período em que ele ficou isolado foi entre 2002 e 2003 -- foram 372 dias. Em 2017, ficou 302. E, em 2006, após os ataques do PCC, que geraram mais de 500 assassinados em maio daquele ano, Marcola ficou 240 dias seguidos na solitária. No presídio federal de Rondônia a previsão é de que ele fique os dois primeiros meses também em regime de total isolamento.

Seu último dia de pena, até o momento, está marcado para 21 de julho de 2276. O Código Penal Brasileiro prevê o limite de 30 anos de prisão, mas há exceções.

Isolamento machuca, mas reações variam

"O que mais me chama a atenção nesta informação que o UOL levantou é a quantidade de dias ao todo e dias seguidos em isolamento que ele ficou nos últimos 20 anos e ainda assim continua sendo apontado como líder da organização criminosa", afirma o psiquiatra forense Guido Palomba, reconhecido nacionalmente por trabalhar em laudos técnicos de crimes de repercussão.

Em um exercício hipotético, vejo três alternativas: ou ele na verdade não chefia nada, ou o isolamento não era bem feito ou é realmente um caso excepcional de liderança.

Palomba deixa claro que nunca teve acesso a nenhuma informação técnica ou diagnóstico de Marcola, e, por isso, evita falar especificamente dele. "Mas a princípio, o número de internações no regime diferenciado e a quantidade de dias seguidos que já foi punido com a restrição, demonstra sua irrecuperabilidade. O isolamento é uma medida drástica, forte, e mesmo seguidamente submetido a estas condições, ele reincide nos comportamentos que levam ao isolamento." 

Punir e intimidar 

De acordo com o psiquiatra, o isolamento no sistema prisional tem duas funções: punir e intimidar. "O que aparentemente no caso dele não tem efeito, o efeito coercitivo da punição não funciona", diz Palomba. 

Independentemente da personalidade envolvida, Palomba explica que ficar isolado muito tempo sempre machuca qualquer ser humano. "É sempre uma experiência dolorosa. A reação adversa mais comum é a depressão, tendências suicidas, ou aumento da agressividade. Mas depende da experiência e personalidade de cada um."

Em tese, sociopatas -- caracterizados como pessoas que não sentem empatia e possuem dificuldade de se colocar no lugar dos outros -- podem sofrer menos em uma situação de isolamento.

A dor dele ele sente, que é estar lá preso e isolado sem nada para fazer nem ninguém para conversar. Mas em alguns casos, se o detento possui essa patologia, ele pode sentir menos a parte da distância da família, dos amigos e de atividades rotineiras.

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Como Marcola virou chefe do PCC

Filho de pai boliviano e mãe brasileira, Camacho, à época (1986, quando foi preso pela primeira vez) conhecido como Ladrão de Oxigênio --por causa do protuberante nariz-- nasceu em Osasco, na Grande SP, mas foi criado ao lado do irmão mais novo na região central de São Paulo. 

Entre 1986 e 2000, ainda no começo da carreira, Camacho conseguiu fugir três vezes da cadeia. Foi recapturado em todas elas. A última vez que conseguiu fugir foi em 5 de junho de 1999. Foi recapturado um mês depois, em 19 de julho daquele ano.

Nesse período, precisamente em 31 de agosto de 1993, o PCC (Primeiro Comando da Capital) foi criado, na penitenciária de Taubaté (a 148 km de SP). Ele estava no local, mas não figurou entre os fundadores.

Com status de grande assaltante de bancos com gostos por carros, relógios e roupas caras, "Ladrão de Oxigênio" passou a ser chamado de "Playboy". Anos depois, em 2000, ele foi relacionado ao PCC pela Polícia Civil de São Paulo, e passou a ser conhecido como Marcola. 

Em 2001, Marcola foi acusado de ser um dos líderes de uma grande rebelião em todo o sistema prisional de São Paulo, que ocorreu após sua transferência de presídio. Desde então, passou a ser apontado pelo MP (Ministério Público) como um dos líderes do PCC. Um ano depois, foi apontado como o principal chefe da facção.

"Quem investigava a facção no seu surgimento era o delegado Ruy Ferraz Fontes", afirma a desembargadora Ivana David, do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo). "Eu era juíza corregedora. Então, todas as escutas telefônicas, interceptações e prisões temporárias eram decretadas por nós", afirma. Ferraz, atual diretor-geral da Polícia Civil, aceitou num primeiro momento falar sobre o assunto ao UOL. Mas após contato com a SSP (Secretaria da Segurança Pública), desistiu.

Marcola x Cesinha e Geleião

Em 2002, a facção enfrentou seu grande cisma que levaria Marcola sozinho ao topo do PCC. No ano anterior, quando aconteceu uma grande rebelião prisional em São Paulo, ele começou um confronto sobre rumos do PCC com os chefes da organização, Cesinha e Geleião, dois dos oito fundadores do PCC em 1993.

Radicais, Cesinha e Geleião queriam promover uma série de atentados contra autoridades e prédios públicos, como colocar uma bomba na sede da Bolsa de Valores de São Paulo. Marcola era contra e queria tomar a posição de líder. Para tanto, ele passou a colaborar com a polícia, de acordo com o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, fornecendo os números de telefone usados pelos oponentes e as centrais telefônicas da facção. O criminoso nega.

O conflito se acentuou com o assassinato de sua mulher, a advogada Ana Maria Olivatto, em 2002. Marcola tomou o poder e Cesinha e Geleião foram expulsos. Em 14 agosto de 2006, Cesinha foi morto na prisão. Isolado, Geleião cumpre pena no interior de São Paulo. Um novo questionamento sobre a liderança de Marcola dentro do PCC somente surgiria em 2018.

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O futuro de Marcola

Marcola passará dois meses isolado na prisão federal de Porto Velho. Mesmo quando voltar ao convívio normal com outros presos, durante as duas horas de banho de sol e almoço, terá suas conversas monitoradas pelos agentes da unidade. Tudo o que falar com seus advogados será de conhecimento do Depen (Departamento Penitenciário Nacional). Pelas regras atuais, não terá direito a visita íntima nem a do tipo familiar.

Diante de regras tão rígidas, conseguirá manter a ascendência sobre os milhares de integrantes da maior facção criminosa do país?

Há quase um ano, desde da morte de Gegê do Mangue, que era o mais graduado integrante da facção em liberdade, Marcola enfrenta questionamentos dentro da facção. Mas levará tempo para que perca sua posição de líder, se é que isso vai acontecer.

"Pode ser que consiga liderar sim, mas acho que não vai participar ativamente de todas as decisões, pois estará isolado", afirma o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, responsável pelo pedido de transferência da cúpula do PCC para presídios federais.

Não devem faltar interessados em ocupar o lugar de Marcola, o problema é possuir as características que o levaram ao topo da maior organização criminosa do país.

"A ascendência da liderança não será perdida facilmente. Não há outros com perfil semelhante", diz o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino. "Assim, se houver modificação na estrutura da organização, dependerá de tempo e da continuidade da repressão. A curto prazo, não creio em mudança das lideranças."

Os negócios continuam, onde quer que esteja a cúpula. "Hoje a figura de Marcola é mais simbólica do que estratégica na gestão do mercado da droga fora das prisões", afirma o sociólogo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

"Considerando que o PCC está em guerra em vários estados e que São Paulo representa seu porto mais seguro e sem conflito, entrar em confronto com o Estado agora seria colocar em risco a hegemonia do tráfico no maior mercado brasileiro", acredita o pesquisador.

Mais uma vez em isolamento, desta vez em um presídio federal, Marcola e sua organização, dentro e fora das grades, estão em compasso de espera.

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