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Não tenho esperança de que PCC acabou, diz promotor que pediu transferência

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola

UOL Notícias

Aiuri Rebello, Luís Adorno e Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

13/02/2019 19h25

Resumo da notícia

  • Promotor que pediu transferência de líderes do PCC concede entrevista ao UOL
  • Segundo Gakiya, isolamento vai quebrar conexão da cúpula com a facção criminosa
  • O promotor afirma ainda que governo anterior de SP era contra a medida

Apesar de ser um um golpe duro no PCC (Primeiro Comando da Capital), o isolamento dos líderes (Marcola inclusive) em presídios federais está longe de decretar o fim da facção. As autoridades de investigação já voltam a atenção a uma potencial "guerra interna" para ocupar os lugares no primeiro e segundo escalões da organização criminosa. Além disso, facções rivais, como o Comando Vermelho, podem tentar aproveitar o momento e atacar operações e posições do PCC.

Essas são as opiniões do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Ação e Combate ao Crime Organizado) do MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo). Gakiya é o autor do pedido que resultou na transferência de Marcola e outros 21 presos ligados ao PCC de penitenciárias estaduais de São Paulo para presídios federais na manhã de ontem. 

De acordo com a decisão judicial que decretou a transferência, os 22 presos ficarão em RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) por 60 dias após a chegada aos presídios federais de segurança máxima. 

"Conseguimos isolar todo o primeiro e segundo escalão da facção", afirmou o promotor de Justiça em entrevista ao UOL.

A estrutura da organização criminosa dentro e fora dos presídios continua existindo e me parece natural que haverá uma disputa interna para ocupar o lugar dessas lideranças que conseguimos isolar nos presídios federais. Não tenho nenhuma esperança que o PCC acabou.

Lincoln Gakiya, promotor de Justiça

O promotor destaca ainda a necessidade de um regime mais severo de encarceiramento para cessar a atividade dos líderes, que mantinham a organização da facção mesmo estando presos. "Essas lideranças que conseguimos isolar estavam aí, atuando atrás das grades, desde pelo menos 2006. Essa era acabou."

Movimentação na região de Presidente Prudente durante a transferência

UOL Notícias

"Governo anterior não queria transferências" 

De acordo com Gakiya, a gestão de Geraldo Alckmin (do PSDB, que governou o estado de São Paulo entre 2011 e 2018 e antes, entre 2001 e 2006) não concordava com a transferência das lideranças do PCC.

Os governos anteriores não concordavam com as transferências e tampouco houve uma articulação tão bem feita com o governo federal como foi neste caso, por isso essas transferências não aconteceram antes.

Ele conta que as transferências deveriam ter acontecido ainda no ano passado, mas foram adiadas por que o pedido vazou e foi divulgado pela imprensa. "Com isso perdemos o elemento surpresa e tivemos que adiar para preparar ainda melhor o esquema de segurança dessa ação", afirma o promotor.

Visita íntima proibida

Gakiya acredita o primeiro e o segundo escalão do PCC terão dificuldade de comandar a facção a partir dos novos presídios.

Nunca há 100% de isolamento, mas eles já começam no RDD [regime de isolamento] e, quando saírem [para o regime normal dos presos], encontrarão condições diferenciadas em relação aos presídios paulistas: visita íntima está proibida e encontro com visitas só no parlatório, através do vidro, 22 horas por dia de isolamento dentro das celas, vai dificultar muito a vida deles.

O promotor detalha o impacto da transferência na vida dos detentos. "O principal ponto é o isolamento territorial. Eles não possuem aliados próximos nestes locais, não têm família, amigos. Aqui no interior de São Paulo chegou em um ponto onde alguns dos líderes transferidos tinham a família morando na cidade dos presídios, que são próximos uns dos outros. Às vezes o mesmo advogado ou visita passava em um presídio, pegava ordens, levava para o outro no mesmo dia."

Ameaça de morte 

Em dezembro, duas mulheres foram presas deixando a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau carregando uma carta onde Marcola mandava matar Gakiya caso ele e seus comparsas fossem transferidos. 

"As ameaças continuam, não é a primeira nem vai ser a última", diz o promotor.

"Estou com escolta reforçada, minha família também, mas infelizmente faz parte", afirma o promotor. "A gente toma mais cuidado, fica receoso, claro, mas não temos medo, não."

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