De lutas e lutos

Eletricista quis voltar para casa após toque de recolher, apanhou da polícia e virou um dos 20 mortos no Chile

Luciana Rosa Colaboração para o UOL
Colectivo Registro Callejero / Divulgação

Era tarde de domingo (20) na comuna de Maipú, a 12 quilômetros do centro de Santiago, quando o eletricista Alex Núñez, 39, saiu apressado de casa para entregar um motor que acabava de consertar a um cliente que o esperava.

Mas Alex não calculou, talvez por ter se acostumado às liberdades de um país que considerava democrático, que a volta para casa poderia coincidir com o horário do toque de recolher determinado pelo Exército chileno.

Hoje, Alex é um dos 20 mortos na onda de protestos que há mais de dez dias se arrasta no Chile.

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

"Ele estava entregando um trabalho, e aí aconteceu tudo", diz ao UOL Rodrigo Nuñez, 22, filho de Alex. Na foto a seguir, Rodrigo veste uma jaqueta do Colo-Colo, time de futebol que ele aprendeu com o pai, agora morto, a amar.

"Nesse dia, o toque de recolher começou mais cedo, informaram muito tarde e ele não sabia muito bem", diz Rodrigo.

O Chile teve sete dias consecutivos com restrições à circulação impostas pelo Exército durante a noite, em uma tentativa de conter atos de depredação e saques que se seguiram aos dias de manifestação.

Em Santiago, houve toque de recolher no sábado a partir das 22h. Mas, no domingo, a restrição na capital veio mais cedo: a partir das 20h ou das 19h —as informações estão desencontradas.

Na internet, vídeos circularam com denúncias de humilhações, torturas e tiros disparados por policiais e soldados contra pessoas que desobedecessem à ordem de não circular nos horários estipulados.

Rodrigo, o mais velho dos três filhos que Alex deixou, afirma que o pai foi uma dessas vítimas. Ele relata que o eletricista foi abordado pela polícia, tentou escapar correndo, mas não conseguiu.

"Ao agarrá-lo, deram um chute em suas pernas. Três policiais o agrediram e o atingiram na cabeça, no crânio", diz Rodrigo.

Ele afirma que viu o pai na esquina "com o rostinho destruído".

Colectivo Registro Callejero / Divulgação Colectivo Registro Callejero / Divulgação

Últimas horas

Ao chegar em casa, Alex sentia dor, cansaço extremo e foi dormir.

"Na segunda de manhã, lá pelas 7h30, ele não estava respirando mais. Levaram meu pai com oxigênio até o hospital", diz o filho Rodrigo.

Alex ficou em observação e, às 3h30 da terça-feira, morreu. O caso foi informado ao Instituto Nacional de Direitos Humanos (IDNH) do Chile.

"A primeira denúncia foi feita para o IDNH, no mesmo dia em que o 'Ale' deu entrada no hospital, na segunda à noite. E agora está em poder dos advogados", diz Natalia Pérez, ex-mulher de Alex.

Mesmo separados havia quase sete anos, Natalia e Alex tinham boa relação.

"Quando me disseram que os 'carabineiros' tinham batido nele, fui vê-lo. Ele estava todo machucado, mas lúcido, até rimos um pouco", relata sobre os momentos com o pai de seus três filhos.

A região onde vive a família de Alex foi um dos focos dos protestos da última semana. O bairro está próximo a uma das estações do metrô incendiadas e saqueadas —"El Sol".

Natalia conta que, na noite em que Alex foi ferido, "o clima nas ruas estava muito, muito violento".

Após os protestos e as denúncias de excessos policiais, o governo de Sebastián Piñera trocou parte dos ministros, pediu desculpas à população e afirmou que vai colaborar com as investigações. A ONU (Organização das Nações Unidas) enviará uma missão ao país para averiguar os relatos.

Juan Gonzalez/Reuters Juan Gonzalez/Reuters
Luciana Rosa / Colaboração para o UOL Luciana Rosa / Colaboração para o UOL

Outra pessoa próxima de Natalia também diz ter sido alvo de violência policial durante as manifestações no Chile: o seu colega de trabalho Juan Soto Mesa.

"Ele está hospitalizado. Tentei me comunicar com ele, mas ele não está respondendo", afirma Natalia.

Ela diz que o colega integrou a avalanche de mais de 1 milhão de chilenos —quase 15% da população de Santiago— que foi às ruas na sexta-feira (25) protestar contra o governo.

As manifestações começaram como reclamação contra aumento da passagem de metrô, que foi cancelado, e derivaram em pedidos de renúncia do presidente e melhores condições de vida no país.

Natalia afirma que o colega foi atingido por balas de borracha enquanto estava na manifestação.

Martin BERNETTI / AFP Martin BERNETTI / AFP
Luciana Rosa / Colaboração para o UOL Luciana Rosa / Colaboração para o UOL

59 balas de borracha

O chef de cozinha Angelo Muñoz, 28, diz que nunca participou de nenhum protesto e saía do trabalho na última segunda-feira (21), por volta das 16h, quando foi agredido por policiais, segundo o relato da família.

"Ele passou em frente a um posto policial, eles o pararam, revistaram, perceberam que não tinha nada suspeito, mas quatro policiais começaram a agredi-lo e o detiveram", diz Germán Muñoz, seu irmão.

Germán diz que o irmão apanhou na cela e, às 21h, a polícia o liberou, junto com outras pessoas, para ir para casa.

"Meu irmão perguntou como iria para casa se havia toque de recolher. Eles disseram que não se importavam e mandaram meu irmão e os demais liberados correrem. Um policial disse que contaria até dez. E atirou pelas costas", diz Germán.

A imagem foi capturada por uma pessoa que estava próxima e viralizou.

"Meu irmão me contou que tinha avançado apenas cem metros quando sentiu os disparos. Ele viu ao lado uma garota correndo cair no chão", afirma Germán.

Angelo foi atingido por 59 disparos de bala de borracha e está internado no Serviço de Saúde Metropolitano Ocidente, onde passou por diversas cirurgias para a retirada dos projéteis.

Policial manda chilenos correrem e atira por trás

Chile em chamas

Até a última atualização desta reportagem, o Chile contabilizava, além de 20 mortos, 1.132 feridos, dos quais 38 por bala de fogo, e mais de 1.500 detidos.

Este é a convulsão social mais grave ocorrida no Chile nos últimos 30 anos, desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). O ponto central dos protestos é a capital Santiago, além de Valparaíso e outras 11 regiões que decretaram estado de emergência na última semana.

Apesar das tentativas de Piñera em acalmar os ânimos, o país registrou novos confrontos na última segunda-feira.

Em resposta às denúncias de abusos, os carabineiros do Chile afirmam que agiram para conter atos de vandalismo e saques. E afirmam também que há mais de 600 policiais "lesionados".

"Queria render uma homenagem pública aos nossos carabineiros. Estamos envolvidos em superar essa situação de desordens", escreveu o diretor da organização, o general Mario Rozas.

Curtiu? Compartilhe.

Topo