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Rio vive surto de micose causada por gato; abandono piora problema

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

10/10/2016 06h00

Uma micose transmitida por gatos aos humanos deixou em alerta as autoridades de saúde no Estado do Rio de Janeiro e já preocupa outras regiões do Brasil, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Distrito Federal. A contaminação por esporotricose soma 226 casos só no Rio de Janeiro neste ano.

Em 2015, foram 982 casos no Estado do Rio de Janeiro, o que representou aumento de 20% com relação ao ano anterior. A notificação não é obrigatória no Brasil. Contudo, tornou-se obrigatória no Rio devido ao número elevado de casos. 

Para especialistas, essa alta está associada à grande quantidade de gatos abandonados ou que não recebem tratamento adequado de seus donos. Não há vacina contra a doença, então "o jeito é cuidar dos gatos", diz o pesquisador Dayvison Freitas, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Presente em diversas regiões do mundo e conhecida há mais de cem anos, a doença possui tratamento demorado, que varia de três a seis meses, e pode ser mais grave em pessoas com baixa imunidade.

Confira abaixo que cuidados tomar

  • Micose profunda

    A esporotircose atinge animais e humanos e é causada por fungos do gênero Sporothrix, sendo o Sporothrix schenckii a espécie mais comum. Diferente de micoses que ocorrem na superfície da pele, a infecção por esse fungo é profunda. Normalmente, ocorre quando há um ferimento por material contaminado com o fungo.

  • Gatos transmitem para humanos

    O fungo acomete gatos, cachorros, e isso não é uma novidade. "Há casos conhecidos de ratos e de tatu que tem o fungo", afirma o especialista. Mas apenas os gatos transmitem para humanos. Segundo ele, pesquisas indicam que os gatos possuem menor resistência contra o fungo, e a doença neles é mais intensa. Associado a isso, o maior número de gatos em centros urbanos e a falta de cuidados com os bichanos explicaria do número de gatos em consequentemente, pessoas infectadas.

  • Ferida e espirro são sinais de doença no gato

    Quando o gato aparece com uma ferida em qualquer parte do corpo, principalmente na cabeça, parecendo um machucado de briga, pode estar com o fungo. Outro sinal de contágio pelo fungo são os espirros que não cessam. "Ele pode estar com feridas dentro do focinho", diz Freitas. O gato transmite a doença pelo arranhão ou pela mordida, quando está brincando com o dono, ou pelo espirro. O contato da pessoa com o pus ou a ferida também pode transmitir o fungo.

  • Abandonar os gatos agrava o problema

    O aumento das infecções pelo fungo através do contato com gatos infectados poderia levar as pessoas a abandonarem seus animais. Contudo, essa prática não resolveria o problema e ainda o agravaria. Os gatos se contaminam facilmente na terra onde há o fungo ou pelo contato com outros gatos. Abandonar os animais levaria ao aumento do número de contágios. Vale lembrar que o abandono é crime. "O gato não é culpado. É, na verdade, a maior vítima. Ele precisa das pessoas para cuidarem dele", completa Freitas.

  • Surto no Rio de Janeiro

    Até 1997, eram registrados um ou dois casos por ano no Rio. A partir de 1998, esse número começou a aumentar muito, chegando a quase mil casos em 2015. Todos eles envolvem o contato da pessoa contaminada com gatos que possuem feridas. Também cresceu o número de atendimentos a gatos com esporotricose. A doença em humanos tornou-se de notificação obrigatória no RJ e há registro de aumento também em SP, RS, ES e DF, sempre associado ao contágio por contato com gatos infectados.

  • Fungo da terra

    Antigamente, a contaminação acontecia pelo contato com a terra, já que o fungo vive onde há matéria orgânica em decomposição. "É também conhecida como doença do jardineiro ou doença da roseira", diz Freitas. Quem mora em áreas rurais costumava ser mais afetado.

  • Principal prevenção é cuidar bem dos gatos

    Pelo fato da explosão de transmissões estarem associadas ao contato com os gatos, a melhor forma de prevenção é evitar que esses animais se contaminem. É, portanto, importante manter o gato dentro de casa ou do apartamento. Segundo Freitas, os gatos mais afetados são machos que frequentam a rua - onde brigam, cruzam, caçam, mexem na terra e em plantas, se expondo ao fungo. Uma sugestão do especialista é a castração, que pode deixar o bichano mais dócil. Ao primeiro sinal de contágio, o gato deve ser levado ao veterinário. O tratamento é feito com remédio ministrado todos os dias por até seis meses.

  • Micose em humanos tem pus e demora para fechar

    São sinais da esporotricose feridas, caroços ou bolas de pus que não cicatrizam. O aparecimento de caroços enfileirados também indica a micose. A primeira coisa a se fazer é procurar um médico e contar se houve contato com gato ou terra. O tratamento é feito como remédio antifúngico, com uma cápsula uma vez ao dia. As feridas podem levar de três a seis meses para fechar (em alguns casos, demoram até um ano). Pessoas com baixa imunidade (como pacientes com Aids), podem sofrer com meningite, lesões no osso e até morrer. Há casos de contágio de forma atípica, como nos olhos, que exigem maior cuidado. Não existe vacina nem para humanos nem para animais.