Para cientistas, riscos associados a zika são maiores do que se pensava

Wyre Davies

Correspondente da BBC no Rio de Janeiro

  • Adriano Vizoni/Folhapress

Transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o vírus da zika pode ser mais perigoso do que o pensado anteriormente, afirmam cientistas brasileiros.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, o vírus pode estar por trás de ainda mais danos às funções neurológicas e afetar os bebês de até um quinto das mulheres infectadas.

Apesar de as taxas de avanço do contágio terem diminuído em algumas partes do país, graças a mais informações sobre prevenção, a busca por uma vacina está ainda no estágio inicial. Além disso, a zika continua a se espalhar pelo continente.

A maioria dos médicos e pesquisadores (bem como o Ministério da Saúde brasileiro e a agência de prevenção a doenças dos EUA) concorda que há uma ligação entre o vírus e a microcefalia, condição que prejudica o desenvolvimento do cérebro e faz com que bebês nasçam com a cabeça menor que o normal.

Embora estimativas (obtidas a partir de um estudo na Polinésia Francesa) apontem que 1% das mulheres infectadas durante a gravidez terão bebês com microcefalia, alguns dos principais cientistas envolvidos nas investigações sobre a doença no Brasil estimaram à BBC que até 20% das gestações afetadas podem resultar em vários dos outros tipos de danos ao cérebro.

Um estudo separado, publicado pelo periódico científico New England Journal of Medicine, aponta que "29% dos exames mostraram anormalidades em bebês no útero, incluindo restrições ao crescimento, em mulheres infectadas por zika".

Um dos problemas é que muitos dos males que médicos brasileiros têm notado em bebês de mães que tiveram zika não são tão óbvios quanto a microcefalia. São más-formações que até podem não ter o mesmo impacto no desenvolvimento da criança, mas que estão ocorrendo com uma frequência alarmante.

"Há calcificações no cérebro, um aumento no número das dilatações nos ventrículos cerebrais e a destruição ou má-formação da parte posterior do cérebro", afirma Renato Sá, obstetra que trabalha em hospitais públicos e privados do Rio de Janeiro.

Ele lista uma série de problemas que vem encontrando com uma crescente regularidade: ventriculomegalia (aumento dos ventrículos cerebrais), danos à fossa posterior do crânio, craniossinostose (fechamento prematuro das suturas craniais, fazendo com que a cabeça se desenvolva da maneira errada) e calcificação cerebral.

O médico inclui uma preocupação adicional: geralmente não há um vestígio óbvio ou sintoma do dano neurológico até as checagens mais tardias do desenvolvimento do bebê, apenas "talvez convulsões ou outros sinais indicadores".

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'Atônitos'

Há uma necessidade urgente de se entender mais sobre a zika e desenvolver uma vacina. Os laboratórios do Instituto D'Or, no Rio, estão usando células-tronco para criar tecidos que se desenvolvem como o cérebro humano. Chamados de "minicérebros", esses tecidos são depois infectados com Zika.

"O que nós observamos é que o vírus da zika é capaz de matar células e de afetar o crescimento delas", diz o neurocientista Stevens Rehen, um dos responsáveis pela unidade.

O especialista também observou, assim como outros pesquisadores, que há algo particularmente violento na cepa do vírus que chegou ao Brasil e está se espalhando pelo continente.

"Há algo no zika que o torna mais inclinado a matar células cerebrais em desenvolvimento. Agora nós precisamos pesquisar e entender o que faz esse vírus ser mais agressivo para o cérebro em desenvolvimento."

A equipe está espantada com o que já descobriu: uma grande redução do crescimento do córtex, a camada externa do cérebro.

"Os efeitos são muito impressionantes", afirma a pesquisadora Patricia Garcez. "Estamos todos atônitos com a rapidez. Vimos células morrerem em três dias, um número grande delas. Em seis dias, as neuroesferas (conjunto de células-tronco cerebrais) haviam morrido completamente."

Realidades

Diferentemente de meses atrás, as áreas com maior infecção pelo zika estão agora mais ao sul do país, principalmente no Rio de Janeiro.

Entre alguns setores da sociedade, campanhas públicas sobre a necessidade de usar repelentes e tomar outras precauções aparentemente estão tendo um impacto positivo.

Segundo o obstetra Renato Sá, do Rio de Janeiro, o número de casos de zika entre grávidas de classe média caiu bruscamente, assim como os de microcefalia e outras condições similares.

Exemplo de uma outra realidade, Fabiane Lopes, mãe de quatro filhos, conversou com a BBC em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Seu parceiro a abandonou quando ela descobriu que a mais nova nasceria com microcefalia.

Embora enfrente uma situação difícil – ela vive em uma casa de um quarto e depende de benefícios do governo –, Lopes demonstra calma. E ela precisa estar assim: hoje com quatro meses de idade, Valentina demanda muito amor, atenção e terapia.

"Nós não vimos campanhas contra o vírus da zika por aqui", conta, mostrando como as mensagens do governo sobre a doença não estão chegando a todos. Ela relata nunca ter usado repelentes e que não tomou outras precauções durante a gestação.

É uma mãe que claramente ama seu bebê; seus outros filhos a ajudam com as tarefas que caberiam ao pai ausente.

Sua casa é o retrato de uma família e de um país que ainda estão aprendendo o quão devastadores são o vírus da zika e suas consequências.

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