Menina de 3 anos ganha novo aparelho auditivo após vaquinha na internet

Gabriel Francisco Ribeiro*

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    Campanha "As Cores dos Sons" para Flávia arrecadou dinheiro em menos de uma semana

    Campanha "As Cores dos Sons" para Flávia arrecadou dinheiro em menos de uma semana

A internet fez a diferença para uma menina de apenas três anos. A garota Flávia de Oliveira Nania, que tem surdez total nos dois ouvidos, perdeu na escola parte dos implantes cocleares que a fazem ouvir. Cada um custa R$ 36.666 e o colégio se prontificou a pagar por um dos implantes. O outro? Será comprado graças à solidariedade de muitas pessoas.

Após a perda dos dois implantes em junho, a família de Flávia, que mora na Praia Grande (SP), conseguiu o empréstimo dos mesmos dispositivos até dezembro com a empresa responsável pelo produto. Sem formas de bancar os mais de R$ 36 mil do novo implante, os familiares iniciaram na noite de 9 de novembro uma campanha no Facebook em busca do dinheiro. Só não esperavam conseguir a meta em menos de uma semana.

"Nós nem acreditamos. Foi mobilização mesmo. A gente divulgou na quarta (9) às 22h o primeiro post. Os amigos começaram a compartilhar, uma amiga enviou para comerciantes de São Paulo. Na sexta-feira, já conseguimos R$ 14 mil. No feriado conseguimos bater a meta", conta Renata Oliveira, mãe de Flávia.

A mobilização não só cumpriu o objetivo como já passou dos R$ 41 mil – a família diz que doará o excedente para alguma campanha relacionada ao problema da filha.

Reprodução
Flavia conseguiu novos aparelhos com ajuda de campanha online
A grande importância do implante para Flávia foi notada no período em que a garota ficou sem ele. Em apenas uma semana, entre a perda do dispositivo e a chegada do aparelho emprestado, o regresso foi grande para a garotinha, conta a mãe.

"Entre ela perder o aparelho e conseguir o emprestado demorou uma semana. Nesse tempo regrediu cerca de um ano no mapeamento que é feito. Foi exatamente uma semana. Quando foram regular o programa para voltar a ouvir, foi notada esta regressão", explica Renata.

"O meu mamãe é muito mais especial"

O problema na pequena Flávia foi descoberto quando ela tinha seis meses de vida. Os exames foram normais após o nascimento, mas ela passou a perceber que o bebê não reagia como as outras crianças. A gota d'água foi quando um rojão explodiu na frente de sua casa, assustando toda a família – menos a Flávia, que não demonstrou reação nenhuma.

"Pesquisei na internet e suspeitei que ela poderia não ouvir. O pediatra encaminhou para uma otorrino que fez três meses de exames e viu que não escutava. Ai indicou para um otorrino de São Paulo. Descobrimos que ela não ouve nada. A única coisa que ela ouviria é uma buzina se estivesse dentro do navio, na cabine. Não sabemos a causa, ela tem a formação perfeita", explicou a mãe.

Lucas Bevilacqua Alves da Costa, otorrinolaringologista que realizou o implante coclear em Flávia, explica que a surdez profunda, como a de Flávia, é caraterizada pela incapacidade de detectar qualquer tipo de som. Ela pode ser causada por diversos fatores, como má formação do órgão auditivo (a cóclea) ou comprometimento da via auditiva. "Nós ouvimos com o córtex cerebral. O ouvido é o instrumento que capta sons ambientes e levam para o córtex", diz. A meningite, sífilis e outras doenças podem gerar surdez. 

Para o médico, o diagnóstico precoce é fundamental. "Isso por causa da plasticidade cerebral [na infância]. Com o implante, vamos proporcionar que a pessoa desenvolva habilidade auditiva e melhore a habilidade de comunicação, desenvolvendo linguagem oral", diz. 

Com o implante, Flávia já consegue ouvir praticamente tudo e tem dificuldades apenas na fala, que está no nível de uma criança de pouco mais de um ano. "Ela ouve super bem com os aparelhos. A audição já estava bem parecida com a de uma pessoa ouvinte, muito boa. Para falar ainda não está tão bem, mas ela se faz entender. Cada dia é uma conquista. Cada mamãe que ela fala, eu me emociono e grito. As crianças ouvintes que me perdoem, mas o meu mamãe é muito mais especial", brinca a orgulhosa mãe.

Reprodução/Facebook
Flávia tem surdez total em ambos os ouvidos

Deficiência auditiva é comum, mas passa despercebida

O tratamento da deficiência auditiva severa, além de fono e otorrino, incluiu duas longas cirurgias de cinco horas para implantar o aparelho. Ele envolve uma parte interna que fica no ouvido da menina e outra externa e móvel, a que foi perdida. A unidade interna estimula eletricamente a cóclea, o nosso órgão auditivo. Essa prótese recebe informações por radiofrequência de sons captados e codificados pela parte externa, composta por microfone, processador e antena.

A expectativa é de que a prótese interna não seja trocada ao longo da vida. Já o processador externo requer manutenção, troca de bateria. Por isso, é removível. 

A parte externa do implante é presa similarmente a um imã. O problema é que esta parte externa nem pode ficar muito rígida porque pode machucar a pele da criança - já houve casos do tipo. Renata conta até que prendeu os dois implantes por um elástico para dificultar a perda do aparelho, mas não adiantou. 

No Brasil, de acordo com dados do Censo de 2010, 1,12% da população possui deficiência auditiva severa. O implante coclear seria necessário nos casos de surdez severa ou profunda nos dois ouvidos. Ela pode existir desde o nascimento ou ser adquirida ao longo da vida. 

*Colaborou Fernando Cymbaluk Couri

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