Febre amarela está em zona rural, e você pode estar protegido; saiba mais

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

  • Douglas Magno/AFP Photo

    Vacina contra febre amarela é aplicada em cidades com casos prováveis em Minas Gerais

    Vacina contra febre amarela é aplicada em cidades com casos prováveis em Minas Gerais

A febre amarela é uma doença grave e que acarreta chances altas de morte. Transmitida pela picada de três mosquitos diferentes, está presente em um vasto território do Brasil, principalmente na Amazônia e em áreas rurais do Sudeste e Centro-Oeste, onde pode reaparecer ano a ano em surtos cíclicos. 

No entanto, é uma doença controlada por uma vacina elaborada com o vírus vivo atenuado (chamado cepa 17DD) e que garante eficácia de cerca de 95%. 

Até a terça-feira (24), foram confirmados 70 casos de febre amarela no Brasil, sendo 40 mortes. Os casos suspeitos somam 364 e 49 deles são óbitos. Em Minas Gerais, pelo menos 40 cidades apresentam registros de pacientes com suspeita da infecção. Vinte cidades de outros três Estados (São Paulo, Bahia e Espírito Santo) também têm casos suspeitos.

As notícias sobre o aumento do número de casos causaram uma corrida de moradores de áreas urbanas, como Belo Horizonte, aos postos de vacinação. Especialistas consultados pelo UOL, contudo, afirmam que não há motivo para alarde.

Em cidades, a febre amarela é transmitida pelo famigerado Aedes aegypti, o "mosquito da dengue, zika e chikungunya". Mas ele não transmite a febre amarela tão bem como transmite as outras doenças.

Além disso, o Brasil produz a vacina, desenvolvida pelo laboratório Bio-Manguinhos da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), desde 1937. Ela está presente no calendário nacional de vacinação onde a doença é endêmica e é recomendada para quem viaja para áreas de risco.

Se você tomou a vacina alguma vez, nem que tenha sido há 20 anos, quando fez aquela viagem ao Pará, pode já estar protegido.

O UOL tirou dúvidas sobre a febre amarela e a vacinação contra a doença com especialistas.

Por que apareceu em áreas rurais?

Existem três mosquitos que transmitem a febre amarela: o Haemagogus, o Sabethes e o Aedes aegypti. Os dois primeiros vivem em matas e áreas rurais. São eles que estão transmitindo a doença no surto atual em regiões de Minas Gerais. A febre amarela existente nesses ambientes é chamada de silvestre.

No Brasil, a febre amarela silvestre é endêmica em toda região Norte e Centro-Oeste e em partes das regiões Sudeste, Sul e Nordeste. O vírus da doença está presente em macacos e passa para as pessoas pela picada do mosquito. "Fora das cidades existem as condições ideias para manter o ciclo da doença, que é a presença dos mosquitos e do macaco", diz Helena Brigido, epidemiologista da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Ale Frata/ Frame/ Estadão Conteúdo
O vírus da febre amarela está presente em macacos. Mosquitos que picam animais infectados podem transmisitir para humanos

O vírus não é transmitido diretamente dos macacos aos humanos, portanto, a morte dos animais se torna um alerta para que sejam tomadas medidas de proteção da população. Assim, é importante que não se matem os macacos, como ocorreu em alguns casos recentes.

E a febre amarela pode chegar a cidades?

A febre amarela urbana é menos comum. Isso porque o Aedes aegypti, que transmite dengue, zika e chikungunya, não é um bom transmissor da doença. "Mas se uma pessoa que contraiu dengue na área rural for picada na cidade pelo Aedes aegypti, a doença poderá ser transmitida", explica o infectologista Celso Granato.

Uma pessoa doente pode servir como fonte de infecção para o Aedes aegypti durante no máximo 7 dias - entre 24 a 48 horas antes do aparecimento dos sintomas ou de 3 a 5 dias após os sintomas. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem registros apenas de febre amarela silvestre.

Os últimos casos de febre amarela urbana foram registrados em 1942, no Acre. Já o último surto da febre amarela silvestre ocorreu entre 2008 e 2009, quando 51 ocorrências foram confirmadas. 

Douglas Magno/AFP Photo
Pedro Joel e Teresinha de Oliveira, pais de uma das prováveis vítimas de febre amarela silvestre em MG

É surto ou epidemia?

O aumento do número de casos de uma doença acima do normal, em regiões específicas, sem espalhamento, é considerado um surto. Desde o começo do ano, foram registrados mais de 150 casos suspeitos de febre amarela, e mais de 45 mortes, em cerca de 25 municípios de Minas Gerais. Todos eles fazem parte da área de recomendação para vacinação, assim como todo o Estado de Minas Gerais.

Os números são bem maiores do que os confirmados em todo o Brasil em 2015 (nove casos, com cinco óbitos) e 2016 (seis casos, com cinco mortes). Para os especialistas, ainda assim, as chances de propagação da doença para áreas urbanas são pequenas.

"Há um percentual muito grande da população que foi vacinada. É pouco provável que esse surto escape do controle", diz Granato. Para o infectologista, a explicação do surto atual pode estar ligada ao fato de menos pessoas terem sido vacinadas do que se imaginava. Também há a hipótese de que os casos estejam relacionados com um desequilíbrio causado pela tragédia de Mariana

Neste momento, o Ministério da Saúde já enviou a Minas Gerais, 285 mil doses da vacina, para serem aplicadas preferencialmente em áreas rurais de municípios com casos suspeitos e pessoas que nunca se imunizaram.

Thinkstock
Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, também pode transmitir febre amarela

Como se proteger

De acordo com o ministério, a única forma de evitar a febre amarela é através da vacinação. Ela está disponível gratuitamente durante todo o ano na rede SUS (Sistema Único de Saúde). "Infectologistas não veem febre amarela em pessoas vacinadas", diz Granato.

O Ministério recomenda a vacina para pessoas a partir de nove meses de idade que vivem nas áreas endêmicas ou viajarão para lá e a partir dos seis meses, em situações de surto.

"O risco de tomar vacina pode ser maior que o de ser picado pelo mosquito", diz Granato (veja abaixo as contraindicações da vacina). Vale lembrar que quem já teve a doença fica protegido pelo resto da vida. A vacina é oferecida em postos de saúde, aeroportos e centros de imunobiológicos especiais.

É preciso tomar quantas doses da vacina?

Até 2014, acreditava-se que era preciso tomar a vacina a cada dez anos. Contudo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a considerar que após os cinco anos de idade, uma única dose é suficiente para garantir a imunização contra a doença.

No entanto, o Ministério da Saúde mantém, como medida adicional de proteção, o esquema de duas doses da vacina febre amarela no calendário nacional, sendo uma dose aos noves meses de idade e um reforço aos quatro anos.

Quem deve ser vacinado agora?

Nas cidades que vivem surto de febre amarela, a vacinação imediata é dada preferencialmente a pessoas que vivem em áreas rurais com casos suspeitos e a pessoas que nunca se imunizaram contra a doença. Segundo o Ministério da Saúde , todos os Estados estão abastecidos com a vacina e o país tem estoque suficiente para atender toda a população nas situações recomendadas.

A vacina é recomendada para moradores de toda a região Norte e Centro-Oeste, parte do Nordeste (Maranhão, sudoeste do Piauí, oeste e extremo-sul da Bahia), do Sudeste (Minas Gerais, oeste de São Paulo e norte do Espírito Santo) e do Sul (oeste do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).

Para o restante do país, o órgão afirma que continuam valendo as orientações de praxe: quem reside em áreas onde a vacina é recomendada e pessoas que vão viajar para regiões silvestres, rurais ou de mata dentro dessas áreas, devem se imunizar. A vacina deve ser tomada 10 dias antes da viagem para região de risco. 

Folhapress
Frascos de vacina contra febre amarela

Quem não deve tomar a vacina?

Por se tratar de um vírus vivo atenuado, a vacina oferece riscos para pessoas que possuem baixa imunidade ou que tenham alergia a ovo, que é usado em sua fabricação. Nessas pessoas, ela pode causar reações alérgicas, reações no sistema nervoso central e o desenvolvimento da própria doença. 

Assim, ela não é recomendada para quem é portador de HIV, pessoas que possuem doenças que diminuem a imunidade natural do corpo (como câncer), para bebês com menos de seis meses, mulheres grávidas ou que estejam amamentando e idosos com mais de 60 anos. Pessoas com esse perfil até podem tomar a vacina, mas precisam passar antes por avaliação médica.

Quais são os sintomas da febre amarela?

A febre amarela possui sintomas repentinos, como febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos. Essas primeiras manifestações podem durar até três dias. "Existem as formas leve, moderada, grave e maligna da doença. A partir da forma moderada, é importante ficar vigilante. Uma forma pode evoluir para outra", diz Brigido.

A infectologista explica que a febre amarela é uma doença sistêmica, que ataca diversos órgãos, sendo os alvos principais do vírus o fígado, os rins e o cérebro. Assim, as formas mais graves têm como sintomas insuficiência hepática e renal, icterícia (olhos e pele ficam amarelados, daí o nome "febre amarela"), hemorragias (com sangue na urina, fezes e vômito) e encefalopatia (marcada por confusão mental e danos cerebrais que pode levar ao coma).

Getty Images
A febre amarela tem esse nome por provocar icterícia, que é a coloração amarela da pele e olhos. A vírus causador da doença ataca principalmente o fígado e os rins

Como é o tratamento?

De acordo com os especialistas, é importante procurar atendimento médico nos primeiros sintomas. Assim, dores abdominais, redução do volume da urina, além de febre, vômito e dor de cabeça, são sinais de alerta. Na consulta, é importante que você informe ao médico se viajou para áreas de risco nos 15 dias anteriores ao início dos sintomas, se já tomou a vacina contra a febre amarela e quando tomou.

A maioria das pessoas apresenta melhora após os sintomas iniciais. Contudo, cerca de 15% desenvolvem uma forma mais grave da doença. Nesses casos, o tratamento é feito com a internação do paciente. Até 50% das pessoas que desenvolvem doença grave podem morrer. O óbito pode ocorrer em um período de sete dias se não for tratada rapidamente.

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