"Não queria viver temendo outro câncer", conta jovem que retirou as mamas

Larissa Leiros Baroni

Do UOL, em São Paulo

  • Lucas Viggiani

    Em outubro do ano passado, Camila Porto posou para campanha de prevenção ao câncer de mama

    Em outubro do ano passado, Camila Porto posou para campanha de prevenção ao câncer de mama

Aos 32 anos, a fisioterapeuta Camila Porto foi diagnosticada com câncer na mama esquerda e se deparou com a difícil decisão de remover não apenas o peito comprometido para evitar que no futuro voltasse a ser assombrada pela doença. "Seria bem difícil viver com essa possibilidade", afirma ela, que sacrificou as duas mamas por seus sonhos. "Ainda tenho muito que viver e realizar."

Após o tumor de pele, o câncer de mama é o mais comum entre as mulheres. Segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer), em 2016, foram estimados 57.960 novos casos no país. O câncer que é mais frequente em mulheres acima de 50 anos é também cada vez mais comum em jovens (incidência mundial que varia de 5% a 7%).

Leia o depoimento da fisioterapeuta Camila Porto:

"Três meses após parar de amamentar o meu segundo filho, notei um nódulo em meu peito esquerdo. Como sou da área da saúde [fisioterapeuta], sabia que poderia ser grave, mas mantive o pensamento positivo. Tentei me convencer por diversas vezes que talvez pudesse ser apenas leite empedrado ou algo do tipo. Marquei um ultrassom para tirar a dúvida. Primeira grande surpresa: o exame indicou uma classificação alta de risco. Ainda assim tentei não me abalar. No dia seguinte mesmo fiz a biopsia e ainda confiante de que não seria nada. Engano meu!

Fui buscar o resultado do exame no laboratório e abri o envelope no carro mesmo com os meus dois filhos --um de quatro anos e o outro de um ano-- no banco traseiro. Conclusão: câncer de grau 3 [escala de 1 a 4]. O momento foi de choque. Senti meu corpo se anestesiar, como se eu tivesse recebido um balde de gelo da cabeça aos pés. Uma única lágrima escorreu pelo meu rosto. Não me permiti chorar, dobrei o envelope e segui o meu caminho. 

Reprodução/Instagram
27 de abril de 2016, dia da 1ª quimioterapia, que marcou o início do tratamento de Camila

"Deu ruim", foi o que disse ao meu marido quando entreguei para ele o resultado do exame. Tentei manter a calma e o humor, mas fui tomada por uma crise de choro. Medo? Nervosismo? Não sabia bem ao certo o que estava sentindo nem mesmo o que me aguardava nos próximos meses. "Vida, você não está sozinha! Eu estou com você."

Mas essa não foi nem de longe a parte mais difícil dessa história. Por ser mãe, sabia que contar aos meus pais sobre a doença seria como uma facada no peito deles. E dessa vez eu estava certa. Minha mãe saiu gritando pela casa. Já meu pai optou por chorar no silêncio. Sentir a dor dos dois doeu ainda mais em mim, que precisava do amor deles para conseguir superar o que tinha pela frente. Unimos a força desse amor --aliado ao dos meus filhos e do meu marido-- para vencermos o câncer juntos.

Conformada com a minha doença, o que me restava era buscar a minha cura. Não me importava o que tivesse que passar ou sofrer, eu só pensava na minha cura. Foi quando descobri que a retirada da mama esquerda era a solução mais adequada para um tumor que já estava muito grande [5 cm] e que crescia a uma velocidade que assustou até os médicos. Em uma semana, tempo entre o ultrassom e a biopsia, ele cresceu 1 cm. E, incentivada pelo meu médico e com medo de ser novamente acometida pela doença, resolvi também pela remoção do peito direito.

Fiz o teste genético, que deu negativo. Mas ainda que as chances de o câncer reaparecer na outra mama eram pequenas não queria viver os meus próximos anos de vida temendo essa possibilidade. 

Seria bem difícil viver com essa possibilidade, mesmo que para isso tivesse que sacrificar uma parte do meu corpo. Eu já tinha amamentado os meus dois filhos e não queria mais engravidar. Com o apoio do meu marido, ficou ainda mais fácil tomar a decisão.

Em nenhum momento deixei a vaidade feminina falar mais alto. Nem mesmo quando perdi os meus cabelos nas sessões de quimioterapia.

Foram quatro meses marcados por muitas perdas, até porque essa primeira fase do tratamento é muito pesada. Ela tira a sua independência, o cabelo e a sua disposição. Mas ainda assim eu não estava vivendo a doença, mas sim a minha cura e o meu renascimento. Não vou dizer que não doeu, que não foi difícil e que não chorei muitas vezes. Mas sabia que para vencer tinha que passar tudo aquilo.

No dia 27 de julho de 2016, enfrentei mais de 10 horas de cirurgia para fazer a remoção e a reconstrução das duas mamas. 

Lucas Viggiani
"O diagnóstico precoce salvou a minha vida"

Quando abri o olho pela primeira vez, era como se eu tivesse nascido outra vez. Ganhei uma nova vida, um novo cabelo e um par de peito mais bonito do que antes. Isso porque tive o privilégio de estar com o que acredito ser os melhores profissionais e as melhores técnicas cirúrgicas.

Não foi nada fácil, mas nunca pensei em desistir. Em todas as minhas decisões, pensava no que seria melhor para os meus filhos. Meu principal foco era a sobrevivência, até porque ainda sou muita nova, tenho muitos sonhos e muito o que viver e realizar. Eu hoje, um ano após a cirurgia, tenho plena consciência de que tomei a melhor decisão.

Não sou mais a mesma. Estar diante da possibilidade da morte --que é como o câncer faz você sentir--, fez eu valorizar muito mais a minha vida, dar valor a pequenas coisas como um simples café da manhã com os meus filhos, entender melhor a dor do outro e não mais julgar as pessoas. O câncer foi a minha grande oportunidade de mudança física, espiritual e emocional.

Quando a retirada das mamas é indicada?

De acordo com o mastologista Antônio Frasson, do Hospital Albert Einstein, o médico faz a avaliação do risco a partir de exames, do histórico do paciente e testes genéticos. 

A identificação de um risco aumentado --superior a 20%-- possibilita a adoção de medidas preventivas, que incluem a realização de ressonâncias magnéticas com mais frequência, o uso de medicamentos anti-hormonais e até a mastectomia (retirada das mamas), como foi o caso de Camila, que teve o seu risco aumentado por causa de sua longa expectativa de vida.

"As chances do desenvolvimento do câncer na outra mama eram de 1%, mas considerando que ela ainda tenha uns 50 ou 60 anos de vida, o índice cresce para 60%."

Por conta disso, ele ressalta a importância de as mulheres com menos de 50 anos fazerem exames preventivos. "Os nódulos são as alterações mais comuns, mas não são as únicas. É preciso ficar atenta também a uma possível retração da pele, uma alteração na cor da mama ou até a saída de sangue no mamilo."

Há testes genéticos que avaliam possíveis alterações nos genes associadas ao câncer de mama e ovário, como explica Frasson. "A mutação de alguns genes pode aumentar as chances do desenvolvimento das doenças em até 80%." Esses exames custam de R$ 1.500 a R$ 5.000, são cobertos por alguns planos de saúde, mas não pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Frasson ressalta, no entanto, que a retirada das mamas não é garantia total de que o câncer nunca mais voltará a se manifestar. "A remoção reduz de 90% a 95% das chances do ressurgimento da doença".

A cirurgia, como afirma ele, vai impedir que as mulheres amamentem, mas, fora isso, não traz nenhuma limitação as pacientes que optarem pela medida. 

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