Como a vacina da febre amarela virou suspeita pela morte de jovem em SP

Larissa Leiros Baroni e Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Jovem de 14 anos morre com suspeita de leucemia e reação à vacina da febre amarela

    Jovem de 14 anos morre com suspeita de leucemia e reação à vacina da febre amarela

Ele morava na zona norte de São Paulo, uma região de indicação da vacina contra a febre amarela, e, assim como toda a família, não hesitou em optar pela imunização. No dia 12 de janeiro, compareceu ao posto de saúde mais próximo a sua casa e encarou a agulha. Mas, um pouco mais de dez dias depois, Gustavo Henrique de Sousa Candido, 14, começou a se queixar de dores abdominais. Ao notar um amarelamento no rosto do filho, os pais decidiram leva-lo ao hospital.

O adolescente deu entrada no Conjunto Hospitalar do Mandaqui no dia 26 de janeiro. "A reação vacinal foi uma das hipóteses iniciais, mas que logo foi descartada pelos médicos, que disseram não encontrar nenhuma alteração no fígado dele", disse a prima Bruna Rafaela Ferreira de Melo, 26. "Foi realizada uma série de exames, mas a única alteração foi no baço, que estava levemente aumentado", acrescenta.

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Com o descarte da hipótese de uma reação vacinal, os médicos passaram a suspeitar de leishmaniose [infecção parasitária], linfoma e leucemia. "Mas não houve tempo para confirmar o que de fato ele tinha", afirma a prima. "No sábado (27), às 22h, foram buscar o Gustavo para fazer mais exames, mas ele não conseguiu levantar da cama. Teve uma convulsão, saiu muito sangue pelo nariz e pela boca. Depois disso o levaram direto para UTI."

O garoto, segundo a família, sofreu ao menos duas convulsões e seis paradas cardíacas, até que no dia 29 de janeiro morreu. "A assistente social disse que a causa da morte foi a reação vacinal. O que nos deixou bastante surpreso, já que essa hipótese já tinha sido descartada inicialmente", disse Bruna. Tanto no "Guia de Encaminhamento de Cadáver" --assinado pela médica responsável pelo atendimento dele-- como no B.O. (boletim de ocorrência) o motivo do óbito foi descrito como "leucemia/reação vacinal?", com o ponto de interrogação.

Reprodução
Família mostra boletim de ocorrência com identificação inicial da causa da morte do garoto. A menção a autora do laudo foi retirada pelo UOL para preservar sua identidade durante as investigações

Em nota, o Conjunto Hospitalar do Mandaqui --por meio da Secretaria Estadual de Saúde -- informou que o "paciente G.H.de S.C. foi plenamente atendido desde que deu entrada na unidade, no dia 26 de janeiro", mas apesar de todos os esforços da equipe da unidade, houve piora clínica e óbito. 

IML pode ter a resposta

Os resultados dos exames do IML (Instituto Médico Legal), que podem demorar cerca de 30 dias para sair, poderão esclarecer a causa da morte. A Secretaria Municipal de Saúde afirmou não ter sido notificada ainda da morte de Gustavo, tampouco da possível suspeita de reação vacinal.

Mas esclareceu que casos como esse devem ser comunicados ao órgão, que encaminha os exames colhidos pelo IML ao Instituto Adolfo Lutz, que vai ou não confirmar essa possibilidade levantada pela equipe médica do Conjunto Hospitalar do Mandaqui.

Ainda assim, como afirma Celso Granato, infectologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e do Fleury Medicina e Saúde, quem possui qualquer tipo de câncer, como a leucemia (tipo de câncer que afeta as células sanguíneas), não pode tomar a vacina contra a febre amarela. Isso porque a doença afeta o sistema de defesa do organismo. Já o inchaço do baço é pouco comum em casos de febre amarela.

O vírus da febre amarela ataca principalmente o fígado. "Pode dar encefalite [inflamação do cérebro], atacar o rim, coração e baço. Mas esses não são os órgãos preferenciais do vírus", afirma.

Gustavo, que estava no nono ano do Ensino Fundamental, jamais chegou a ser diagnosticado com leucemia, disse a prima. "Tinha apenas traços de anemia falciforme [uma característica hereditária dos genes das pessoas, que não se manifesta nos glóbulos vermelhos do sangue e que, por isso, não provoca anemia]", afirma.

Investigar se a morte foi decorrente da vacina é muito complexo, segundo Alfredo Gilio, pediatra e coordenador da clínica de imunização do Hospital Israelita Albert Einstein. Uma biopsia do fígado pode indicar alterações sugestivas de infecção por febre amarela. Ainda assim, quando há dúvidas, é necessária uma investigação mais detalhada. "Não é bater o olho e saber. Com exames superficiais, não dá para fazer associações só porque a pessoa foi vacinada", afirma Granato.

No Brasil, são os IMLs (Instituto Médico Legal) os responsáveis por averiguar causas de mortes e notificar o Ministério da Saúde, para que sejam computados nas estatísticas oficiais. "Casos relatados estão nos levantamentos da literatura [científica] mundial e são bem documentados", diz Granato. Ele afirma que esses dados são importantes para averiguar se os riscos associados à vacina continuam os mesmos ou se sofrem alterações.

Para Gilio, ao mesmo tempo que milhares de pessoas estão sendo vacinadas, mortes por diferentes e inúmeros motivos continuam ocorrendo, o que pode levar a associações equivocadas. "Toda vez que se faz uma campanha de vacinação, seja ela qual for, quando morre alguém, [as pessoas] fazem uma relação temporal com a vacina. Mas não significa que ela [a morte] foi causada pela vacina", diz.

Vacina é considerada altamente segura

As reações adversas à vacina --como dores no corpo, dores de cabeça e febre -- podem afetar entre 2% e 5% dos vacinados nos primeiros dias após a imunização. Já as mortes são ainda mais raras. Segundo a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), esses casos ocorrem em um em cada 400 mil doses aplicadas.

É indicada para crianças a partir dos nove meses (ou seis meses, se o bebê vive em uma área de risco). Mas devem passar por consulta médica antes de tomar a vacina idosos a partir de 60 anos, gestantes, pessoas que terminaram o tratamento com quimioterapia ou radioterapia, portadores de doença renal, hepática ou no sangue e pessoas que fazem uso de corticoide.

Não devem tomar a vacina crianças menores de nove meses, mulheres amamentando crianças menores de seis meses, àqueles que têm alergia grave a ovo, quem vive com HIV e tem contagem de células CD4 menor que 350, quem está em tratamento com quimioterapia/radioterapia, a portadores de doença autoimune, e àqueles que estão em tratamento com imunossupressores.

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