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Em bairro da periferia, espera por consulta no SUS passa de 3 meses

Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
No bairro de Anhanguera, na periferia da zona norte de São Paulo, moradores têm de esperar mais de cem dias para uma consulta com um clínico geral do SUS Imagem: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

28/11/2018 10h01

No distrito de Anhanguera, no extremo norte de São Paulo, os moradores têm de esperar, em média, 107,99 dias para conseguir uma consulta com um clínico geral do SUS (Sistema Único de Saúde). É o que aponta a nova pesquisa do Mapa da Desigualdade, divulgada pela Rede Nossa São Paulo, nesta quarta-feira (28).

Segundo o estudo, o paulistano demora em média 45,3 dias para conseguir uma consulta com um clínico geral. Já no bairro de Marsilac, na zona sul, a espera é de 0,08 dia. Os dados foram extraídos do Siga (Sistema Integrado de Gestão de Atendimento), órgão vinculado à SMS (Secretaria Municipal de Saúde).

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A pesquisa ainda apontou as discrepâncias entre os bairros nos atendimentos de médicos da família, quando o profissional vai até a residência dos pacientes. Na região oeste da cidade, em Raposo Tavares, essa espera não passa de três dias. Em Itaquera, no entanto, se um morador quiser receber um médico da família, vai ter de esperar, em média, 53 dias.

Outro número que reflete a desigualdade na saúde do município é a proporção de leitos hospitalares --tanto públicos quanto privados-- em relação aos habitantes de cada bairro. O bairro da Bela Vista possui 48,42 leitos para cada mil moradores; já em São Rafael, na divisa com o ABC, são 0,04 leito para cada mil pessoas. O Mapa da Desigualdade registrou ainda que 29 bairros da cidade, do centro à periferia, não têm nenhum hospital para os moradores.

Ainda sobre a estrutura de saúde da cidade, o Mapa da Desigualdade apontou que Marsilac é o bairro com o maior número de UBS (Unidades Básicas de Saúde) a cada 10 mil habitantes. No bairro da zona sul, são 3,6 UBS para cada 10 mil moradores; já o bairro do Tatuapé, na zona leste, registra o pior número: 0,1 unidade de saúde para cada 10 mil pessoas. A pesquisa ainda mostrou que cinco distritos (Liberdade, Vila Mariana, Consolação, Barra Funda e Jardim Paulista) não possuem nenhuma UBS. 

Gravidez precoce atinge mais mulheres negras

O Brasil é um dos países com maior taxa de gravidez na adolescência do mundo. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) de 2015 mostram que, a cada mil bebês, 68,4 provém de mulheres de 15 a 19 anos. A pesquisa da Rede Nossa SP mostra que fatores como renda e raça são preponderantes. No distrito de Campo Belo, por exemplo, a gravidez precoce atinge 362% mais as mulheres negras do que brancas.

Os dados foram extraídos da SMS (Secretaria Municipal de Saúde), do SINASC (Sistema de Informações de Nascidos Vivos) e do CEInfo (Coordenação de Epidemiologia e Informação). A metodologia do estudo divide o número total de mães negras que tinham 19 anos ou menos pelo número total de mães não negras da mesma faixa etária.

Já no bairro da Bela Vista, na região central, há exatamente a mesma proporção de mulheres negras e brancas que passaram por uma gravidez precoce. O número alto de Campo Belo chama ainda a atenção pela distância da média da cidade, em que as mulheres negras apresentaram 45% mais casos de gravidez na adolescência.

O bairro de Campo Limpo, localizado na periferia sul da cidade, também registra outros índices de desigualdade racial na saúde. O indicador da Rede Nossa SP mostra que o número de casos de pré-natal insuficiente (quando a gestante realiza menos de sete consultas de pré-natal) é 639% maior em mulheres negras do que em não negras em 2017.

Analisando a população em geral, a pesquisa mostrou que o Itaim Paulista, no extremo leste da cidade, é o bairro onde mais mulheres deixam de fazer exames referentes ao pré-natal. A cada 100 gestantes residentes no distrito, 31,2 realizaram menos exames que o ideal. Já em Moema, bairro nobre da região centro-sul, o número é de 4,17 a cada 100 gestantes.

Idade média e mortalidade infantil

A pesquisa da Rede Nossa SP ainda mapeou as desigualdades na mortalidade infantil e na idade média ao morrer nos distritos da cidade. Na primeira, foi calculada a proporção de mortes de crianças menores de um ano a cada mil nascidas vivas. Enquanto no bairro de Socorro a média foi de 2,5 crianças mortas, em Artur Alvim, na zona leste da cidade, a proporção foi de 21,34 óbitos a cada mil nascimentos.

Os dados referentes à idade média ao morrer são ainda mais explícitos em relação às diferenças sociais da cidade. A média de morte dos paulistanos em 2017 ficou em 70,56 anos, mas, na Cidade Tiradentes, esse número é de 58,45 anos. Em contrapartida, no Jardim Paulista, no centro, a expectativa de vida é de 81,58 anos.

Como é viver no lugar onde se morre mais cedo, na média, em São Paulo?

UOL Notícias