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Fim da epidemia desafia descoberta de vacina eficaz contra o vírus da zika

Getty Images
Imagem: Getty Images

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, no Recife

31/03/2019 04h00

O fim da epidemia e a redução de casos de infecção no mundo tornaram-se o maior empecilho para a descoberta de uma vacina contra o vírus da zika. Após três anos da declaração de emergencial global pela OMS (Organização Mundial de Saúde) por conta dos aumentos nos casos de microcefalia no Nordeste, muitos investimentos em pesquisas foram feitos, mas os resultados ainda estão longe de serem conclusivos.

"Qual o problema agora? O declínio da epidemia. Se não surgirem mais casos, não temos como avançar para a fase três, que é quando podemos comprovar a eficácia. Esse é o maior desafio científico hoje", afirma Annelies Wilder-Smith, integrante da OMS e professora da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

A fase três é aquela em que, após os testes em laboratório, um grupo sujeito a infecções é vacinado e espera-se para ver o índice de imunização para comprovar a eficácia. Sem esse teste, uma vacina não pode ter resultados provados nem ser disponibilizada.

Passada a epidemia entre 2015 e 2016, a infecção por zika é considera endêmica --quando o vírus circula, mas em baixa intensidade-- no Brasil.

Empresas desistem de vacinas

Neste mês, a professora inglesa esteve no Recife para apresentar resultados de uma parceria de pesquisadores brasileiros e ingleses iniciada em 2016. Smith conta que, entre 2015 e 2016, 45 empresas se candidataram a desenvolver vacinas na OMS.

"Mas a maioria declinou antes mesmo da fase 2. Hoje temos poucas empresas pesquisando", afirma, explicando que o problema foi o baixo interesse dos governos e empresas após o "desaparecimento" da zika do foco dos noticiários.

Segundo a pesquisadora, existem dois tipos de vacina sendo estudados: um com vírus ativo e outro com inativo. No caso do ativo, não se sabe, por exemplo, se teria impacto nas mulheres gestantes.

Quem deveria ser vacinado?

Para o infectologista Demócrito de Barros Miranda Filho, que também integra o Grupo de Pesquisa da Epidemia da Microcefalia, além de descobrir uma vacina, um outro aspecto que não há consenso entre os cientistas é em quem a vacina poderia ser aplicada e em qual período.

"Quando --e se-- tivermos a vacina, temos que avaliar qual o melhor uso dela. Por exemplo: em Pernambuco quase se esgotou o público suscetível, por conta de a exposição já ter alcançado uma estimativa entre 70% a 80% de toda a população. Essas pessoas não vão precisar se vacinar. A vacina seria aplicada a todos ou só para mulheres? Seria aplicaria somente durante um surto?", questiona o médico.

Uma ideia é fazer uma vacinação infantil, que poderia prevenir casos no futuro. "Em uma situação endêmica, poderíamos vacinar os mais jovens, aqueles abaixo de nove anos, por exemplo. Eles estariam suscetíveis ao vírus por não terem sido expostos a nenhum período de epidemia. Assim, você acaba protegendo as pessoas para o futuro, já que, quando alcançarem a idade de engravidar, já estariam imunizadas", diz Miranda Filho.