Zika amplia crise na saúde do Rio e médicos alertam para falhas no atendimento na Olimpíada

Pedro Fonseca

  • RICARDO MORAES

O quadro de "calamidade" enfrentado pelos pacientes que dependem do serviço público de saúde do Rio de Janeiro tende a se agravar em decorrência do vírus da zika e pode comprometer o atendimento a milhares de visitantes durante os Jogos Olímpicos, alertam médicos.

"Se hoje já é difícil atender a população moradora do Rio de Janeiro, que dirá durante as Olimpíadas com a chegada de milhares de pessoas que virão assistir aos Jogos", disse à Reuters o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Dazre.

A disseminação da zika, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, deixou o país em alerta no momento em que atletas internacionais e turistas do Brasil e do mundo se preparam para viajar ao Rio para os Jogos de agosto.

Em meio a uma crise de recursos, que levou o governador Luiz Fernando Pezão a decretar estado de emergência no fim do ano passado, os locais de atendimento médico da cidade-sede da Olimpíada têm ficado ainda mais sobrecarregados com os casos de zika.

"O sistema está em situação de calamidade, não tem condições hoje de dar o atendimento necessário, e é claro que com as epidemias em curso a situação piora bastante", acrescentou Dazre.

Desde o início do ano foram notificados 1.499 casos de zika no Rio, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde em 10 de fevereiro, enquanto há um ano não se tinha sequer notícia de que o mosquito Aedes transportava o vírus no país.

Soma-se a isso um grande aumento nos casos de dengue, também transmitida pelo Aedes. Em janeiro, segundo dados municipais, foram registrados 1.122 casos, em comparação com apenas 165 um ano atrás.

LONGAS FILAS

José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Devido ao grande número de casos de dengue e zika no Rio, agentes da Secretaria Municipal de Saúde realizam uma ação de fiscalização e combate ao mosquito no sambódromo
 O aumento expressivo no número de casos se reflete em longas filas em unidades de atendimento médico da cidade por pessoas em busca de tratamento, apesar de a zika ser um vírus que não causa sintomas em quatro de cada cinco infectados.

Segundo relatos de pacientes, médicos de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) culpam o alto número de pessoas com suspeita de zika pela demora na atenção.

"O médico disse que metade das pessoas na fila era por causa da zika", afirmou a estudante Raiane Oliveira, de 19 anos, que contou ter passado seis horas esperando para ser atendida, e depois foi informada que os medicamentos para coceira na pele e febre tinham acabado devido ao grande número de pacientes.

Os problemas na rede pública de saúde do Rio, no entanto, não devem ter impacto para atletas e delegações dos Jogos, que serão cobertos pelo atendimento médico da organização da Olimpíada, mas muitos dos 500 mil visitantes estrangeiros esperados na cidade, além de um número ainda maior de turistas nacionais, podem ter de recorrer a UPAs e hospitais públicos.

O vírus da zika está causando alarme mundial desde que se alastrou pelas Américas, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência global de saúde pública em 1º de fevereiro devido à ligação entre o vírus e milhares de casos de bebês com microcefalia no Brasil.

PREOCUPAÇÃO

Alguns atletas estrangeiros já demonstraram preocupação em vir ao Rio para os Jogos Olímpicos em decorrência do surto, e o Comitê Olímpico dos Estados Unidos (Usoc) chegou a dizer a federações esportivas do país que atletas e funcionários temerosos do Zika vírus deveriam cogitar não disputar os jogos.

Pacientes da rede pública da cidade também reclamaram da falta de medicamentos para tratar os sintomas da doença, para a qual ainda não há vacina ou cura. A coordenação da rede de UPAs negou, em nota, que pacientes não estejam sendo assistidos por falta de medicamentos no local. "Todos os pacientes que buscam a unidade são acolhidos, não havendo desassistência", disse.

Autoridades municipais e os organizadores dos jogos insistem em dizer a quem pretende visitar o Rio na Olimpíada para não ter medo, uma vez que o mês de agosto, no inverno, é uma época em que o clima estará mais seco e mais frio, proporcionando condições menos hospitaleiras para o mosquito que transmite o vírus.

Apesar de o Aedes aegypti ficar menos ativo do que nos meses mais quentes, uma análise da Reuters de registros municipais de saúde de alguns anos mostra que infecção transmitida por mosquitos nos meses de agosto pode ser tão ruim ou até pior do que nos meses de pico usuais para as infecções.

"Nosso papel como sindicato dos médicos é alertar essa população que virá ao Rio de Janeiro, seja ela de outros Estados ou até mesmo de outros países, para que venham, mas venham sabendo que se adoecerem não terão instituições com possibilidades de dar o atendimento necessário", afirmou Dazre, do sindicato dos médicos.

 

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