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Como o 1º chip para smartphone feito no Brasil pode mudar os celulares

Helton Simões Gomes/UOL
Chip Snapdragon SiP 1, desenhado no Brasil e que começará a ser feito no país em 2020 Imagem: Helton Simões Gomes/UOL

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

2019-03-26T04:00:00

2019-04-01T17:29:10

26/03/2019 04h00Atualizada em 01/04/2019 17h29

Resumo da notícia

  • Novos Zenfone Max Shot e Max Plus são os primeiros a virem com novo chip da Qualcomm
  • O Snapdragon SiP 1 foi desenhado no Brasil e em 2020 será feito no país
  • Ele é o primeiro chip a ter design criado no Brasil, cuja indústria de semicondutor é pequena

Longe de ser conhecido no exterior por sua produção de tecnologias inovadoras de consumo, o Brasil pode acabar liderando uma mudança no mundo dos celulares logo com o primeiro microprocessador feito por aqui para estes aparelhinhos. E você simplesmente não vai ver nada disso.

Não à toa, a taiwanesa Asus escolheu o Brasil para fazer o lançamento mundial de sua nova linha de smartphone. Os Zenfone Max Shot e Max Plus são equipados com o primeiro chip da marca criado em terras brasileiras. Longe dos olhos de quem olha para a tela do aparelho, mas não sabe o que tem dentro dele, o chip, que é o coração e os pulmões de um celular, agrupa cerca de 400 componentes como CPU, GPU, modem, Wi-Fi, bluetooth, que costumam ficar espalhados pelo aparelho. Isso tudo foi desenhado no Brasil e deve começar, em breve, a ser produzido por aqui.

O chip Snapdragon SiP 1 é feito pela Qualcomm, a norte-americana que domina o mercado de processadores para smartphones no mundo. "Ele foi desenvolvido no Brasil e será fabricado no país quando a fábrica estiver pronta", diz Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm para América Latina.
Por ora, sua produção ocorre na China pela USI, braço da taiwanesa AES. A fábrica brasileira, a ser aberta em 2020 em Jaguariúna, no interior de São Paulo, é fruto de uma joint-venture entre a empresa chinesa e a Qualcomm. A primeira remessa de chips, diz Steinhauser, sai até o fim do ano que vem.

O Brasil apenas engatinha na indústria de microprocessadores. As empresas que lidam com esse segmento no país podem ser contatadas nos dedos de uma só mão:

  • Ceitec S.A., estatal vinculada ao MCTIC, fica em Porto Alegre (RS);
  • Unitec, ex-Six Semicondutores, de Eike Batista, ainda é pré-operacional, fica em Ribeirão das Neves (MG);
  • HT Micron, fica em São Leopoldo (RS);
  • Instituto Eldorado, fica em Campinas (SP);
  • Smart Modular Technologies, fica em Atibaia (SP).

Nenhuma dessas fábricas desenha chips para smartphone, o que torna o Snapdragon SiP 1 pioneiro nesse segmento no país. A novidade é turbinada ainda mais pelo projeto da fábrica, que pode intensificar a cadeia de produção de semicondutores por aqui.

Ainda que a produção local não tenha começado, o fato de o design do chip ser feito no Brasil já é um marco importante, devido ao grau de complexidade do trabalho, comenta Tadeu Lorenzi, diretor do Ceitec S.A. "Nessa área, design é desenhar o projeto do chip. Os chips têm várias camadas de silício. O que o engenheiro faz é como desenhar cada andar de um prédio de 10 a 11 andares. Como é tudo de tamanho micro, não tem como fazer de uma vez só."

A estatal criada em 2010 é a única empresa da América do Sul a trabalhar em todas as etapas de chip, do design até o seu encapsulamento. Engana-se quem pensa que ela vê com maus olhos a aterrissagem de uma gigante como a Qualcomm. Os negócios delas não são concorrentes, porque, enquanto a brasileira desenvolve projetos para outras indústrias, como a de transportes e a de meios de pagamentos, a norte-americana foca em smartphones. Para Lorenzi, a chegada da multinacional tem o potencial de impulsionar a indústria local.

Aumenta o grau de nacionalização porque reduz os custos nacionais para importar insumos. E outra: imagina o Brasil, que tem viés agrícola e de commodity bastante forte, estar produzindo alta tecnologia e de valor agregado

Tadeu Lorenzi

Segundo a Qualcomm, essa fábrica pode fazer o Brasil não ser mais obrigado importar cerca de R$ 20 bilhões em processadores todos os anos.
Já o fato de o chip desenhado aqui pela Qualcomm ser único no mundo dá sentido real ao tal "valor agregado" citado por Lorenzi. "Esse chip vai mudar tudo", diz Steinhauser.

Helton Simões Gomes/UOL
Rafael Steinhauser, vice-presidente da Qualcomm para a América Latina, mostra o chip Snapdragon SiP 1 Imagem: Helton Simões Gomes/UOL

Dentro do seu celular, há centenas de componentes que são dispostos pela equipe de engenharia dos fabricantes. Esse é um trabalho bastante detalhista e demorado. A disposição das diversas pecinhas pode decretar a morte ou o sucesso de um aparelho. Tanto é que Steve Jobs, cofundador da Apple e idealizador do iPhone, era um aficionado por esse trabalho de formiguinha. Segundo seu biógrafo, o escritor Walter Issacsson, Jobs seguiu os passos do pai adotivo, que tinha o hobby de remontar carros e gostava de marcenaria.

Se você é um carpinteiro fazendo uma cômoda, não vai usar madeira ruim na parte de trás dela, ainda que essa parte só vá ficar de frente para a parede, e ninguém nunca chegará a ver. Você sabe que está lá

Steve Jobs

Em um celular, os componentes ficam espalhados em uma placa conforme o arranjo estipulado pela equipe de engenharia da fabricante do aparelho. O novo chip da Qualcomm condensa em uma só caixinha, cujos lados são menores que uma moeda de R$ 1, cerca de 400 desses componentes. Estão lá dentro os sensores de movimento (acelerômetro e giroscópio), de conectividade, de localização (GPS), CPU, GPU, memórias e diversos outros processadores

E o que muda com isso? Segundo Steinhauser,o novo chip pode aumentar a capacidade do celular de realizar tarefas:

A performance melhora, porque a dissipação de calor é melhor, e a velocidade de processamento aumenta

Rafael Steinhauser

O chip encurta a chegada de um novo smartphone ao mercado já que reduzem alguns dos processos conduzidos pelas fabricantes, continua o executivo.

A complexidade que está lá é simplificada. A fabricação do celular passa a ser bem mais simples. [Usar esse chip] reduz os custos de fabricação e abre espaço [dentro do aparelho] e diminui o peso. Com isso, dá para fazer o que quiser lá dentro. Pode até deixar o celular mais fino

Steinhauser

O UOL Tecnologia conversou com o presidente da Qualcomm para América Latina em diversas oportunidades. Uma delas foi durante o Mobile World Congress (MWC), maior evento de tecnologia móvel do mundo, realizado em Barcelona, na Espanha. Enquanto ia de um lado a outro no stand da empresa, levava um desses chips no bolso. Quando parou para cumprimentar executivos chineses que se encaminhavam a uma reunião com representantes da Qualcomm, ele aproveitou para vender seu peixe. "Vocês têm que conhecer esse chip. Sem ele, não vai ter 5G nem internet das coisas."

A aposta da Qualcomm é que esse novo jeito de fazer chips possa ajudar no desenvolvimento de outros equipamentos conectados - e, com isso, cative seus fabricantes.

"É possível colocar um componente como esse, ou até menor, em qualquer aparelho que queremos conectar à internet e pronto", afirmou Steinhauser durante o lançamento dos smartphones da Asus.

Em meio a esse esforço de convencimento, a Qualcomm tenta distanciar esse novo chip, chamado formalmente de "System in a package" (SiP), de outro produto que ela e algumas de suas concorrentes asiáticas já fazem há anos, o "System on Chip (SoC). Também um conjunto de componentes, ele reúne menos elementos que o SiP, já que agrega CPU, GPU, processadores auxiliares e modems para conectividade móvel.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, os Zenfone Max Shot e Max Plus não são os primeiros celulares da Asus a serem fabricados por aqui. O erro foi corrigido.