Juan Manuel Santos gastou capital político na busca pela paz com as Farc

Em Bogotá

  • Carlo Allegri/Reuters

    O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, discursa na Assembleia-Geral da ONU

    O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, discursa na Assembleia-Geral da ONU

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de 65 anos, apostou todo o seu capital político para tentar colocar fim a meio século de guerra interna na Colômbia, um sonho inacabado que recebeu nesta sexta-feira (7) o apoio do prêmio Nobel da Paz.

O Comitê Nobel norueguês atribuiu seu influente prêmio a este incansável defensor do caminho da negociação, que diz não querer desistir de sua meta, apesar do resultado negativo do referendo ao qual submeteu sua proposta de paz.

"Seguirei buscando a paz até o último minuto do meu mandato porque este é o caminho para deixar um país melhor aos nossos filhos", disse no domingo após a derrota no veredicto popular da opção que preconiza.

Muitos questionaram Santos por seu empenho em validar nas urnas o histórico acordo com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, marxistas). Mas o chefe de Estado permaneceu firme.

A paz com as Farc, a maior e mais antiga guerrilha da América, "exigia coragem, audácia, perseverança e muita estratégia: as qualidades e forças de Santos", disse Mauricio Rodríguez, seu cunhado e conselheiro há mais de 20 anos.

Natural de Bogotá e proveniente de uma família importante, que sempre desejou conduzir os destinos de seu país, Santos pode agora se valer do prestígio do Nobel para buscar reviver seu esforço de pacificação através da saída negociada, meta que começou a traçar antes mesmo de iniciar sua carreira política, em 1991.

"Extremo centro"

Como jornalista, ganhou o prêmio Rei da Espanha com crônicas sobre a Revolução Sandinista na Nicarágua. Este trabalho "nos marcou profundamente", disse o presidente sobre a investigação que realizou com seu irmão Enrique, também chave no processo de paz com as Farc que se instalou formalmente em 2012, mas começou confidencialmente logo depois que Santos assumiu seu primeiro mandato, em 2010.

No entanto, quando chegou à Casa de Nariño, este político que se autodefine como de "extremo centro" já havia perseguido com implacável crueza as Farc como ministro da Defesa de seu antecessor Álvaro Uribe e, depois de decapitar sua cúpula, se preparava para dialogar a partir de uma posição de força.

Fez a guerra para alcançar a paz, afirmaram analistas. Mas sua guinada custou muitas críticas de traidor à doutrina de linha dura de Uribe, que desde então é seu opositor mais feroz, fortalecido após o referendo.

O Nobel da Paz chega em um momento em que este presidente enfraquecido busca uma saída para a reconciliação na Colômbia, atingida por décadas de violência de guerrilhas, paramilitares e forças estatais que deixaram oito milhões de vítimas, incluindo 260.000 mortos.

Um pragmático obstinado

"Imensamente racional", segundo as pessoas próximas, este homem que segue decidido a alcançar a paz da Colômbia foi questionado por sua imagem de frieza, falta de carisma e escassos dotes de comunicador.

Santos costuma madrugar e dormir tarde. Ele superou um câncer de próstata em 2012 e se submeteu no fim de 2013 a uma cirurgia para levantar as pálpebras e melhorar sua visão.

Admirador de Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Nelson Mandela, leitor voraz e declarado cinéfilo, Santos disse que sua verdadeira força vem da família que iniciou em 1988 com María Clemencia Rodríguez, "Tutina", mãe de seus três filhos.

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