Análise: Trump está longe de ser o primeiro presidente protecionista dos EUA

Em Washington

  • Nicholas Kamm/AFP Photo

Um presidente protecionista no reino do livre mercado: a nova direção que Donald Trump dá à economia dos Estados Unidos pode parecer incongruente, mas as restrições ao comércio têm uma longa história na Casa Branca.

Muito antes de Trump ameaçar a China e o México com barreiras comerciais, outros presidentes americanos recorreram ao protecionismo, especialmente integrantes do Partido Republicano, que hoje apoia fortemente a liberalização do comércio.

O venerado Ronald Reagan aumentou em 45% as tarifas sobre as motocicletas japonesas em 1983, num momento em que Washington acusava o Japão de inundar seu país com bens baratos.

Quatro anos depois, Reagan, que era o paladino do livre mercado em oposição à economia planejada da União Soviética, taxou algumas importações de televisões e computadores japoneses com 100% de impostos, depois de impor quotas de importação aos carros e ao aço do Japão.

Em 1971, o republicano Richard Nixon colocou fim ao padrão ouro - a convertibilidade americana neste metal - e impôs 10% de sobretaxas às importações para encorajar seus sócios comerciais a revalorizarem suas moedas.

Muro de impostos

Esquecidos após o triunfo da ideologia do livre comércio nos últimos 25 anos, estes golpes de protecionismo estão nas raízes do Partido Republicano.

"Desde sua fundação e durante décadas, o Partido Republicano foi o partido dos impostos altos baseado na ideia de que os Estados Unidos precisavam desenvolver sua capacidade industrial", diz o historiador Eric Rauchway, da Universidade da Califórnia.

Fundado em 1854, o 'Grand Old Party' era naquele momento próximo aos capitães da indústria do nordeste dos Estados Unidos, que buscavam se proteger contra as importações da Grã-Bretanha, a principal potência da época.

Com o controle da Casa Branca até pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o partido criou um "muro de impostos" para proteger a nascente indústria americana, afirma Michael Lind, autor da história econômica americana "Land of Promise".

Esta política não careceu de opositores.

Apoiadas pelo Partido Democrata, as grandes plantações do sul - uma indústria baseada na escravidão - lutavam pelo livre comércio, que lhes permitiria vender algodão ao Reino Unido e importar equipamento industrial mais barato que o fabricado domesticamente.

No entanto, sob a liderança republicana, o protecionismo americano se arraigou na primeira metade do século 20, e se intensificou nos anos anteriores e durante a Grande Depressão.

A lei Smoot-Hawley de 1930 impôs tarifas sobre mais de 20.000 produtos importados, piorando os males do momento.

Algumas relíquias da época sobreviveram até o presente. A lei "Buy American" de 1933 obriga o governo federal a favorecer as compras de bens "Made in USA".

Com as bases da indústria europeia e japonesa devastadas devido à Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se voltaram radicalmente rumo a um novo paradigma.

"A elite de negócios republicana e os industriais se voltaram ao livre comércio porque já não tinham concorrência. Naquele momento, os Estados Unidos tinham o monopólio das manufaturas", diz Lind.

Protecionismo defensivo

As correntes protecionistas reapareceram na década de 1970, quando a indústria do Japão e da Alemanha retomou impulso. Voltaram a ter força nos anos 80, quando os Estados Unidos sofreram uma profunda recessão entre 1980 e 1982.

"A ideia de que ante uma crise econômica deveríamos retornar a algum tipo de protecionismo sempre teve capacidade de sedução", diz Rauchway.

E, à medida que os Estados Unidos se tornaram mais fortes, o protecionismo mudou de aparência, menos preocupado em incubar a indústria local que em manter fora os produtos mais baratos.

Ao criticar a China e se retirar do Tratado de Associação Transpacífica (TPP), Trump parece ter adotado esta linha de pensamento.

"É o protecionismo defensivo que Trump está ressuscitando", concluiu Lind.

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