Bioterrorismo é improvável em curto prazo, mas é preciso se preparar

Paris, 24 Fev 2017 (AFP) - O uso de armas bacteriológicas por terroristas, que segundo Bill Gates poderia matar 30 milhões de pessoas em menos de um ano, é improvável em um curto prazo, mas é preciso contemplá-lo e se preparar para enfrentá-lo, consideram especialistas.

Na recente Conferência sobre Segurança de Munique, Gates avisou que "genes patogênicos, que aparecem na natureza ou nas mãos de um terrorista, e que se transmitam pelo ar e se propaguem rapidamente poderiam matar mais de 30 milhões de pessoas em menos de um ano".

Para Olivier Lepick, especialistas em ameaças NRBQ (nuclear, radiológica, biológica e química), a elaboração de uma arma bacteriológica eficaz está "fora do alcance de uma entidade terrorista, mas é preciso ser prudente".

"São cenários que há anos pertenciam à ficção científica, mas hoje em dia são cada vez mais possíveis. As ferramentas modernas de engenharia genética facilitam a manipulação de agentes patogênicos e forma muito mais simples e acessível do que antes", explicou.

A história do bioterrorismo consiste até agora em uma série de tentativas realizadas com poucos meios e resultados.

No começo dos anos 1990, a seita apocalíptica japonesa Aum tentou jogar toxina botulínica nos arredores do Parlamento japonês, em uma base americana em Yokosuna e no centro de Tóquio. Mas, diante do fracasso destas tentativas, decidiu liberar gás sarin no metrô de Tóquio, provocando 12 mortos e 50 feridos.

- Nem estúpido, nem irrealista - A organização extremista Al-Qaeda realizou experiências em pequena escala em seus acampamentos no Afeganistão. Em 2003 foram vestígios de ricina, um veneno artesanal, em um laboratório de Londres (a ideia consistia em besuntar as maçanetas com a substância), mas o grupo jihadista acabou não executando nenhum atentado biológico.

"Esse tipo de manipulação está muito longe do alcance dos grupos terroristas conhecidos, pelo menos por enquanto", garante o doutor Marc Lemaire, especialista em ameaças NRBQ.

"É muito complicado produzir vírus semelhantes, é preciso um laboratório sofisticado, deve-se fazer testes, encontrar um vetor e estar certo de que não vai te contaminar. Um grupo como o Daesh (acrônimo em árabe para o grupo Estado Islâmico) não poderia fazê-lo", disse.

"Por enquanto, todas as tentativas descobertas, como as da Al Qaeda, eram ridículas de um ponto de vista técnico", acrescentou Lepick. "Mas a ciência avança, as técnicas dos agentes patogênicos são cada vez mais acessíveis. Já não estão mais reservadas aos Estados como antes, sendo assim, este cenário não é mais totalmente ficção científica".

Bill Gates, que fez fortuna com a empresa de software Microsoft e agora destina milhões de dólares à filantropia, talvez quis alertar sobre as precauções a tomar diante de uma eventual pandemia mundial e teve razão de fazê-lo, consideraram os dois especialistas.

"Hoje em dia, nada indica que um ataque bioterrorista esteja em preparação ou possa ser realizado nas semanas ou meses vindouros. No entanto, mencionar essa possibilidade não é estúpido, nem irreal", avalia Lepick.

"O problema com essa ameaça é que os riscos de que ocorra são muito reduzidos e as formas de se proteger supõem enormes investimentos", continua.

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