Jessica e Fernando, uma história de amor enterrada no fundo do mar

Mar del Plata, Argentina, 24 Nov 2017 (AFP) - "Não nos deixem sozinhos", foi o comovente apelo feito por Jessica Gopar aos argentinos. Mas ela já sabe que estará só sem seu primeiro amor e marido, Fernando Santilli, um dos 44 tripulantes do submarino argentino desaparecido no Atlântico Sul.

Ambos de 35 anos, há 13 que Jessica e Fernando estão juntos, desde que se conheceram em uma praia de Mar del Plata, cidade onde vivem e porto do submarino "ARA San Juan", engolido pelo mar. Desde quarta-feira, 15 de novembro, ninguém sabe de nada.

Ela nasceu no balneário de Necochea, 100 quilômetros mais ao sul de Mar del Plata, cidade onde, em um verão, conheceu Fernando, vindo de Mendoza, localidade aos pés da Cordilheira dos Andes.

Esta mulher enérgica se manteve esperançosa ao longo da última angustiante semana, até esta quinta-feira, quando, pressentindo algo ruim, foi à base naval de Mar del Plata para saber as novidades.

"Vim pela primeira vez à base e acabo de saber que estou viúva", disse entre soluços aos jornalista que aguardavam às portas do local, em frente ao mar, a 100 metros do clube de oficiais, espaço de reunião dos familiares.

Jessica chora porque seu marido, esse homem que qualifica de "maravilhoso" e o qual esperava no domingo passado, não voltará para casa para desfrutar e ver crescer seu filho, Stefano, que completou um ano em 5 de novembro.

O principal cabo eletricista Santilli "foi o meu grande amor, tínhamos sete anos de namoro, seis de casamento e temos um filho, Stefano, que custou muito até que Deus nos enviasse", contou.

Stefano aprendeu a dizer "papai" durante a sua ausência, relatou em uma comovente carta que há alguns dias publicou no Facebook, quando o cenário ainda era de esperança.

"Hoje tem que ser esse dia (do resgate)", se iludia na carta dirigida "a Fernando".

"Olá, Fernando. Não sei o que estará passando em sua calma, ou em seu desespero. Aqui cada dia ficar mais difícil. Há momentos de esperança e outros de muita angústia", descrevia Jessica na missiva a seu marido.

Fotos do casal sorridente e do cabo Santilli junto com o menino ilustram a página de "Jessica Jeko Gopar". Também pode-se ver fotos da primeira festa de aniversário do bebê, à qual o pai não conseguiu ir por estar na travessia em alto-mar.

A última vez que se viram foi em 17 de outubro, antes de embarcar para uma viagem que fez escala em Ushuaia, no extremo sul da Argentina, de onde se comunicou pela última vez antes de sair ao mar de volta para casa.

- Sonho de mar -Quando deixou a paisagem montanhosa andina para ancorar em Mar del Plata, Santilli sonhava em ir para a Armada (Marinha de Guerra), seguindo os passado de um tio.

"Ele gosta da Armada. Entrou em 2002, esteve navegando, esteve em um barco para o qual foi designado e depois fez carreira de submarinista. É eletricista no submarino", contou sua mãe, Silvia Santilli, dias atrás.

Nascido em Palmira, uma pequena cidade em Mendoza de 20.000 habitantes, para onde não ia há três anos, Fernando é o mais velho de quatro irmãos.

Sua irmã Giselle, de 33 anos, o definiu como uma pessoa "alegre e otimista, responsável e que ama o que faz".

O primeiro destino deste marinheiro foi um barco em Bahía Blanca (sul), para depois ser transferido a Mar del Plata, onde finalmente chegou ao "ARA San Juan".

"Nunca havia viajado em um submarino e nunca uma viagem tão longa (de vários dias). Uma vez foi à França buscar um navio, mas foram de avião. Nunca fez uma viagem tão longa", relatou a irmã à rádio Mitre-Mendoza.

Segundo Giselle, a missão do submarino era "dispersar barcos pesqueiros estrangeiros que estão dizimando os recursos (marinhos) do país".

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