Greve de caminhoneiros perde força no nono dia de bloqueios

Rio de Janeiro, 29 Mai 2018 (AFP) - A greve dos caminhoneiros contra o aumento dos preços do diesel começou a perder força nesta terça-feira (29), após oito dias de bloqueios que paralisaram o país e abalaram o governo já impopular de Michel Temer.

No início da tarde, mais de 600 concentrações continuavam ativas nas estradas do país, mas apenas três com bloqueios totais, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Com menos bloqueios e uma maior saída de combustível das refinarias, os serviços de ônibus e o transporte de carga começaram a retornar sua atividade.

"É um processo que não tem a velocidade que nós gostaríamos que tivesse, mas ele vai crescendo de intensidade. Hoje mais do que ontem, e amanhã seguramente, muito mais do que hoje, caminhando para uma normalidade", afirmou o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que qualificou de "manifestações políticas" os protestos que continuam.

Alguns sindicatos haviam considerado insuficientes as concessões feitas no domingo pelo presidente Michel Temer para acabar com um movimento que colocou a economia do país à beira do colapso.

Mas agora que a paralisação dos caminhoneiros começa a diminuir, a situação pode ser mantida pelos trabalhadores petroleiros, que convocaram uma greve de 72 horas a partir de quarta-feira exigindo a redução dos preços do gás de cozinha e dos combustíveis, o fim da venda dos ativos da Petrobras, assim como a renúncia do presidente da estatal, Pedro Parente.

- Lento retorno -No Rio de Janeiro, muitos postos ficaram fechados por vários dias, e alguns reabastecimentos de diesel começaram a ser feitos. Centenas de caminhões com alimentos entraram na cidade, onde muitos supermercados ficaram sem produtos frescos. Cerca de 150 caminhões chegaram escoltados pelo Exército à Ceasa, o centro de abastecimento que fica na zona norte da cidade.

"A situação ainda é crítica. Não tem muita mercadoria e também está mais cara. Vai ser devagar", disse à AFP Betinho Rodrigues, um comerciante que comprava tomates para revender.

Em São Paulo, o grande terminal de petróleo de Ribeirão Preto, no interior do estado, voltou a operar depois que os caminhoneiros suspenderam o bloqueio. Os postos começavam a ser reabastecidos enquanto formavam-se longas filas de carros aguardando a sua vez.

Apesar dos avanços, o transporte continuava paralisado em vários pontos, afetando sua importante indústria agropecuária e tornando os deslocamentos em um pesadelo para milhões de pessoas.

Sete aeroportos continuavam sem combustível para a aviação, segundo a Infraero.

A crise complica ainda mais o panorama das eleições de outubro, nas quais nenhum candidato inclinado às políticas de ajuste fiscal do governo aparece entre os favoritos.

- Bilhões perdidos -Os protestos impactaram todos os setores de um país que carece de uma grande rede ferroviária e onde 60% do transporte de mercadorias é feito por caminhões.

A Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) estimou em 6,6 bilhões de reais os prejuízos sofridos pelos produtores rurais, enquanto as perdas nas exportações globais podem superar um bilhão de dólares, segundo a Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB).

As ações da Petrobras subiram nesta terça-feira mais de 12% na Bovespa, recuperando parte do terreno perdido na véspera, quando despencaram 14% diante das concessões feitas pelo governo federal aos caminhoneiros.

Mesmo com esses ganhos, a Petrobras registra perdas de mais de 20% desde o início da semana passada, quando começou o movimento de caminhoneiros contra sua política de preços.

Segundo analistas, a recuperação desta terça-feira ocorreu em boa medida às garantias de que o governo compensará as perdas que os cortes de preços acordados com os grevistas poderão gerar à Petrobras.

O impacto dos novos subsídios para ajudar a Petrobras a manter suas margens será de 9,5 bilhões de reais, que podem comprometer as metas fiscais e a credibilidade do governo.

O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, afirmou que o Executivo não contempla subir outros impostos para compensar a redução do diesel.

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