Com hiperinflação, Venezuela se torna um país de milionários pobres

Caracas

  • Federico Parra/AFP

    Venezuelanos fazem compras no mercado de Chacao, em Caracas

    Venezuelanos fazem compras no mercado de Chacao, em Caracas

Elizabeth está indignada, mas como boa venezuelana, leva a coisa no humor. "Somos um país de milionários!", diz sarcasticamente, apontando chocada para uma placa de preço no mercado: "Caixa de ovos = 3.000.000".

"Você é milionário, porque gasta esses valores, mas só tem 36 ovos. O salário mínimo é 2.600.000. Com o seu trabalho de um mês, não pode comprar isso", afirmou a contadora aposentada de 64 anos, outrora chavista fervorosa.

Essa é a grande ironia: a Venezuela petroleira é um país de milionários, mas arruinado. Elizabeth Torres não é a única a criticar isso.

Entre bancas de verduras, carne e sapatos falsificados, no mercado de Chacao, em Caracas, escuta-se - como em toda parte - queixas pelo custo de vida: o salário que Elizabeth menciona equivale a US$ 32 no câmbio oficial, mas apenas US$ 1 no paralelo.

Federico Parra/AFP Photo


A cada dia, os venezuelanos têm que desembolsar cifras de sete, ou oito dígitos, para comprar farinha de milho para as arepas, arroz, pão ou outro carboidrato.

Carmen Machado, 57, foi demitida há alguns dias de uma empresa de limpeza de escritórios. Recebeu 5,8 milhões de bolívares por quatro anos de serviço - o equivalente a um quilo de carne.

Para piorar, os preços aumentam mais de uma vez por semana.

De acordo com o Parlamento, de maioria opositora, a hiperinflação foi de 24.571% nos últimos 12 meses e acumulou 1.995% de janeiro a maio.

'Não vivemos, sobrevivemos'

Em um petshop, Olga Aviles, 53, está dividida entre comprar comida de gato, ou um quilo de carne, para a família. "Sempre tem que haver uma parcela de sacrifício. Se eu gasto com isso, não gasto com aquilo", explica ela à AFP.

"Na Venezuela, nós não vivemos, nós sobrevivemos: se você compra frutas, não pode comprar legumes, se você comprar grãos, não compra cereais", concorda Elizabeth.

Para facilitar o comércio, diante da falta de dinheiro, Maduro se propôs em março a lançar novas notas, retirando três zeros da moeda. Ele será chamado de "bolívar soberano", em oposição ao "dólar do império".

Mas, na realidade, embora o governo venda certos alimentos subsidiados nos bairros populares e a eletricidade, a água e o gás sejam quase gratuitos, muitos bens e serviços são cotados no dólar negro, 30 vezes mais caro do que o dólar oficial.

Um pequeno setor com acesso a dólares lida melhor com a situação. "Temos que pedir para os familiares de fora enviarem algo. Com o que temos aqui, não podemos comer", diz Aurora González, de 71 anos, cujo filho emigrou, como milhares de venezuelanos fizeram nos últimos anos.

Recentemente reeleito até 2025 em eleições questionadas e não reconhecidos pelos governos europeus e americano, Maduro argumenta que a inflação é induzida, em uma "guerra econômica" para derrubá-lo.

O economista Luis Vicente León atribui o colapso ao modelo econômico intervencionista, ao monopólio estatal da moeda estrangeira e ao controle dos preços e da taxa de câmbio, que alimenta o mercado negro do dólar.

"Nós lidamos com milhões, mas o país está falido", resume Aurora.

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