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Catar pode se beneficiar da crise por caso Kashoggi

25/10/2018 14h22

Doha, 25 Out 2018 (AFP) - Os efeitos colaterais diplomáticos do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita em Istambul podem ajudar o Catar na crise com Riad, estimam vários analistas.

Criticadas pelas versões divergentes desde o desaparecimento do jornalista no começo de outubro, as autoridades sauditas podem ser forçadas a fazer concessões e afrouxas as sanções que impõe ao Catar com seus aliados do Golfo, desde junho de 2017.

O assassinato de Jamal Khashoggi, crítico do governo saudita e do bloqueio ao Catar, poderia convencer os mais céticos de que Doha tinha razão ao denunciar uma "agressão" saudita.

"Não me surpreenderia que os catarianos se beneficiassem indiretamente do que está acontecendo agora", afirma Andreas Krieg, professor da King's College de Londres ex-assessor do Exército do Catar. "Os sauditas devem fazer concessões".

A Arábia Saudita, peso-pesado regional e único país com fronteira terrestre com o Catar, lidera um movimento de isolamento do pequeno emirado, rico em gás.

Em junho de 2017, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Egito romperam relações diplomáticas com o Catar, acusado de não se afastar o bastante do Irã - potência regional xiita rival de Riad - e de apoiar grupos islamistas radicais, como a Irmandade Muçulmana.

O Catar nega apoiar grupos extremistas e acusa seus vizinhos de querer provocar uma mudança de regime em Doha.

Da noite para o dia, o Catar teve suas transações econômicas congeladas, sua fronteira terrestre fechada e seus cidadãos expulsos destes países. Além disso, sua companhia aérea foi impedida de usar o espaço aéreo.

Arábia Saudita, EAU e Bahrein também proibiram seus cidadãos de viajar ao Catar.

Segundo o emirado, como consequência há famílias separadas e seus cidadãos não podem participar da peregrinação muçulmana à Meca.

- 'Moeda de troca' -"Se o governo americano quiser dar fim à crise do Catar, pode pressionar os sauditas", avalia Kristian Ulrichsen, analista do instituto Baker da universidade americana Rice. Pode ser uma "moeda de troca no caso do assassinato de Khashoggi".

Na quarta-feira, o príncipe herdeiro saudita Mohamed bin Salman disse que os "catarianos têm uma economia forte".

Outros analistas são mais céticos.

"O caso Khashoggi deixou a reputação da Arábia Saudita em maus lençóis, sobretudo sua retórica supostamente 'antiterrorista'", garante Noha Aboueldehab, do Brookings Centre de Doha. "Mas, neste momento, o duelo entre Catar e Arábia está muito mais abaixo na lista de prioridades" das grandes potências.

O Catar agiu com cautela e se mantém em silêncio após o desaparecimento do jornalista. Reagiu depois de Riad admitir a morte afirmando que o assassinato é um "sinal de alerta".

Nas redes sociais, alguns internautas da Arábia Saudita e dos EAU acusaram a emissora do Catar Al Jazeera de cobrir excessivamente o caso Khashoggi.

O fechamento da Al Jazeera é uma das condições de Riad para dar fim à crise com Doha.

- Rumores -Correm rumores de que o emir do Catar, xeque Tamim ben Hamad al Thani, conversou recentemente com o ministro de Relações Exteriores saudita, Adel al Jubeir. "Não me surpreenderia que tenham conversado em particular", afirma Krieg.

Se for verdade, esse contato seria o mais importante desde uma ligação telefônica entre Mohamed bin Salman e o emir catariano em setembro de 2017.

De acordo com Krieg, poderiam chegar a um acordo no uso do espaço aéreo, a peregrinação ou reunificação familiar. Mas isso não daria fim à crise, nem permitiria restabelecer as relações diplomáticas ao nível de antes de junho de 2017, afirmam os especialistas.