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La Paz tenta voltar à normalidade

11/11/2019 19h09

La Paz, 11 Nov 2019 (AFP) - La Paz, sede do poder político da Bolívia, acordou nesta segunda-feira desolada e com suas ruas desguarnecidas. Uma fina chuva e intensa neblina pairavam sobre a cidade que parece paralisada, mas que tenta voltar ao normal.

Após a renúncia do presidente Evo Morales neste domingo, depois a pressão dos militares em meio a protestos crescentes desde as eleições de 20 de outubro, não havia autoridade. Os policiais, aquartelados desde a sexta-feira, retornaram timidamente às ruas.

"Cortamos a cabeça da víbora (Morales), mas o corpo continuava se movendo", disse à imprensa um policial amotinado que não quis se identificar. Com seu retorno ao patrulhamento das ruas, o policial anunciou que a polícia "deterá as lideranças dos distúrbios".

A noite de domingo foi agitada. Houve saques e ataques a lojas na cidade vizinha de El Alto e incêndios de ônibus municipais e casas de políticos aliados de Morales.

"La Paz viveu uma noite de terror. Os vândalos destruíram 64 ônibus (municipais) Pumakatari", disse à rádio o prefeito de La Paz, Luis Revilla.

O transporte público ficou bastante comprometido. As dez linhas do teleférico não funcionavam, assim como o sistema municipal de ônibus porque muitos veículos foram queimados pela multidão na noite de domingo.

- Funcionários públicos com medo -"Parece um pesadelo, ninguém sabe o que está acontecendo, me disseram que meu escritório foi fechado, estou indo ver", explicou Alicia, mulher de aproximadamente trinta anos e dois filhos, enquanto esperava algum veículo para ir da zona sul até o centro da cidade.

Seu irmão, funcionário de uma estatal, "está preocupado, não sabe se continuará lá, mas ele não é político, trabalha por necessidade, tem filhos que estudam em colégios privados", contou.

O escritório do estatal Banco Unión, na praça Isabel la Católica, a quatro quadras da residência presidencial onde Evo Morales vivia, está fechado, assim como um supermercado próximo.

As pessoas se amontoavam em um caixa eletrônico de um banco privado. "Tudo sobe, os preços (dos alimentos) triplicaram", mas não há desabastecimento nos mercados populares, comentou Esperanza, economista de 56 anos, enquanto aguardava sua vez para retirar o dinheiro.

Muitas lojas estavam fechadas, os restaurantes também. Os escritórios centrais da companhia estatal BoA não abriram, mas os voos no aeroporto de El Alto, que serve a capital boliviana, operavam mais ou menos com normalidade, embora algumas companhias estrangeiras tenham cancelado seus voos.

Nos arredores da Casa de Governo, os ativistas opositores mantinham suas barricadas, mas, diferentemente de dias anteriores, não houve confrontos com seus adversários. Havia cansaço, mas as pessoas, sobretudo jovens e muitas mulheres, continuavam lá.

"Hoje não irei para o trabalho, os trâmites estão paralisados", disse um homem que importa medicamentos. "Quem sabe o que vai acontecer?", perguntou em seguida.

A Bolívia está sem autoridades, mas se espera que nas próximas horas o Congresso dê uma solução para a crise, nomeando um presidente provisório, que deve convocar a novas eleições em 90 dias.

Nada é igual em La Paz, uma cidade de quase 800.000 habitantes, sede dos poderes Executivo e Legislativo, e aonde o futuro da Bolívia está em disputa.

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