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Conteúdo publicado há
1 mês

Mais da metade da população afegã está à beira da crise alimentar

25/10/2021 08h29

Cabul, 25 Out 2021 (AFP) - O Afeganistão está à beira de uma das piores crises humanitárias no mundo - advertiram agências da ONU, destacando que mais da metade da população do país enfrenta uma "aguda" escassez de alimentos.

Quase 22 milhões dos cerca de 38 milhões de habitantes deste país asiático sofrerão insegurança alimentar no inverno (hemisfério norte, verão no Brasil), devido a uma seca provocada pela mudança climática. Tem-se aí mais um elemento para o caos provocado pela tomada de poder por parte do Talibã.

"Neste inverno, milhões de afegãos serão obrigados a escolher entre migrar, ou morrer de fome, a menos que consigamos intensificar nossa ajuda para salvar vidas", afirmou o diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos (PMA), David Beasley, em um comunicado divulgado em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

A crise no Afeganistão já supera as da Síria e do Iêmen e é mais grave do que qualquer emergência de insegurança alimentar, com exceção da República Democrática do Congo, informaram fontes das agências da ONU.

"O Afeganistão está agora entre as piores crises humanitárias do mundo, se não for a pior, e a segurança alimentar praticamente entrou em colapso", alertou Beasley, no comunicado.

"Estamos na contagem regressiva para uma catástrofe e, se não agirmos agora, teremos um desastre total em nossas mãos", completou.

De acordo com a nota do PMA e da FAO, um em cada dois afegãos enfrenta a fase 3, de "crise", ou uma fase 4, de escassez de alimentos de "emergência". A fase 4 está um passo abaixo da fome.

Os funcionários da ONU destacaram que o país, que luta para sair de uma guerra civil de 20 anos, também enfrenta o pior inverno em uma década.

Diante da crise, o diretor-geral da FAO, Qu Dongyul, advertiu: "É urgente que atuemos de maneira eficiente e eficaz para acelerar e ampliar nossa entrega no Afeganistão, antes que o inverno provoque o colapso de grande parte do país, com milhões de pessoas - incluindo agricultores, mulheres, crianças e idosos - passando fome no inverno gélido".

Em agosto, os talibãs derrubaram o regime apoiado pelos Estados Unidos e anunciaram um governo interino, com a promessa de restaurar a estabilidade.

Sofrem, no entanto, uma série de sanções internacionais e uma campanha de atentados cometidos pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI). Ao mesmo tempo, a mudança climática provoca períodos de seca mais frequentes e intensos no Afeganistão.

- À espera de um inverno úmido -Na região oeste do país, milhares de famílias pobres já venderam seus rebanhos e fugiram em busca de refúgio e assistência em acampamentos temporários, todos lotados, perto das principais cidades.

Correspondentes da AFP nas províncias de Herat e de Badghis constataram que algumas famílias foram forçadas a vender suas filhas para que se casem jovens e, dessa maneira, cobrir suas dívidas e garantir comida suficiente para sobreviver.

No domingo (24), os talibãs anunciaram um programa de ajuda que consiste em entregar trigo em troca de trabalho. A medida deve gerar a contratação de milhares de pessoas.

"Estamos tentando tirar nosso povo da atual situação e ajudar a todos. A ajuda humanitária global também chegou", afirmou o porta-voz talibã, Zabihullah Mujahid.

"Tentamos organizar e distribuir, incluindo comida e roupa. Todas as preocupações serão resolvidas", prometeu Mujahid.

"A respeito da seca, esperamos ter um inverno úmido. Mas, se a seca continuar, vamos adotar as medidas adequadas na primavera (outono no Brasil)", completou o porta-voz.

As agências da ONU advertiram que o plano de resposta humanitária recebeu apenas um terço do financiamento necessário.

A FAO precisa de US$ 11,4 milhões em fundos urgentes, e de outros US$ 200 milhões, para a temporada agrícola até 2022.

"A fome está aumentando, e as crianças estão morrendo. Não podemos alimentar as pessoas com promessas. Os compromissos de financiamento devem se transformar em dinheiro", disse Beasley.

"A comunidade internacional deve se unir para abordar a crise, que está fugindo do controle rapidamente", resumiu Dongyul.

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