Homenagem a Naná Vasconcelos emociona público na abertura do carnaval do Recife

Sumaia Villela - Correspondente da Agência Brasil

Os discípulos e companheiros de Naná Vasconcelos evocaram a memória e a arte do artista Naná durante o espetáculo Sumaia Villela/Agência Brasil

Como nos 15 anos em que comandou as nações de maracatus na abertura do carnaval do Recife, Naná Vasconcelos mais uma vez esteve presente no palco do Marco Zero nessa sexta-feira (24). Pela primeira sem a presença do percussionista no evento desde então, os músicos que são parte da sua história fizeram jus à memória dele na homenagem prestada em três atos nesta noite.

Falecido em março do ano passado, vítima de câncer, Naná resistiu até pouco depois do carnaval antes de ser hospitalizado. Agora outros resistem por e com ele para manter viva a força da cultura negra e pernambucana no carnaval. Seus discípulos e companheiros evocaram a memória e a arte de Naná durante o espetáculo.

Os elementos que uniram os três atos, além da musicalidade do compositor pernambucano, foram os maracatus e as seis cantoras negras do Voz Nagô, grupo formado pelo percussionista há 8 anos. Conduzindo a cantoria do início ao fim, as vozes poderosas das mulheres foram responsáveis por vários dos melhores momentos da homenagem, como na apresentação de canções inéditas do homenageado, ou quando cantaram o Hino da África do Sul, logo depois do vídeo de abertura do show - um documentário francês de 1970 que mostra Naná na Ilha de Goré, Senegal, de onde partiam cidadãos africanos para a escravização no Brasil.

Nalva Silva, uma das cantoras do Voz Nagô, respondeu ao ser questionada como foi a primeira apresentação na abertura do carnaval sem o mestre: "Sem o Naná em corpo, mas presente em força, energia, espírito, axé, alegria. Essa força que passou pra gente, esse legado que ele deixou para o Voz Nagô, os maracatus, Pernambuco". Ela afirmou que a característica que elas mais tentaram passar durante o show foi o sentimento de união. "Ele sempre quis unir os maracatus para fortalecer e não deixar morrer. A gente quis trazer essa mensagem que ele trouxe nesses 15 anos. Fortalecer a cultura pernambucana e acho que a gente conseguiu".

Tambores em harmonia

 As seis cantoras negras do Voz Nagô, grupo formado pelo percussionista há 8 anos, homenagearam Naná Sumaia Villela/Agência Brasil

Para comandar os 620 batuqueiros de 13 maracatus, a decisão foi não substituir Naná, mas colocar todos os 13 mestres para reger o conjunto. Os grupos se visitaram para ensaiar e mostraram coordenação nesta noite. A vibração dos tambores encheu o bairro histórico do Recife já antes do espetáculo, com a chegada de cada nação pelas ruas de paralelepípedo. Quando todos se posicionaram e os clarins de Momo soaram no Recife, estava oficialmente aberto o carnaval.

As batidas retumbaram até na saída dos músicos, que voltaram aos braços do público e continuaram tocando. A mestra na Nação do Maracatu Encanto do Pina, Célia Benta da Silva, tocava há sete anos com o percussionista na abertura. Questionada sobre como foi o primeiro ano sem Naná, os olhos marejaram. "Foi lindo, mas a gente sentiu a falta e a presença dele", disse. "É o mesmo que ele estar perto da gente aqui".

O maestro Edson Rodrigues e a cantora Virgínia Rodrigues - a primeira convidada de Naná para a abertura do carnaval na cidade - também se emocionaram. Ela cantou Saudação para Odé, orixá do homenageado também conhecido como Oxóssi. Logo depois Lenine subiu ao palco para cantar duas composições próprias e a música Loa, do homenageado. Em seguida entrou Nilsinho Amarante, regente da Orquestra Trombonada e maestro que acompanhava Naná em gravações e shows. Amarante fez um solo no trombone da composição Trenzinho Caipira, de Heitor Villa-Lobos.

O encerramento, considerado pelo público como ponto alto do espetáculo, reuniu todos os artistas em uma única cantoria de uma canção inédita de Naná Vasconcelos, Sou a Pele de um Tambor. Quando todos os músicos se abraçaram, os batuqueiros e o público seguiram o exemplo, criando um balanço de ondas na multidão. Foi o momento preferido da artesã Fabiana Pereira, 39, moradora do Recife. "A parte do abraço deu unidade entre todos. As nações, os orixás. Essa era a bandeira principal dele".

O carioca Marcos Antônio de Souza, 74, gostou da representação da cultura e da força negra no palco - uma das principais características do legado de Naná Vasconcelos. "Eu faço parte da cultura negra, minha raça é negra. Sem querer desmerecer ninguém. Mas foi lindo", disse.

Homenageados da noite

A abertura do carnaval do Recife continuou com a apresentação dos homenageados da noite: os caboclinhos Carijós e o músico Almir Rouche. Ele recebeu convidados como Maracatu Piaba de Ouro, Maestro Spok e Nena Queiroga, e também a matogrossense Vanessa da Mata.

Também entrou no roteiro o encontro histórico entre o Homem da Meia Noite, boneco gigante de Olinda mais antigo em atividade, e o Galo da Madrugada, bloco símbolo do carnaval do Recife. Ontem (23) a integração já havia ocorrido na abertura do carnaval de Olinda, depois de um problema de horários que quase impediu a participação do Galo no evento, contornado posteriormente pela organização.

 

 

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