Polícia só recupera 6,6% dos celulares roubados em SP

Em São Paulo

  • Avener Prado/Folhapress

    Polícia exibe celulares roubados em SP

    Polícia exibe celulares roubados em SP

A cada cem celulares roubados no Estado de São Paulo neste ano, menos de sete foram recuperados pelas polícias, ou 6,6%. Por causa da facilidade de ser escondido, transportado e revendido ilegalmente, o aparelho tem se tornado, cada vez mais, o principal alvo da ação de bandidos --e ajuda a alavancar os índices de crimes contra o patrimônio no Estado.

O celular está presente em 61,4% das ocorrências notificadas no Perfil de Roubos da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Isso quer dizer que ao menos 149 mil roubos --crime mediante ameaça ou agressão-- de aparelhos foram registrados no Estado entre janeiro e abril.

Por outro lado, o número de aparelhos recuperados é de 9.848, de acordo com dados obtidos pelo jornal "O Estado de S. Paulo" via Lei de Acesso à Informação (LAI). A polícia também recuperou outros 5.003 aparelhos provenientes de furto --crime de menor potencial ofensivo. Na maioria das vezes, os celulares são recuperados durante abordagens policiais, quando o aparelho ainda está com o bandido.

Se contabilizados juntos, aparelhos furtados e roubados e depois recuperados somam 9,96%. A SSP, no entanto, informa que esse índice chega a 16%. Questionada ontem, a pasta não explicou a diferença.

Neste ano, os assaltos em geral atingiram média de 26.972 casos por mês, a maior já registrada. Para especialistas, no entanto, o número real de ocorrências pode chegar a até o dobro, uma vez que parte das vítimas opta por não fazer o registro do boletim de ocorrência.

Boletim

Assaltado há cerca de um mês, o estudante Gabriel Grilo, 23, não espera resgatar o celular, cuja última prestação ainda não foi paga. "Já comprei outro e estou correndo atrás dos documentos", diz. Na ocasião, os ladrões também levaram sua mochila e carteira.

O jovem foi roubado por dois adolescentes em um ponto de ônibus perto da Universidade de São Paulo (USP), na zona oeste da capital. "Foi a quarta vez que fui assaltado em São Paulo, então já me acostumei", afirma. Ele só registrou boletim de ocorrência do último assalto por causa dos documentos.

O analista Fernando Honorato, 23, afirma que só registrou o boletim de ocorrência por causa do seguro do celular. "Nem passou pela minha cabeça a possibilidade de recuperar o aparelho", diz. Em oito anos, ele foi assaltado três vezes: em nenhuma conseguiu ter de volta os pertences. Vítima de assalto na zona leste, a publicitária Raisa Sutecas, 24, também não pensou no aparelho. "Fiz o BO por causa dos documentos. Os próprios policiais disseram que eu não iria recuperar o celular."

Receptação

Segundo o coronel José Vicente da Silva, especialista em segurança, o roubo de celular tem como principal motivador o comércio ilegal. Para ele, as Polícias Civil e Militar devem atuar em frentes de trabalho e de forma conjunta. "É preciso descobrir locais de maior incidência do crime e, a partir daí, elaborar mapas e identificar suspeitos", afirma.

Outra ação, diz o especialista, é combater a receptação. "Quando essa modalidade de roubo começa a subir muito é um sinal de que esse trabalho não está sendo feito pelas polícias com a devida destreza."

Especialistas afirmam que o celular é um objeto de interesse dos criminosos porque é fácil de tomar, esconder e transportar, além de movimentar um comércio lucrativo. "Existe mercado, senão não haveria tantos roubos", diz o cientista político Guaracy Mingardi. "O aparelho repressivo do Estado deve combater a receptação."

Prevenção

Em nota, a SSP informa que a Polícia Militar considera a dinâmica criminal na hora de orientar o policiamento preventivo e que diariamente são feitos flagrantes de apreensão. "As polícias prenderam, neste ano, 105.502 pessoas em flagrante no Estado, aumento de 5,2% em relação aos primeiros nove meses de 2015."

A SSP diz ainda que a Polícia Civil criou um banco de dados que possibilita cruzar informação de celulares com os registros de furto e roubo. Ainda de acordo com a pasta, é preciso "conscientizar a população" a registrar as ocorrências, já que os BOs servem como base para planejar o patrulhamento. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

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