'Não vou dizer que nada corresponde à realidade', diz Palocci sobre planilha

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

São Paulo

Réu e candidato a delator da Operação Lava Jato, o ex-ministro Antonio Palocci afirmou nesta quinta-feira, 20, ao juiz federal Sérgio Moro, que não vai "dizer que nada corresponde à realidade", ao responder sobre registro de planilha da Odebrecht de conta corrente "Italiano", que teve crédito de R$ 200 milhões de caixa 2 para o PT.

Na primeira audiência como réu da Lava Jato, Palocci foi questionado por Moro sobre a "planilha posição programa especial Italiano".

"Segundo diz o senhor Marcelo Odebrecht, era uma referência ao senhor, a pagamentos ao Partido dos Trabalhadores, que o senhor administrava. Nada disse aqui corresponde à realidade?."

"Não, não vou dizer que nada corresponde à realidade", respondeu Palocci, que seria o "Italiano".

"Vou dizer que eu jamais orientei pagamentos ou organizei pagamentos ou operei caixa 2 junto ao Marcelo. Jamais isso aconteceu."

Palocci levantou dúvidas sobre os valores existentes na planilha. "E digo mais, digo mais. Do que eu sabia, porque não lidava com isso, do que eu sabia dos recursos de campanha e de dívidas de campanha com marqueteiros, me parece que esses valores são bem diferentes do que eu tinha de informações."

O ex-ministro disse desconhecer que ele seja "Italiano", das planilhas da propina.

"Ele nunca me chamou de Italiano."

O ex-ministro citou ainda dois episódios que indicariam que ele não seria Italiano. Um deles, a data da diplomação da ex-presidente Dilma Rousseff, em que Odebrecht citou "Italia" em um e-mail. Ele afirmou que não estava no evento.

Nega

Palocci negou, no entanto, que tivesse negociado a concessão de linha de crédito ou benefícios para a Odebrecht, como afirmou o delator Marcelo Odebrecht.

"Salvo engano de interpretação minha ele disse que teria discutido com o senhor sobre uma ampliação de crédito, uma linha do BNDES em Angola", quis saber Moro.

"Provavelmente ele tocou nesse assunto comigo, mas eu sempre disse isso, não só para ele, como para todas as empresas, que eu jamais iria discutir com o BNDES qualquer créditos, não era meu papel nem como deputado, nem como ministro", respondeu Palocci.

Contato

Palocci disse que tinha contato com Emílio Odebrecht e com os dois últimos ex-diretores-presidentes, Pedro Novis e Marcelo Odebrecht - o herdeiro do grupo preso desde junho de 2015 pela Lava Jato.

Palocci destacou que o perfil da Odebrecht mudou com a presidência de Marcelo, que assumiu o grupo em 2008.

"Marcelo era um guerrilheiro das causas da empresa. Não estou fazendo um julgamento pessoal, é um ótimo pai de família, uma ótima pessoa, estou dizendo de estilos."

O ex-ministro afirmou que seu principal interlocutor era Emílio Odebrecht e não Marcelo, como afirmaram os dois delatores da Odebrecht, no acordo com a Lava Jato.

Seu contato maior com Marcelo Odebrecht, segundo Palocci, teria sido no episódio da Medida Provisória (MP) 460. "Eu era totalmente contra ela e minha posição ali era muito decisiva para o processo." O empresário queria que o então ministro da Fazenda "Italiano" tivesse posição favorável ao projeto.

Petrobras

Palocci foi do Conselho de Administração da Petrobras de 2003, início do governo Lula, a 2006, quando ele deixou o governo, no escândalo do caseiro Francenildo.

Moro quis saber se havia influência político-partidária na indicação dos diretores da estatal e Palocci respondeu que "havia".

O juiz da Lava Jato quis saber se o réu tinha conhecimento que Renato Duque teria sido indicado pelo PT.

"Nunca vi uma reunião formal sobre isso, mas isso era comentado. Era comentado que ele tinha apoio do Partido dos Trabalhadores na sua indicação", responde Palocci.

Moro perguntou sobre o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, o primeiro delator da Lava Jato, também tinha sido indicado politicamente.

"Foi nomeação técnica, mas havia comentários, também, que ele foi uma indicação do PP."

A força-tarefa da Lava Jato descobriu que PT, PMDB e PP - partidos da base do governo Lula - lotearam as diretorias estratégicas da Petrobras, à partir de 2003, para arrecadar de 1% a 3% de propinas em contratos da estatal, em conluio com um cartel de empreiteiras.

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