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Crianças que vivem em igualdade de gênero atribuem menos estereótipos

Ludimila Honorato

São Paulo

07/07/2017 11h10

As desigualdades entre homens e mulheres podem ser vistas ainda na infância, quando, geralmente, meninos ficam soltos para brincar na rua enquanto meninas precisam ficar dentro de casa 'como uma mocinha'. Mas é também nessa fase da vida que se pode quebrar com os paradigmas e mostrar para as crianças, e futuros adultos, que gênero não define o que a pessoa é.

Essa é a principal contribuição da pedagogia neutra em termos de gênero, método aplicado em uma escola na Suécia e analisado por pesquisadores da Universidade de Uppsala. O estudo, publicado recentemente no Journal of Experimental Child Psychology, avaliou crianças de 3 a 6 anos de idade de uma escola cujas práticas incluem usar pronomes neutros e evitar a diferenciação de brinquedos para meninos e meninas.

Elas foram comparadas com crianças da mesma idade de escolas com ensino tradicional. O resultado? Crianças que estão em um ambiente onde o gênero não é levado em consideração para atividades são menos influenciadas pelos estereótipos. Consequentemente, a tendência de atribuir conceitos estereotipados do que é masculino e feminino também é menor.

As crianças também se interessavam mais em brincar com pessoas desconhecidas do gênero oposto do que aquelas da escola tradicional. "Uma possibilidade é que, quando os adultos não fazem do gênero um grande problema, as crianças aprendem que não precisam fazer isso também. Então, quando elas estão pensando sobre se gostariam de brincar com alguém do gênero oposto, não é um fator tão importante para elas", diz Kristin Shutts, uma das pesquisadoras do estudo, em entrevista ao E+.

Kristin acrescenta que as crianças que vivenciam uma pedagogia neutra de gênero não carregam fortes estereótipos sobre o que é ser menino e o que é ser menina. "Isso os faz pensar que eles podem ter muita coisa em comum com crianças que não são do mesmo gênero que elas", afirma.

Embora o estudo tenha mostrado que as crianças dos dois tipos de escola tendem a agrupar pessoas por gênero, as práticas são importantes para reduzir atitudes baseadas em estereótipos ao longo do tempo.

Exemplo nacional. Mas não é preciso ir muito longe para verificar essas práticas. Na Escola Estadual Professor Alvino Bittencourt, na zona leste de São Paulo, o diretor Denys Munhoz Marsiglia promove ações que buscam minimizar as desigualdades no espaço escolar.

Há cinco anos na função, ele reúne professores, funcionários da limpeza, da secretaria e do refeitório para conscientizá-los sobre o tema. Em sala de aula, os docentes são orientados a não falar no diminutivo. "É uma prática que colabora com a distinção de gênero, o menino entende que ele não faz parte daquilo porque 'brinquedinho' é coisa de menina", diz o diretor.

A escola também tem um projeto de convivência, no qual se trabalha a empatia - capacidade de se colocar no lugar do outro - e a ressignificação dos contos de fadas. "A gente questiona por que a Branca de Neve tem de ser branca como a neve. Os alunos ficam encantados quando sabem que podem modificar a história", conta Marsiglia.

No tradicional dia do brinquedo, as crianças compartilham os objetos entre si e é normal ver meninos brincando de cozinhar, por exemplo. "Os pais promovem o que aprendem culturalmente por medo de que o filho sofra discriminação", diz Marsiglia sobre a resistência de alguns pais em aceitar que meninos brinquem com bonecas.

"Mas quando o pai percebe que aqui no espaço escolar ela não é segregada, não está sofrendo, ele percebe que não há mal nisso", completa. Em vez de comemorar o dia das mães ou dos pais, a escola realiza o 'dia de quem cuida de mim', que acolhe todos os tipos de constituição familiar.

É cultural, não biológico. Diferente do que o senso comum diz, os comportamentos que supostamente diferem meninos de meninas não são naturais ou biológicos. O estudo feito na Suécia mostra que os adultos têm influência sobre como as crianças percebem e lidam com os gêneros. A prática, porém, é inconsciente.

Ao questionar por que panelas de brinquedo são para meninas e carros são para meninos, Marília Lamas, especialista em Sociologia Política e Cultura, percebeu que muitos pais não sabem o motivo dessa divisão. Alguns acreditam que os brinquedos e a forma de educar podem orientar as escolhas e a orientação sexual dos filhos.

"Esses estereótipos funcionam para os pais, não para as crianças. Eles querem acalmar suas expectativas e tendem a dar um brinquedo para meninos e meninas por questões que estão na sociedade há muito tempo", afirma Marília. Ela entrevistou mães e pais em sua pesquisa de pós-graduação, que virou livro digital, a fim de discutir como os brinquedos contribuem para reprodução e manutenção das desigualdades de gênero.

Na sala de aula, colocar meninas para um lado e meninos para o outro também é uma prática inconsciente, como explica Eleutéria Amora da Silva, coordenadora geral da Casa da Mulher Trabalhadora. Uma das experiências da organização foi trabalhar com jovens prestes a terminar a formação de docentes e que dariam aula nas séries iniciais.

"Coisas simples que nós perguntamos: 'existe cor determinada para menino e para menina? Por que separar meninos de meninas?'. As respostas eram sempre as mesmas: 'nunca pensei sobre isso'", conta Eleutéria. "São hábitos que estão culturalmente constituídos e, por isso, quem vai para a área de formação não tem esse questionamento", diz.

Se a construção de estereótipos é cultural, as práticas de respeito às diferenças também podem ser transmitidas para contribuir com uma sociedade mais livre e plural. "A educação tem um papel muito importante para ensinar a respeitar as diferenças e constituir em igualdade", diz Eleutéria.