'Nunca pensei que fosse acontecer comigo', diz brasileiro alvo de xenofobia no Reino Unido

Rafael Barifouse

Da BBC Brasil em São Paulo

  • Arquivo pessoal via BBC

    Venticinque foi convidado a dar aulas no Reino Unido após concluir um mestrado no país

    Venticinque foi convidado a dar aulas no Reino Unido após concluir um mestrado no país

O paulista Danilo Venticinque, de 30 anos, se mudou em janeiro para Southampton, no sul da Inglaterra, após ser convidado para ser professor de Jornalismo da Universidade Southampton Solent.

Ele acompanhou de perto a polêmica em torno do Brexit - entre elas, as manifestações de xenofobia contra alguns estrangeiros que vivem no país.

Casos assim passaram a ser compartilhados pela internet logo após 52% dos eleitores britânicos optarem pela saída do Reino Unido da União Europeia.

Venticinque ouviu relatos de conhecidos e chegou a participar de um protesto contra uma manifestação de dois grupos de extrema-direita na cidade onde mora.

Mesmo assim, não esperava se tornar um dos alvos de xenofobia - até ficar frente a frente com o preconceito.

Confira seu relato à BBC Brasil:

"Eu sabia que vinha acontecendo uma onda de xenofobia no Reino Unido após a votação do referendo e, nas últimas semanas, vinha escrevendo sobre o aumento de casos assim. Mas nunca pensei que ia acontecer comigo.

No dia 8 de julho, tive a infelicidade de me tornar um dos alvos desse preconceito - aparentemente, falar com a minha mulher, que é mexicana, em espanhol é o suficiente para ofender algumas pessoas.

Arquivo pessoal via BBC
Brasileiro conheceu sua mulher, mexicana, enquanto estudavam no Reino Unido

Estávamos buscando um lugar maior para morarmos, porque ela está grávida. Hoje, vivemos em Portswood, onde há uma grande comunidade de origem polonesa. Mas naquele dia fomos ver um apartamento no Centro, onde vivem menos imigrantes.

Depois da visita, estava conversando com ela enquanto esperávamos por um ônibus no ponto. Quando surgiu uma brecha no papo, fomos abordados por uma senhora de idade.

'Você fala inglês, não? Você consegue entender o que estou dizendo?', disse ela em um tom de voz elevado.

'Esse é o meu país. Estamos saindo na União Europeia. Não vamos ter mais tantas pessoas como você por aqui. Os tempos serão outros.'

Naquele momento, fiquei sem reação - nosso ônibus chegou e fomos embora. Parecia que eu não era capaz de falar inglês na hora, ao menos não bem o suficiente para pensar em uma resposta coerente.

Consegui boas notas nos testes de proficiência do idioma, mas as aulas de inglês não tinham me preparado para esse tipo de situação. Infelizmente essas provas não avaliam sua capacidade de lidar com comentários ofensivos aleatórios vindos de estranhos.

Vim para o Reino Unido há dois anos para estudar e voltei como um cidadão europeu (tenho cidadania portuguesa) para dar aulas em uma universidade.

Trabalho duro, pago meus impostos e evito me meter em problemas. Para mim, isso seria suficiente para ser bem-vindo neste país.

A pior parte foi chegar à conclusão de que a senhora falou verdades. Este é mesmo seu país. O Reino Unido está deixando a União Europeia. E levando em conta o forte discurso contra a imigração da campanha em prol do Brexit, é possível que no futuro sejam criadas regras que impeçam pessoas como eu de virem para cá.

Seu discurso parecia ser um reflexo do referendo. Era algo padronizado, como se ela tivesse aprendido aquilo em algum lugar.

Acho que a campanha fez essas pessoas se sentirem no direito de abordar alguém. Já tinha percebido que algumas pessoas me olhavam feio porque estava falando em espanhol na rua. Mas acho que tinham vergonha de agir.

Agora, parecem acreditar que têm o mandato de 52% da população para dizer a uma pessoa que ela não pertence àquele lugar.

Já sabia de casos assim pela imprensa, e tenho uma colega de trabalho da Lituânia que me contou ter enfrentado dificuldades para achar um colégio para sua filha - reagiam mal quando viam que a menina não falava inglês. E aqui na cidade já havia acontecido uma manifestação em reação a um ato de grupos de extrema-direita que estava previsto para ocorrer no mesmo dia.

Ainda assim, não estava preparado para ser um dos alvos da xenofobia. Sendo um homem branco de classe média, nunca tinha passado por algo do tipo no Brasil, onde fazia parte de uma minoria privilegiada. Mas aqui sou estrangeiro e estou sujeito a esse tipo de tratamento.

Arquivo pessoal via BBC
Professor acompanhou manifestação em Southampton contra grupos de extrema direita

Esse episódio me fez lembrar de outro ocorrido há algumas semanas, quando fui com minha mulher ao hospital para fazer seu segundo ultrassom - exatamente no dia em que houve a votação do referendo.

Ela teve de responder uma série de perguntas sobre o seu status como imigrante e mostrar documentos para que verificassem se ela tinha direito de ser atendida pelo sistema público de saúde britânico. Isso nunca tinha acontecido antes.

A recepcionista disse especificamente que agora precisavam fazer isso por causa 'de toda essa história do Brexit'. Por sinal, um casal na nossa frente na fila e que falava inglês não teve de responder a nada nem mostrar seus documentos.

Decidi compartilhar o caso no Facebook, porque acho importante mostrar que isso está acontecendo. Também seria uma maneira de reagir e dar a resposta à senhora que nos abordou no ponto de ônibus, o que não fui capaz de fazer na hora. Aquilo tinha ficado entalado na minha garganta.

Arquivo pessoal via BBC
Após referendo, casos de agressões contra imigrantes motivaram ato antirracismo

As reações majoritariamente positivas que recebi mostram que o pessoal abertamente anti-imigrantes é uma minoria. Várias pessoas que votaram pelo Brexit me mandaram mensagens de apoio, mostrando que nem todos a favor da saída são contra a imigração.

Teve uns dois ou três que apoiaram a senhora e inclusive houve quem me acusasse de estar contando uma história falsa porque 'brasileiros não falam espanhol, falam português'.

Mas muitos britânicos me escreveram pedindo desculpas por seu povo ou dizendo que a mulher não falava em seus nomes. Inclusive, muitas pessoas da Escócia, que votou contra a saída, disseram para eu me mudar para lá, o que achei bem curioso.

Sinto que há uma maioria silenciosa que condena a xenofobia - só seria bacana que ela fosse um pouco menos silenciosa...

Mesmo com tudo isso, ainda me sinto bem-vindo no Reino Unido. Caso contrário, não teria sido convidado para vir para cá. Devo muito ao país, onde tive e continuo a ter grandes oportunidades de estudo e trabalho.

A antipatia de poucos e uma manifestação isolada não apagam toda a relação quem tenho com o país.

Mas, assim como outros estrangeiros, estou preocupado, porque o futuro é incerto. Não sabemos quais serão as novas regras de imigração após o Reino Unido deixar de fato o bloco. Não há como fazer planos de longo prazo.

Esse sentimento contra imigrantes será algo momentâneo ou duradouro? Os casos isolados se tornarão corriqueiros? Como serão os empecilhos no dia-a-dia?

E pensar que, há alguns meses, pensava que este seria um ótimo lugar para criar raízes, começar minha família, criar meus filhos.

A senhora estava certa: os tempos estão mudando mesmo."

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