O que significa a convocação das Forças Armadas em Brasília - e por que isso é polêmico

  • Agência Brasil

    24.mai.2017 - Forças Armadas reforçam a segurança para conter os manifestantes no protesto contra o governo Michel Temer e as reformas da previdência e trabalhista

    24.mai.2017 - Forças Armadas reforçam a segurança para conter os manifestantes no protesto contra o governo Michel Temer e as reformas da previdência e trabalhista

ATUALIZAÇÃO: Temer recua e revoga decreto que colocou Forças Armadas nas ruas de Brasília

A decisão do presidente Michel Temer de convocar as Forças Armadas para garantir a "lei e a ordem" em Brasília após manifestantes colocarem fogo em prédios de ministérios dividiu juristas ouvidos pela BBC Brasil.

Para Michael Mohallem, professor da FGV especialista em direito público e direitos humanos, a medida é exagerada e parece ter tido como finalidade servir como uma demostração de "liderança" do presidente, atualmente muito enfraquecido por uma investigação de corrupção.

Já o jurista Ives Gandra elogiou o uso do Exército e chamou os manifestantes de "destruidores da pátria" que precisavam ser contidos. Segundo ele, a Constituição Federal permite convocação das Forças Armadas para garantir os "poderes constitucionais", que no caso seria o funcionamento do Poder Executivo.

Ambos esclarecem, porém, que a medida não se trata de Estado de Sítio ou Estado de Emergência, situações nas quais há suspensão de direitos.

No caso de uma "operação de garantia da lei e da ordem", o que acontece é que as Forças Armadas ficam autorizadas a agir como polícia, numa determinada região específica, seguindo as leis do país.

"Para fazer um paralelo, na França, quando houve os atentados terroristas, ainda na gestão de François Hollande, houve decretação de estado de emergência, com restrição de direitos. Geralmente as Constituições permitem isso para situações de emergência. Não é o caso (hoje em Brasília). Esse decreto apenas autoriza o uso das Forças Armadas para uma situação de garantia dos poderes constitucionais", afirma Mohallem.

A ONG de direitos humanos Conectas, por sua vez, se manifestou criticamente à medida em sua página no Facebook, dizendo que "o uso das Forças Armadas para a garantia da 'lei e da ordem', como previsto no Decreto, remonta a tempos sombrios da História brasileira", em aparente referência à Ditadura Militar (1964-1985).

'Contexto'

O decreto do presidente estabelece o uso do Exército em Brasília até 31 de maio. Ao tomar conhecimento da decisão de Temer durante sessão do Supremo Tribunal Federal, o ministro Marco Aurélio Mello disse que ficou "um pouco preocupado com o contexto".

"Espero que a notícia não seja verdadeira. O chefe do Poder Executivo teria editado um decreto autorizando o uso das Forças Armadas do DF no período de 24 a 31 de maio", afirmou ainda.

Temer disse que tomou a decisão atendendo solicitação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para manter a segurança na capital federal. No entanto, Maia depois disse que houve um engano, pois ele teria pedido uso da Força Nacional de Segurança, não do Exército.

"Pedi apoio das Forças Nacionais, sim. O instrumento que ele usou é uma decisão do governo. De fato, o ambiente na Esplanada era grave e para garantir a segurança tanto dos manifestantes como para os que trabalham nos ministérios e no Congresso. Fui ao presidente porque achava que era importante que a Força Nacional pudesse colaborar junto com a polícia militar do Distrito Federal", disse Maia.

Em nota, a Presidência da República justificou a decisão.

"As manifestações ocorridas em Brasília (...) produziram atos de violência e vandalismo que, lamentavelmente, colocaram em risco a vida e a incolumidade de servidores que trabalham na Esplanada dos Ministérios", diz o texto.

"Diante de tais circunstâncias, o presidente da República, após confirmada a insuficiência dos meios policiais solicitados pelo presidente da Câmara dos Deputados, decidiu empregar, com base no artigo 142 da Constituição Federal, efetivos das Forças Armadas com o objetivo de garantir a integridade física das pessoas, proporcionar evacuação segura dos prédios da esplanada e proteger o patrimônio público, tal como foi feito anteriormente em vários Estados brasileiros."

E finaliza: "o presidente da República ressalta que não hesitará em exercer a autoridade que o cargo lhe confere sempre que for necessário".

'Exército não é treinado para conter protestos'

A Força Nacional, embora esteja sob comando do governo federal, é formada por policiais militares de todas as unidades da federação do país.

O uso do Exército como força de segurança é polêmico, segundo Mohallem, porque as Forças Armadas não têm treinamento para atuar com função de polícia, por exemplo contendo protestos políticos.

O professor da FGV não se lembra de outra ocasião em que as Forças Armadas tenham sido convocadas para garantir "lei e ordem" com finalidade de conter protestos.

Essa medida já foi usada recentemente em outras situações, nota ele, por exemplo para autorizar uso do Exército no patrulhamento de áreas urbanas na Copa do Mundo e na Olimpíada, ou para ocupar favelas no Rio de Janeiro, contra a atuação do tráfico de drogas.

"O uso normal, ordinário, do Exército é para patrulhar as fronteiras, é para enfrentar eventualmente um ataque inimigo, é para fazer ações estratégicas, treinamento, enfim, a defesa da nação. Todos esses usos que seriam para policiamento ou controle da ordem pública são excepcionais, embora haja previsão legal para isso", explica.

"Agora, se é controverso usar as Forças Armadas para conter crime organizado e o tráfico nas favelas, ou seja, pessoas armadas, como se fez na suposta pacificação do Rio de Janeiro, quanto mais para conter manifestantes, que por mais que sejam violentos, não estão armados", criticou.

Para Mohallem, no momento em que o ministro da Defesa, Raul Jungmann, anunciou a convocação do Exército, os protestos já estavam sob controle e os manifestantes, se dispersando.

"Me parece que bastaria contingente de polícia mais forte, mas preparado, para agir nessa situação. Não havia sinal de perda de controle, era uma manifestação política, com graus de radicalidade. Acho que a situação foi desproporcional, embora a medida também não seja uma medida radical do próprio presidente", ponderou o professor.

Para ele, o decreto visou mostrar a população que o presidente não vai "tolerar protestos violentos", que em geral são mal vistos "pelo eleitorado médio".

"Assinar um decreto como comandante em chefe das Forças Armadas geralmente mostra liderança, e eu imagino que o cálculo político por trás disso seja de aproveitar oportunidade de mostrar liderança, controle do país", acrescentou.

'Forças Armadas são mais rápidas que Força Nacional'

Ives Gandra, por sua vez, diz que a convocação das Forças Armadas para garantir o funcionamento do Poder Executivo segue o artigo 142 da Constituição Federal.

"Por exemplo, o que está acontecendo em Brasília: estão pondo fogo nos ministérios, e a Polícia Militar está sendo incapaz de segurar. Sempre que as Polícias Militares não conseguirem, cabe as Forças Armadas manterem os poderes", afirma.

"Como não foi decretado nem estado de sítio nem estado de defesa, o que acontece é que eles estão atuando especificamente nessa situação para parar essa agressão violenta aos prédios públicos", acrescenta.

Na sua avaliação, era correto uso das Forças Armadas, porque a Força Nacional de Segurança não poderia ser convocada tão rapidamente.

"Quando há tempo para isso, nem há dúvida (de que deveria se chamar primeiro a Força Nacional de Segurança). Mas a Força Nacional de Segurança não teria condições nesse caso, porque não tem a mesma rapidez das Forças Armadas. Nesse caso, em que os ministérios estão sendo incendiados, em plena capital da República, tem que ser uma tomada de decisão imediata", defendeu.

"Nem se cogita estado de sítio nem de defesa. Pode ser que venha a acontecer, mas no momento o que está se discutindo é exclusivamente colocar em ordem aquilo que a Polícia Militar não conseguiu", reforça.

Já A ONG Conectas destacou também em sua nota que "essas tropas são treinadas e idealizadas para tratarem o cidadão como 'inimigo'" e "possuem código de disciplina especial, respondem à lei penal especial (Código Penal Militar) e são julgadas por Justiças especiais (Militar), todos elementos baseados na lógica de guerra".

"Repudiamos a tentativa do Governo Federal em enxergar cidadãos brasileiros como ameaça que justificaria intervenções militares desta natureza", critica a ONG.

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