Quem são os 'incels' - celibatários involuntários -, grupo do qual fazia parte o atropelador de Toronto

  • Reprodução/Linkedin

    A polícia prendeu Alek Minassian menos de meia hora após o ataque

    A polícia prendeu Alek Minassian menos de meia hora após o ataque

Quando o canadense Alek Minassian atropelou um grupo de pedestres com uma van, matando dez pessoas em Toronto, no Canadá, a notícia correu rapidamente em um grupo muito específico na internet: fóruns de discussão dos autodenominados "incels" - homens que não conseguem ter relações sexuais e amorosas e culpam as mulheres e os homens sexualmente ativos por isso.

O termo "incel" é um diminutivo da expressão "involuntary celibates", ou celibatários involuntários. A notícia de que Minassian se autodeclarava "incel" virou o assunto principal dos fóruns de conversa desses homens na internet.

Pouco antes do ataque, Minassian havia postado em sua página no Facebook um texto em que dizia: "a rebelião 'incel' já começou! Vamos derrotar todos os Chads (homens atraentes e sexualmente ativos) e Stacys (mulheres sexualmente ativas). Todos saúdem o cavalheiro supremo Elliot Rodger!"

Em 2014, Elliot Rodger matou seis pessoas a tiros e facadas, na Califórnia, se matando em seguida. Ele tinha várias publicações em redes sociais falando sobre sua frustração por ser rejeitado e pregando ódio às mulheres. Num vídeo que postou no YouTube, Rodger reclamou de ainda ser virgem aos 22 anos e revelou nunca ter ao menos beijado uma menina. Ele disse ainda que era o "ideal e magnífico cavalheiro" e que não compreendia porque as mulheres não queriam ter relações sexuais com ele.

Ao planejar o assassinato em massa, que ele chamou de "Dia da Retribuição", Rodger disse que "não tinha outra alternativa a não ser se vingar da sociedade" que lhe "negava" amor e sexo.

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Elliot Rodger dizia ser "o que há de mais próximo a um Deus vivo"

Quem são os "incel"?

Assim como no caso de Rodger, o ataque feito por Minassian atraiu as atenções para o termo "incel" e para os homens que assim se classificam.

Eles não são um grupo organizado, mas se reúnem em fóruns de discussões na internet, onde falam sobre sua solidão, sua insegurança ou sobre a frustração por não conseguirem se relacionar.

Esses espaços, no entanto, estão longe de serem apenas grupos de apoio para pessoas com problemas parecidos: se tornaram recantos onde o ódio e a misoginia são livremente disseminados - já que os incels costumam colocar a culpa por sua falta de vida sexual nas mulheres, no feminismo, na própria aparência ou inadequação, nos pais, nos homens sexualmente ativos, na tecnologia, na 'cultura moderna'.

Os "incels" entraram oficialmente para a lista de grupos radicais que disseminam discurso de ódio do Southern Poverty Law Center, uma entidade americana que monitora grupos extreministas. Segundo a organização, os "incels" são uma nova forma de expressão de uma visão de mundo de supremacistas masculinos.

"A misoginia sempre existiu. Mas a internet possibilitou que essas pessoas se agrupem, procurem semelhantes em vez de procurar ajuda", explica a psiquiatra Isa Kabacznik, da Associação Americana de Psiquiatria. "Ali eles encontram a possibilidade de ventilar essa frustração, mas acabam alimentando seus problemas."

O funcionamento disso é simples: em vez de serem encorajados a tentar superar as decepções e desapontamentos, os homens nesses grupos encontram uma subcultura que os incentiva a afundar na própria amargura, o que cria um ciclo vicioso de isolamento, decepção e ódio.

O universo dos "incels" é povoado por suas gírias próprias, seus vilões esterotipados e suas neuroses.

Homens atraentes e sexualmente ativos são chamados de "chads". Mulheres sexualmente ativas são chamadas de "stacys". Mulheres em geral, de "femoids" ou "roasties". Homens de aparência mediana ganham o apelido de "normies".

Há incitação direta para a prática de estupros e outros tipos de violência. Muitos são agressivos mesmo com quem demonstra empatia ou oferece ajuda.

"Você quer nos apoiar porque tem medo de ser a próxima vítima. Patético. Você não pode salvar incels. Está feito, acabou", diz um usuário.

Algumas neuroses - como a ideia de que todo homem normal está sendo enganado por sua namorada, que na verdade o trairá com um "macho alfa" - são vistas como uma verdade que o resto do mundo não consegue enxergar . Eles chamam isso de "blackpill" (pílula preta).

Também há muitos posts sobre doenças como depressão e ansiedade e textos sobre desejo de suicídio. No entanto, diz a psiquiatra, a misoginia, a inclinação para o ódio e para comportamentos destrutivos não pode ser justificada por doenças mentais.

"É preciso identificar quem de fato está doente e quem não está. A perturbação desses jovens pode estar relacionada com doenças e traumas, mas também está sendo alimentada pela ideologia", explica Kabacznik.

Reprodução/Facebook
Em post no Facebook, Minassian diz que vai "derrubar todos os Chads e Stacys"

Onde eles se reúnem

Em novembro ano passado, após denúncias sobre o conteúdo violento e misógino, o site Reddit - que reúne grupos de discussão sobre diversos assuntos - baniu o "/r/incel", principal grupo de discussão dos "celibatários involuntários".

Mas outros similares continuam a todo vapor. O "/r/braincels" tem cerca de 17 mil inscritos - embora não seja possível saber quantos são membros ativos e quantos apenas acompanham a movimentação da página por curiosidade. O "/r/incel" tinha 40 mil.

O Reddit não é o único espaço onde esse tipo de comunidade se prolifera. Outros cantos - mais obscuros - da internet também abrigam homens solitários que se unem para falar da sua falta de vida sexual e se rotulam como "incels". Um deles é o fórum r9k, do site 4chan, que começou com um propósito diferente, mas acabou reunindo muitos homens que se descrevem como "celibatários involuntários". Outro é o site Incels.me.

Os textos costumam ser anônimos, já que não é preciso usar seu nome real nesse tipo de fórum.

Além da misoginia, há racismo e xenofobia. Um "incel" diz que mulheres "asiáticas e indianas são piores do que Hitler".

A escalada da agressividade no meio fez surgir também um grupo de discussão chamado "Incels Without Hate" (Incels sem Ódio) no Reddit - bem menor, com apenas 2 mil seguidores. Esse fórum é descrito como sendo um espaço para pessoas que têm dificuldade em encontrar intimidade em suas vidas. "Ódio é estritamente proibido, mas isso não significa que o espaço precise ser sempre positivo."

"Nem todos incels odeiam mulheres. Eu pessoalmente acho que é minha culpa [não conseguir sexo], só não sei o que fazer", diz, em inglês, um usuário brasileiro do site.

Apesar do nome e da descrição, o grupo também tem muitas demonstrações de misoginia e incentivo a estupro. Em um post, um usuário que não é "incel" dá conselhos sexuais: "vá atrás das mulheres feias e bêbadas".

Radicalização de adolescentes

Muitos dos frequentadores desses fóruns são adolescentes que entram para procurar apoio e acabam sendo doutrinados pelo discurso de ódio. Há postagens como "não sei como criar uma conexão com ninguém" e "ontem à noite foi muito difícil".

Quando um garoto fala sobre uma menina por quem ele tem uma queda, ouve a resposta: "odeio te dizer, mas ela está por aí f*dendo com um chad (homem sexualmente ativo)".

"Os mais jovens estão muito mais vulneráveis à esse tipo de radicalização, principalmente quando estão sob estresse e pressões sociais", afirma a psiquiatra Kabacznik.

Ódio e violência

Depois do ataque no Canadá, o "/r/braincels" fez um post dizendo "não apoiamos o ataque em Toronto". Mas a maioria dos comentários era irônico. "Agora ser virgem é crime? É pior do que ser do Estado Islâmico?", diz um usuário. Outros afirmam que é "melhor apagar tudo" porque eles serão perseguidos "como na Alemanha nazista".

Diversos usuários falam do crime de Alek Minassian com condescendência e até aprovação.

"Toda essa atenção da mídia é empoderadora. Não somos mais só uma imagem para os "normies" ridicularizarem, mas uma fonte de medo", diz um usuário. "Eu não culpo Alek pelo que ele fez. Culpo a sociedade por tratar os homens como lixo", diz outro.

Brasileiros

Embora a discussão nos fóruns seja sempre em inglês, também há pessoas de países não-anglófonos participando - inclusive brasileiros.

Um deles compartilha seu desejo de "não morrer sem ter tido uma experiência sexual". "Tenho 27 anos e sou virgem. Tenho pensado em fazer sexo com uma prostituta? Sei que ela vai odiar, porque tenho uma aparência de bosta. O que acham?", pergunta.

Alguns incentivam, outros desencorajam. "Prostitutas não contam como mulheres de verdade", responde um usuário no "Incels Without Hate".

Na comunidade em português do Brasil no Reddit, outros brasileiros dizem participar ou ter participado de grupos como esses.

"Chegou num ponto que eu parei porque não aguentava mais a negatividade, mas entendo perfeitamente o que leva as pessoas a terem essa negatividade", diz um usuário.

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