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O boliviano que escapou da forca na Malásia após ser preso com cocaína no estômago

Carlos Serrano - @carliserrano - BBC News Mundo

21/08/2019 07h19

Boliviano Víctor Parada viajou à Malásia com mais de 1 kg de drogas no estômago; lá, foi detido e encarcerado enquanto aguardava a sentença: a pena de morte; em depoimento à BBC, ele relata o calvário que enfrentou por mais de cinco anos.

Em outubro de 2013, Víctor Parada, um boliviano hoje com 32 anos, foi detido na Malásia por levar cocaína em seu estômago.

Parada foi preso e, em janeiro de 2018, condenado à forca por um tribunal daquele país.

A Malásia tem leis antidrogas severas, que incluem a pena de morte para o crime de tráfico de drogas. Em 2018, o governo local chegou a anunciar que acabaria com a pena de morte. Mas em março deste ano, o debate sobre o tema foi suspenso, e a pena capital continua vigente.

A pena capital para casos de tráfico é adotada por outros países da região. Em 2015, dois brasileiros foram executados na Indonésia sob a mesma acusação: Rodrigo Gularte e Marco Archer.

Mas Parada foi libertado, no dia 24 de julho do mesmo ano em que foi condenado, e regressou à Bolívia, no que considera um "milagre".

Segundo um comunicado do Ministério de Relações Exteriores da Bolívia, o Estado boliviano "acompanhou e apoiou" Parada, e realizou os trâmites para a sua repatriação.

Este é o depoimento de Parada à BBC Mundo, o serviço em língua espanhola da BBC, depois de voltar à sua casa, após cinco anos preso na Malásia.

Quando embarquei, não sabia que na Malásia havia pena de morte (para o tráfico). A pessoa que me enviou me disse que tudo seria fácil.

Eu lhe devia cerca de US$ 5 mil, e essa era a minha maneira de pagá-lo.

Eu viajei da Bolívia para São Paulo, de lá para Dubai (nos Emirados Árabes Unidos), e de Dubai para a Malásia.

No meu estômago, eu levava um quilo e meio de cocaína líquida embalada dentro de preservativos. Era como uma espécie de gelatina.

Durante a viagem eu não tive problemas, ninguém me disse nada, foi tudo tranquilo até eu chegar na Malásia. Lá, a polícia já estava me esperando.

Passei pelo controle de imigração, e de lá me seguiram até a esteira onde se retiram as bagagens. Lá, cinco policiais me agarraram e me levaram para a delegacia.

Eles destroçaram minha mala e começaram a me dizer "droga, droga, você carrega drogas". Eu disse a eles que não, que eu era apenas um turista.

Então outro policial chegou e me levou para o hospital. Lá eu resisti dois dias e meio até que eu não aguentava mais a vontade de ir ao banheiro. Eu expulsei a droga. Então eles me deram acesso a um telefone. Por meio do Facebook, eu contatei a minha namorada da época e contei a ela que tinha sido preso.

Eu tinha um quilo e meio, mas o relatório dizia que levava apenas 450 gramas. O que aconteceu com as outras 1.050 gramas?

Do hospital, me levaram para outra delegacia, onde fiquei por 12 dias sem saber de nada. De lá, fui jogado na cadeia para esperar pelo meu processo.

Na cadeia, eles te dão uma colcha, uma colher e um prato. Eles também te dão um uniforme com um cheiro inacreditável. Perto desse uniforme, um pano de chão usado pode ser considerado limpo.

Eu tive alergia quando vesti o uniforme. Peguei sarna na região do pescoço e do peito.

Depois de três meses na prisão, alguém finalmente me emprestou um telefone e eu pude falar com minha mãe.

'Não me importava com mais nada'

Eu sou moreno, mas no cárcere fiquei branco como um sapo, sem cor.

Durante o primeiro ano, nos deixavam tomar sol. Mas logo a minha ala inteira da cadeia foi punida por causa de drogas. Lá entra muita droga, em grande quantidade. Os próprios guardas dão drogas para os presos usarem. Maconha, heroína, metanfetamina, LSD.

Eu mesmo não usava drogas na cadeia, a princípio. Mas depois me viciei em heroína, e já não me importava com nada.

Se te dizem que você vai sair dentro de 20 ou 30 anos, você passa a viver com essa perspectiva. Mas se não te dizem nada, esta é a pior condenação.

Passava o tempo jogando xadrez ou baralho.

Fiquei um mês sem comer, até que o meu estômago me obrigou a fazê-lo. A comida era muito ruim e às vezes cheirava a peixe podre. Quando enfim comi, tive uma alergia, com vômito e febre. Perdi 15 quilos.

Abusos

Um dia, um guarda entrou na cela que eu dividia com um taiuanês e um bengali. O guarda me deu um soco. Perguntei a ele porque me socou, e ele me acertou de novo. Me defendi, e nós lutamos.

Ele pegou o cassetete, me acertou no braço, na perna e me golpeou na cabeça, o que me derrubou. Ele abriu a minha cabeça. Ficou uma mancha de sangue no chão.

O guarda saiu e me deixou sangrando lá. Então dois outros guardas chegaram e me levaram para fora.

Eles me levaram ao médico e me fizeram sete pontos.

O ferimento na minha cabeça infeccionou, e não recebi remédio algum. Fiquei três dias sem comer tremendo de febre.

Fiquei tão nervoso que arranquei os pontos com a mão. Um pus amarelo saiu do ferimento. Fui ao médico e lá eles me disseram "você lutou com um oficial, nós não atendemos a quem faça isso".

A única coisa que me deram foi paracetamol (um remédio para dor e febre de uso comum, que no Brasil não exige nem prescrição médica).

Eu relatei isso no tribunal e ninguém fez nada, nem mesmo meu advogado.

'Quis me suicidar'

Em janeiro de 2018, fui ao tribunal e o juiz disse algo que, em malaio, significa "você é um homem morto". Perguntei ao meu tradutor o que isso significava e ele explicou que eu havia sido condenado à morte.

Eu tive que pedir a ele que repetisse para mim três vezes porque eu não entendia.

Quando finalmente entendi, meu sangue gelou. Perdi a consciência. Um amigo me disse que liguei para minha mãe, mas nem lembro o que disse.

De lá, eles me trancaram em quarentena por 14 dias em uma masmorra, que tinha apenas uma abertura para colocar a comida e outra para ver se estava tudo bem.

Nesses 14 dias estimo que só dormi cerca de 20 horas. Queria me matar.

Então, me levaram para outra prisão. Lá, fiquei em uma cela de 5 metros quadrados, com um chuveiro e um banheiro dentro.

Às cinco da manhã, um guarda passou para perguntar como estava e eu nem sequer lhe respondi.

Lá, uma vez por dia eles te dão uma garrafa de água quente, e às vezes te dão um copo de água fria. Não se pode beber a água da torneira, não é água potável.

Se eu pedisse um pedaço de sabão a um guarda, ele dizia que ali não era um hotel.

Às vezes, quando os escâners não funcionavam e eles suspeitavam que você estava carregando alguma coisa, eles batiam em você com um cano ou uma vara de bambu na sola dos pés. É um castigo que eles chamam de "rotan" (por causa da palmeira-ratã, ou Calamus Rotang).

Quando me bateram, disse a eles que eu não tinha nada. E eles responderam: "Eu digo que você tem, e você tem que entregar".

Não importa se você vai urinar, se vai gritar ou se vai defecar de dor, eles ainda vão te dar os cinco golpes. Eu disse que ia ligar para o meu advogado, e eles responderam que, se eu quisesse, poderia ligar para o presidente do meu país, que de nada adiantaria.

Um dia depois dessa punição, 15 presos foram colocados numa cela de 5 metros quadrados. No dia seguinte, me bateram de novo. "Se eu disser que você tem, é porque você tem", repetiam. Me batiam de manhã e à tarde, durante quatro dias. No final, eu estava rastejando.

'Nasci de novo'

Fiquei preso por 5 anos, 9 meses e 15 dias.

Ainda não consigo explicar como me salvei, mas nasci de novo.

Deus mudou o coração dos juízes. No mesmo dia em que fui libertado, sentenciaram um nigeriano à morte. Ele foi enforcado e eu fui para casa.

Mas eu não sou um vencedor. Foi a minha família que venceu, foram eles que lutaram.

Deus não teve piedade de mim, mas da minha família, porque foram eles que sofreram e gastaram quase US$ 100 mil nisso.

Na internet, tenho visto comentários perguntando por que a Justiça da Malásia não me deu mais tempo de cadeia. Mas eu não ligo para o que as pessoas dizem, já cumpri minha sentença.

Espero que meu caso sirva para que quem está pensando em viajar desta forma pense melhor.

O amor da família é o maior. Mas é melhor comer pão duro com água do que ir parar lá, na cadeia. Não faça essa viagem.


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