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Eleições na Venezuela: abstenção alta mostra crise na oposição e reforça poder do chavismo

Daniel Pardo - Enviado especial a Caracas

21/11/2021 20h54

Estas foram as primeiras eleições em quatro anos que contaram com ampla participação da oposição, que boicotou pleitos passados.

Após anos de boicote da oposição, a Venezuela voltou a realizar eleições regionais e municipais no último domingo (21/11).

Um pleito marcado pelo alto índice de abstenção ? apenas 40% dos eleitores foram às urnas ?, que evidenciou a crise na oposição e reforçou o poder do chavismo como principal força política no país.

Dos 23 cargos de governadores em disputa, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que está no poder, conquistou 20, enquanto a oposição venceu em três estados, afirmou o presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Pedro Calzadilla.

Segundo ele, o PSUV também levou a prefeitura de Caracas.

Os demais resultados das chamadas "megaeleições" ? outros 334 cargos de prefeito e centenas de vereadores ? não foram divulgados no primeiro boletim, liberado à meia-noite de domingo.

Apesar das inúmeras denúncias de irregularidades que supostamente favoreceriam o partido no poder, os dirigentes do CNE afirmaram que houve avanços em relação às eleições anteriores em termos de equilíbrio, transparência e respeito pelo voto livre e seguro.

As eleições regionais e municipais de 21 de novembro foram as primeiras em quatro anos que contaram com ampla participação da oposição, que não reconhecia Nicolás Maduro como presidente desde 2018 e boicotou as eleições passadas por suposta falta de garantias.

Desta vez, também houve uma observação imparcial do pleito, dado o interesse internacional em saber se o governo de Maduro poderia garantir a competição democrática.

Entre os observadores de várias entidades internacionais, estavam a União Europeia, as Nações Unidas e o Carter Center, órgão especializado em processos eleitorais.

Desde as eleições legislativas de 2015, em que a oposição venceu por ampla margem, a observação de entidades internacionais neutras havia sido reduzida até desaparecer.

Se em 2020 estas comissões eleitorais justificaram a sua ausência por "falta de condições democráticas", argumento da oposição, agora, pelo menos a princípio, estão moderadamente satisfeitas.

Renovação do CNE

Além disso, o pleito deste ano aconteceu após uma renovação inédita dos dirigentes do Conselho Nacional Eleitoral em busca de maior transparência.

Desde 2006, o presidente do CNE é Tibisay Lucena, hoje ministro do gabinete de Maduro. E a representatividade dos reitores foi sempre questionada pela oposição, que tinha apenas um dos cinco representantes no corpo eleitoral.

"As sanções dos Estados Unidos obrigaram o governo a ceder em várias áreas e esta renovação da CNE é uma delas", afirma Luis Vicente León, analista e pesquisador.

Hoje, a oposição conta com dois dos cinco reitores do CNE.

Apesar de dezenas de políticos estarem desqualificados, proibidos ou mesmo presos, a renovação da CNE tem sido vista como uma evolução sem precedentes nas últimas décadas.

Alta abstenção

As eleições não contaram com o voto dos venezuelanos no exterior, cerca de 4 milhões de pessoas ? de um total de 20 milhões cadastradas ? que, a princípio, são uma força-chave para a oposição, já que muitas saíram do país fugindo da crise.

Ao longo do dia, foram registradas duas mortes e duas dezenas de feridos em eventos supostamente relacionados às eleições.

Os venezuelanos foram às urnas em um momento raro para o país: após décadas de profunda polarização, a política deixou de ser uma das principais preocupações do povo e a dolarização de fato e a abertura econômica tornaram possível mitigar a crise, ativar produção e aliviar parcialmente as necessidades urgentes.

Uma oposição em crise

"As eleições atestaram os erros da oposição", disse o jornalista Daniel Pardo, enviado especial da BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, a Caracas.

"Por terem perdido força eleitoral em quatro anos de não participação, anunciaram sua participação muito perto da data da disputa e chegaram a ela divididos e brigados."

A isso se soma que uma parte da oposição, liderada por Leopoldo López e Juan Guaidó, pediu a seus seguidores que não participassem.

"Em um país em que as pesquisas mostram que 20% da população rejeita o chavismo, os fracassos da oposição não se explicam apenas pelas vantagens da mesa eleitoral, mas também pelos erros de seu grupo", conclui Pardo.

Henrique Capriles, ex-candidato presidencial e figura-chave no retorno da oposição à disputa, comemorou a participação de quase 9 milhões de venezuelanos.

"Assim que tivermos resultados totais por estados e municípios e a soma nacional, faremos o balanço necessário", declarou.

Manuel Rosales, governador eleito do estado de Zulia, o mais populoso do país, acrescentou:

"Hoje ficou demonstrado que Zulia é a terra de homens e mulheres aguerridos, pujantes e defensores da liberdade. Zulia, um povo heroico hoje, venceu a democracia e o engajamento triunfou. A esperança venceu!"

'Fruto de um trabalho perseverante'

O presidente Nicolás Maduro também se manifestou depois das eleições:

"Exorto todos os representantes das organizações políticas a respeitarem os resultados e estendo a minha mão ao diálogo político e à reunificação nacional".

"Conquistamos 21 prefeituras, entre elas Caracas, uma boa vitória (...) é o fruto de um trabalho perseverante e de levar a verdade com retidão a todas as comunidades", acrescentou.

A campanha do partido no poder se concentrou em conquistas como a redução da taxa de homicídios e a solução da escassez com uma dolarização de fato.

No entanto, a economia da Venezuela é hoje um terço do que era há 5 anos, a produção de petróleo diminuiu e a hiperinflação gerou uma desigualdade sem precedentes na história do país.

Maduro também se referiu às sanções por acusações de corrupção e violação dos direitos humanos impostas pelos Estados Unidos a funcionários de seu governo.

"Criamos consciência e continuaremos a retificar o que devemos retificar", disse Maduro.

As eleições regionais, além de renovar os poderes locais, se tornaram simbolicamente um relançamento da chamada "oposição moderada" e uma medida de força diante do processo de negociação entre o governo e a oposição, que deve ser retomado em janeiro, no México.


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