Coreia do Sul encobriu abusos e assassinatos em larga escala

Nos anos 70 e 80, crianças, mendigos e deficientes eram retirados das ruas e forçados ao trabalho escravo em instalações correcionais, segundo a agência de notícias AP. Eles foram vítimas de tortura e abusos.

Três décadas atrás, um policial torturou Choi Seung-woo por causa de um pedaço de pão que foi encontrado na mochila do menino. Depois de ser despido e ter um isqueiro repetidamente aceso perto de seus órgãos genitais, Choi, então um garoto de 14 anos, "confessou" o roubo do pão.

Dois homens então o arrastaram para a chamada Brothers Home, uma instituição onde ocorreram algumas das piores atrocidades na história moderna da Coreia do Sul ocorreram. Assim como milhares de outras pessoas, a maioria crianças e deficientes, Choi foi forçado a residir numa dessas instalações criadas para abrigar os chamados "vagabundos" nos anos 1970 e 1980.

Em reportagem investigativa, a agência de notícias AP revelou, com base em centenas de documentos governamentais exclusivos e dezenas de entrevistas com funcionários e ex-detentos, que os casos de agressão na Brothers Home, pouco conhecidos, foram muito mais cruéis e comuns do que se imaginava. Somente na Brothers Home, que originalmente era um orfanato, havia 4 mil internos.

Entre agressões diárias, detenções injustificadas e trabalho escravo, centenas de pessoas foram espancadas até a morte. A contagem de mortos, somente na Brothers Home, chega a 513 pessoas entre 1975 e 1986 - o número real é certamente superior. Documentos do governo comprovam que a maioria dos novos internos chegava com saúde mental boa. No entanto, ao menos 15 morreram no primeiro mês de estada, em 1985, e 22, em 1986.

Em seu auge, o local abrigava mais de 20 fábricas por trás de seus muros bem guardados na cidade portuária de Busan. Elas usavam trabalho escravo para fabricar produtos que eram vendidos na Europa, no Japão e provavelmente em outros locais.

Policiais, ajudados por donos de lojas, capturavam crianças, mendigos, comerciantes de rua, deficientes e dissidentes. Essas pessoas acabavam como prisioneiros em 36 instalações em todo o país. Segundo os documentos obtidos pela AP, o número chegou a 16 mil detidos em 1986.

Cerca de 90% dos detidos nem mesmo deveriam estar nessas instalações porque não atendiam a definição do governo de "vagabundo", afirmou o ex-procurador Kim Yong-won, com base nos registros da Brothers Home e em entrevistas feitas em 1987, quando o governo encerrou as investigações feitas por ele.

As capturas começaram quando os militares no governo queriam preparar o país para a candidatura aos Jogos Olímpicos de 1988 e ordenaram a polícia a "limpar" as ruas. A Coreia do Sul queria se apresentar como um país moderno.

Além do excesso de violência, tratava-se de uma operação de enriquecimento baseada em parte em trabalho escravo. Documentos mostram que instalações que deveriam treinar jovens para futuros empregos davam lucro. Somente a Brothers Home deveria ter pagado o equivalente a 1,7 milhão de dólares para mais de mil detentos pelo trabalho deles.

Mesmo muitos anos depois, Choi ainda chora ao falar sobre o que aconteceu na Brothers Home. Ele relata que foi estuprado por um guarda na sua primeira noite, em 1982, de novo na noite seguinte e assim por diante. Assim começaram cinco anos infernais de trabalho escravo e agressões quase diárias. Foram anos em que Choi viu homens e mulheres serem espancados até a morte e seus corpos serem despejados como lixo.

Outro ex-interno da Brothers Home, Lee Chae-sik, diz que, às vezes, chegavam a morrer cinco pessoas num único dia em consequência de agressões numa espécie de "quarto de correções". Até hoje, nenhum dos responsáveis foi condenado pelas atrocidades.

Os poucos ex-prisioneiros que falam sobre o caso querem uma nova investigação. O governo, porém, tenta travar uma iniciativa da oposição, argumentando que as evidências são muito antigas. Ahn Jeong-tae, funcionária do Ministério do Interior, afirmou que as vítimas da Brothers Home deveriam ter apresentado suas queixas há anos para uma comissão de inquérito. "Não podemos fazer leis específicas para cada caso", justificou.

O silêncio oficial significa que, mesmo com a Coreia do Sul se preparando para receber novos Jogos Olímpicos, os de Inverno em 2018, milhares de ex-detentos traumatizados ainda não receberam nenhuma indenização nem qualquer reconhecimento público ou um pedido de desculpas.

"Como podemos esquecer a dor das surras, os mortos, o trabalho árduo, o medo, todas as más recordações?", questiona Lee, que agora administra um motel à beira de um lago. "Isso vai nos assombrar até a morte."

PV/ap

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