Por que os japoneses postergam o casamento

Julian Ryall, de Tóquio (md)

No Japão, número de jovens dispostos a formar família caiu drasticamente nos últimos anos, aponta estudo. Sociólogos classificam mulheres como "carnívoras" e homens como "herbívoros".

Olhando para trás, Makoto Watanabe gostaria de ter se casado no começo de seus 30 anos, mas ele admite que naquela época não tinha nem a segurança no emprego nem os recursos financeiros para sustentar uma esposa e uma família.

Agora, ele tem 41 anos e é professor de Comunicação e Mídia na Universidade Hokkaido Bunkyo. Mas Watanabe diz que teme que seja tarde demais para se casar. "Quanto mais velho, mais ocupado pareço ficar. E também começam a aparecer cada vez menos oportunidades de encontrar 'a pessoa certa'", diz. "Agora tenho minha carreira e estou confortável. Mas me arrependo um pouco de não ter casado quando tive a chance, quando era mais jovem."

A situação de Watanabe é idêntica à de milhares de jovens japoneses, que são incapazes de encontrar um parceiro devido a uma série de razões, sendo as principais delas um salário insuficiente para sustentar uma família e horários de trabalho que limitam as oportunidades para interagir com o sexo oposto.

Bomba-relógio demográfica

Com o Japão lutando para encontrar maneiras de superar um desafio demográfico de muito poucos nascimentos e maior expectativa de vida - o que exige o pagamento de mais aposentadorias e mais cuidados médicos -, os resultados de uma nova pesquisa dão motivo para ainda mais pessimismo.

Um estudo realizado por uma afiliada da empresa de seguros de saúde Meiji Yasuda Life Insurance, baseada em Tóquio, mostra que a proporção de homens japoneses na faixa dos 20 anos que querem se casar despencou dos 67,1% de apenas três anos atrás para 38,7%. Para as mulheres na faixa etária dos 20 anos, a taxa caiu de 82,2% em 2013 para 59%.

As mulheres japonesas tradicionalmente procuram no parceiro perfeito os "três altos" - um homem alto, com alto desempenho acadêmico e renda elevada -, mas a sondagem sugere que a renda é agora a principal preocupação delas.

"Mais de metade das mulheres solteiras quer que seus cônjuges ganhem pelo menos quatro milhões de ienes (33.794 euros) por ano", segundo o levantamento. Ao mesmo tempo, apenas 15,2% dos homens solteiros na faixa dos 20 ganham quatro milhões de ienes ou mais. "Essa diferença parece ser uma das razões para que mais pessoas não se casem ou se casem tarde", conclui.

Watanabe acredita que há várias razões pelas quais os japoneses não estão se casando mais jovens, mas que o fator importante seja o econômico. "Há muitas pessoas que querem se casar, mas elas simplesmente não podem assumir o encargo financeiro de uma família", lamenta.

"Um em cada três jovens não tem um emprego regular e tem muito pouca segurança no emprego. Então, eles sentem toda essa pressão psicológica sobre um futuro incerto e, assim, optam por não se casar, para evitar essa pressão", diz Watanabe.

A liberdade moderna

Outro fator, segundo ele, é a "nova liberdade" que os jovens japoneses têm, como resultado da diminuição da pressão social para se estabelecerem e começarem uma família. "Os jovens já não veem isso como uma responsabilidade absoluta da vida", observa.

O Japão também tem visto uma mudança de atitudes entre os sexos, com as mulheres jovens orientando suas vidas cada vez mais para suas carreiras profissionais e colocando seus próprios desejos à frente da opção por uma família - uma situação que, segundo sociólogos, as transformou em "carnívoras".

Os homens, por outro lado, se tornaram mais dispostos a se acomodar com a infelicidade em suas carreiras apenas para manter seus postos de trabalho. Além disso, eles passaram a ser menos dominadores em relação às mulheres, fazendo com que se tornem "herbívoros", apontam especialistas.

Qualidade de vida

Shiho é uma médica de 38 anos à procura de um marido, embora admita que sua complicada agenda de trabalho faz com que seja quase impossível encontrar o homem ideal. "Meu trabalho me deixa tão ocupada, que tenho poucas chances de encontrar outras pessoas", diz. "Eu ainda tenho esperanças de encontrar a pessoa certa, embora sinta que isso está se tornando ainda mais difícil."

Shiho, que não quis divulgar seu nome completo, disse que não iria "discriminar" um homem cujo salário não corresponda a seu próprio, mas que espera encontrar uma pessoa de origem parecida e com interesses semelhantes.

"Quero encontrar alguém que tenha a mesma qualidade de vida que eu, que goste de comer fora, ir a bons restaurantes, que goste de viajar e ficar em bons hotéis, e isso exige certo nível de renda", admite.

Para Watanabe, a busca também continua. "Claro que eu gostaria de me casar, mas simplesmente ainda não encontrei a parceira certa", justifica.

"Quando eu tinha por volta de 30 anos, eu queria uma parceira que também fosse capaz de trabalhar, para que tivéssemos uma renda dupla e ficássemos confortáveis. Mas agora estou relativamente bem em termos financeiramente bem e não necessariamente preciso de uma esposa que trabalhe" diz. "Então, agora, para mim, as coisas mais importantes são personalidade e compatibilidade como seres humanos."

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