Reeleição de Rajoy emperra nos socialistas

Santiago Saez, de Madri (pv)

Líder conservador não deve conseguir a maioria absoluta no Parlamento para ser reeleito. Novo impasse pode resultar na terceira eleição em um ano. Muito dependerá agora dos socialistas.

Em janeiro de 2016, pouco mais de um mês depois de a Espanha ter realizado sua primeira eleição geral, o presidente do governo Mariano Rajoy dissera que participar de um debate de posse sem apoio suficiente para vencer seria "uma fraude". Em maio, afirmou que nunca enfrentaria tal debate para perder, já que isso seria "zombar das instituições".

O líder conservador seguiu nessa linha até 18 de agosto, quando anunciou estar pronto ao debate. Nesta terça-feira (30/08), Rajoy apresentou o programa de governo ao Parlamento e no dia seguinte ocorre a votação, mas ninguém espera que ele consiga os 176 votos necessários para a vitória parlamentar. Pelo menos, não agora.

Seu Partido Popular (PP) conseguiu obter o apoio dos 32 deputados do Ciudadanos e o voto único da Coalizão Canária, nada mais. Rajoy precisa ainda de seis votos a seu favor ou de 11 abstenções para ser reeleito como presidente do governo da Espanha. Na segunda-feira ele se encontrou com o líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Pedro Sánchez, numa tentativa de fazê-lo reconsiderar uma aliança, mas sem sucesso. Desde a eleição Sánchez tem mantido sua posição contrária ao PP.

Oposição de Sánchez

Espera-se que os 85 parlamentares do PSOE se oponham a um governo liderado pelo partido de Rajoy. Um apoio da legenda de esquerda e antiausteridade Podemos e dos nacionalistas está fora de cogitação no momento, por isso Rajoy pressiona por um acordo com os socialistas.

Numa coletiva de imprensa na segunda-feira, ele disse não estar pedindo apoio, mas apenas que o PSOE "permita algo tão racional quanto um governo para a Espanha". No entanto, Sánchez permanece firme com sua posição. O líder socialista afirma que o programa de governo de Rajoy não retifica "os elementos fundamentais das leis que ele aprovou com a maioria absoluta" - uma referência à reforma conservadora da educação, à política trabalhista e à reforma constitucional.

Sánchez acrescentou que, mesmo que Rajoy concorde em mudanças, ele não apoiará sua reeleição. Ele se manteve reservado quanto à questão de se o PSOE tentaria liderar um governo alternativo, caso Rajoy não seja reeleito.

Divisão partidária no PSOE

No momento, parece certa a permanência do impasse. O jornalista e comentarista político Antonio Maestre afirma que, se todas as partes estão dizendo a verdade, a Espanha será convocada às urnas pela terceira vez em um ano. Socialistas e nacionalistas sustentam que sob nenhuma circunstância apoiarão Rajoy, o qual, por sua vez, tem repetidamente afirmado que não renunciará.

Porém Maestre diz acreditar que o PSOE se posicionará de um lado ou do outro antes de uma eventual terceira rodada de eleições. "Sánchez terá que procurar uma maioria alternativa ou chegar a um acordo com os conservadores em troca de algumas medidas, uma das quais poderia ser a saída de Mariano Rajoy", disse, em entrevista à DW.

Federico Santi, analista em Europa do Eurasia Group, afirma acreditar que Sánchez seguirá tentando obter a liderança do gabinete ao PSOE. "O [partido de esquerda] Podemos está agora mais inclinado a um acordo com o PSOE, mas isso não é suficiente. É extremamente improvável que eles recebam dos partidos catalães pró-independência ou do Ciudadanos o apoio de que necessitam", afirmou à DW. Santi pensa que os socialistas acabarão por se abster, mas querem mostrar que tentaram de tudo antes de fazê-lo.

As discrepâncias internas do PSOE não se tornaram públicas, mas estão aparentes. Para Santi, os ramos conservadores e progressistas do partido estão em discórdia. e a escolha final do partido dependerá do resultado desse embate interno.

"Os socialistas são o pivô aqui, e eles terão de fazer algumas escolhas difíceis. É uma questão de mostrar que esgotaram as alternativas, e pode ser necessária outra eleição antes de eles estarem prontos para dar esse passo", avaliou.

Economia em crescimento

Por outro lado, os dados macroeconômicos da Espanha continuam a mostrar uma tendência positiva, mesmo sem um governo para liderar o país. O Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 0,8% no segundo trimestre, superando as estimativas, e ao longo dos últimos 12 meses a economia do país cresceu 3,2%. De acordo com Santi, a economia está "quase no piloto automático". No entanto, ressalvou, os dados positivos não significam que a economia não apresentaria resultados ainda melhores com um governo ativo.

Um dos principais pontos de preocupação é o orçamento nacional para 2017, que precisa ser submetido ao Parlamento até o final de setembro e aprovado em meados de outubro para cumprir as regras da União Europeia. O documento que detalha a distribuição de fundos para o próximo ano teria de ser adiado, se o prazo não for cumprido. A Espanha terá, então, que trabalhar com o orçamento de 2016 até que um novo governo seja eleito.

"Se o orçamento não puder ser aprovado e a Espanha mantiver um que foi elaborado durante a crise, isso significaria que os serviços sociais não obterão o mesmo financiamento que receberiam com o país numa boa situação", explica o jornalista Maestre.

A derrota esperada de Rajoy na votação de quarta-feira e numa segunda rodada a ser realizada na sexta-feira abrirá um novo capítulo na política espanhola. Acabou o jogo de xadrez e começara uma espécie de dança das cadeiras. Não há vencedores, apenas derrotados. Quem assumirá a responsabilidade por uma eventual terceira rodada de eleições? O PSOE inicia na pior posição, mas ainda tem algumas cartas na manga.

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