Os efeitos da política migratória de Merkel um ano depois

Doze meses depois de abrir as portas para refugiados, chanceler federal alemã enfrenta crescente pressão no meio político e na sociedade. Apesar de reconhecer falhas, líder continua afirmando: "nós vamos conseguir".

Em 31 de agosto de 2015, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, proferiu a emblemática frase que virou slogan de sua política migratória: "Wir schaffen das" (nós vamos conseguir). Quatro dias depois, em 4 de setembro de 2015, a crise de refugiados bateu com força à porta da Alemanha, quando Merkel decidiu, junto a seu homólogo austríaco, Werner Faymann, permitir a entrada no país de milhares de migrantes retidos na Hungria. No total, a Alemanha recebeu quase um milhão de refugiados em 2015.

Neste último ano, os ânimos no país vêm oscilando entre uma cultura de boas-vindas e rejeição. A popularidade de Merkel caiu, e a União Social Cristã (CSU) - legenda-irmã do partido de Merkel, União Democrata Cristã (CDU) - e o parceiro de coalizão Partido Social-Democrata (SPD) se distanciam agora da política de refugiados adotada pela líder do país.

A relação de Merkel com o chefe da CDU, Horst Seehofer, foi abalada, e está em aberto se ela concorrerá à reeleição em 2017. Ela prefere não se manifestar sobre o assunto.

No próximo domingo, as eleições regionais no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental devem ser um termômetro para a política de refugiados da chanceler federal. Pesquisas de opinião apontam que o populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) deve brigar com a CDU pelo segundo lugar, atrás do SPD.

Para o chefe de gabinete da chanceler, Peter Altmaier, a Alemanha mudou para melhor neste um ano de "Wir schaffen das". Ele afirma que o país cumpriu sua responsabilidade humanitária, tornando-se mais moderno e bem-sucedido que países como Hungria, Polônia e República Tcheca, contrários ao acolhimento de refugiados. Agora, o grande desafio é cumprir a tarefa da integração, diz Altmaier.

Críticas e temores

No entanto, opositores de Merkel afirmam que a política migratória sobrecarregou o país e criou novos fossos na sociedade. Os populistas de direita ganham impulso, e os cidadãos alemães temem conflitos culturais e religiosos e ataques terroristas.

Seehofer, da CSU, e até o vice-chanceler federal, Sigmar Gabriel, líder do SPD, apontam como um erro o fato de Merkel não ter estabelecido um limite para o número de refugiados que o país acolheria.

Merkel rejeita tal limite, que considera desumano. No entanto, ela mesma reconheceu, em entrevista publicada no jornal Süddeutsche Zeitung nesta quarta-feira, que houve falhas por parte da Alemanha e de outros países ao lidar com a crise migratória, tendo o problema sido ignorado por muito tempo.

Segundo Merkel, "em 2004 e 2005 já havia muitos refugiados, e nós deixamos a Espanha e outros países de fronteiras externas lidarem com isso". "Naquela época, nós também rejeitamos uma distribuição proporcional dos refugiados", lembrou a chanceler, em tom de autocrítica.

A chefe de governo admitiu que seu país e a União Europeia (UE) não conseguiram reagir à iminente crise e por muito tempo "bloquearam a necessidade de se encontrar uma solução pan-europeia". Agora, será preciso paciência e perseverança para lidar com a chegada de migrantes, afirmou.

Fluxo diminuiu

Altmaier calcula que em outubro do ano passado, cerca de 7 mil pessoas chegavam por dia à Grécia via Turquia, e hoje seriam apenas 100.

Motivos para a diminuição do fluxo são o fato de países do leste europeu terem fechado suas fronteiras com cercas e um controverso pacto migratório firmado entre a União Europeia (UE) e a Turquia - país que quer entrar no bloco europeu, mas cujo presidente, Recep Tayyip Erdogan, vem realizando uma onda de expurgos após uma tentativa fracassada de golpe militar. Merkel é acusada de lidar com demasiada cautela com Erdogan para não ameaçar o pacto de refugiados.

Ativistas e organizações pró-refugiados afirmam também que, no último ano, o governo alemão enrijeceu de tal maneira a política de asilo que a vida dos refugiados no país foi dificultada desnecessariamente, e que os esforços para a integração desses imigrantes à sociedade ainda são insuficientes. Günther Burkhardt, líder da organização Pro Asyl, afirma que hoje o objetivo não é mais proteger os refugiados, mas sim proteger dos refugiados.

Ao mesmo tempo, há quem exija ainda mais firmeza em relação aos requerentes de refúgio que não se encaixam na sociedade alemã.

Efeitos para a economia

Apesar de o fluxo de refugiados ter diminuído, cresce o número de pedidos de asilo, pois as autoridades estão sobrecarregadas e só lentamente vão dando conta da análise dos requerimentos. Segundo o Departamento Federal de Migração e Refugiados (Bamf), em 2015 441.899 pessoas solicitaram asilo na Alemanha pela primeira vez, enquanto em 2016 esse número já subia a 468.762, até julho. Ainda não se sabe quantos desses requerentes permaneceram no país. Em 2015, o percentual de reconhecimento de asilo era inferior a 50%, neste ano, ultrapassa os 60%.

O Ministério alemão das Finanças prevê que entre 2016 e 2020 o governo federal terá custos relativos a asilo de 99,8 bilhões de euros, ou seja, cerca de 20 bilhões de euros por ano.

Nesta quarta-feira, a ministra do Trabalho alemã, Andrea Nahles, reiterou que haverá um efeito positivo para a economia, afirmando que a integração bem-sucedida dos refugiados ao mercado de trabalho será vista no longo prazo. Aprender alemão é o primeiro passo, destacou.

Apesar da pressão e de reconhecer falhas, Merkel repetiu num balanço em julho a frase "Wir schaffen das". Mas um ano depois da histórica decisão da chanceler federal, ainda está em aberto que efeitos tal passo terá para a sociedade alemã e se, com sua política de refugiados, a líder alemã ainda terá sucesso nas urnas.

"A Alemanha continuará sendo a Alemanha - com tudo aquilo que é querido por nós. Mudança não é algo ruim. É uma parte necessária da vida", concluiu a chanceler na entrevista ao Süddeutsche Zeitung.

LPF/dpa/epd/dw

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