Intervenção na Síria afastou Rússia ainda mais do Ocidente

Moscou exibiu poderio militar e apoiou um de seus aliados, mas objetivo de se apresentar como parceiro confiável para EUA e potências europeias, principalmente depois da crise na Ucrânia, está cada vez mais distante.A intervenção militar da Rússia na guerra civil da Síria completa um ano nesta sexta-feira (30/09) em meio a crescentes críticas e a denúncia de que os ataques aéreos já mataram 3.804 civis, entre eles 906 crianças. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, uma ONG baseada no Reino Unido, 10 mil pessoas morreram em consequência dos bombardeios. Entre elas estão também 2.746 membros do grupo terrorista "Estado Islâmico" e 2.814 combatentes de outros grupos islamistas. O porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, rejeitou os números, afirmando que considera as informações do Observatório Sírio para os Direitos Humanos como não confiáveis por a organização não estar baseada na Síria. Peskov também reiterou o motivo oficial da presença militar russa: "Apoiar os sírios e o Exército da Síria na luta contra o terrorismo". Segundo ele, a ausência dos extremistas da capital, Damasco, é um resultado positivo da intervenção russa. Há um ano, a Rússia entrou na guerra com uma série de objetivos não declarados, entre eles apoiar um aliado importante e que abriga uma base naval russa no Mar Mediterrâneo, exibir seu poderio militar e se apresentar como um parceiro em pé de igualdade para a comunidade internacional, principalmente os Estados Unidos. Esse último objetivo era ainda mais urgente, na época, por causa da anexação da Crimeia e do conflito no leste da Ucrânia, que resultaram em sanções à Rússia e na exclusão do país de fóruns internacionais, como o G8. "Putin tinha vários objetivos ao entrar na Síria, um era demonstrar que a Rússia é uma potência global", avalia o analista Evelyn Farkas, ex-assistente do secretário de Defesa dos EUA, que agora é um membro sênior do think tank Atlantic Council, de Washington. "Ele precisava mostrar a seu povo que a Rússia é uma nação importante." Rússia diz que alvo são os terroristas Moscou sempre insistiu que o seu alvo são os extremistas do "Estado Islâmico" e de outros grupos terroristas, como a Frente al-Nusra (atual Frente Fateh al-Sham). Mas, desde o início, os ataques aéreos russos atingiram redutos dos rebeldes moderados e também a população civil, principalmente em áreas onde não há presença do "Estado Islâmico". De acordo com os Estados Unidos e grupos humanitários presentes na Síria, os russos bombardearam hospitais, escolas, e, recentemente, um comboio de ajuda humanitária, matando centenas de civis inocentes deliberadamente ou acidentalmente com suas bombas poderosas, mas imprecisas. Com os céus sírios cada vez mais lotados de caças, os EUA – que desde 2014 lideram uma coalizão aérea formada por países ocidentais e árabes – estabeleceram um canal de comunicação com a Rússia para tentar reduzir o risco de colisões. Segundo diplomatas americanos citados pela agência de notícias AP, desde o início os russos deixaram claro que uma meta de longo prazo era a coordenação militar conjunta com os EUA – medida rejeitada por militares e membros do governo americano. Cessar-fogo fracassa É inegável que, desde que entraram na guerra, os russos passaram a ser considerados pelo Ocidente um interlocutor importante para se chegar a uma solução para o conflito. "Moscou se tornou um ator importante no Oriente Médio", comenta o analista político Dmitri Trenin, do think thank Carnegie Moscow Center, acrescentado que o país ganhou um palco para exibir sua força militar. Nesse sentido, um ponto alto foi alcançado no início deste mês, quando o ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, acertaram um novo acordo de cessar-fogo para a Síria. Prevista para durar apenas sete dias e vista com desconfiança pelos militares americanos desde o início, a trégua não pode, porém, ser classificada como um sucesso. Nos últimos dias do cessar-fogo, os dois lados beligerantes se acusaram mutuamente de desrespeitar o acordo. A situação ficou ainda pior quando um ataque aéreo da coalizão liderada pelos Estados Unidos atingiu soldados sírios na base militar em Deir al-Zor, no leste da Síria. Os americanos disseram que miravam, na verdade, extremistas do "Estado Islâmico". Dois dias depois, um ataque a um comboio humanitário da ONU e do Crescente Vermelho em Urum al-Kubra, uma cidade dominada pelos rebeldes, foi atribuído à Rússia pelos Estados Unidos, o que piorou ainda mais as relações entre os dois países. A Rússia nega que seja a responsável pelo ataque. Objetivos não alcançados Se a cooperação com os Estados Unidos era um objetivo da Rússia, este não foi alcançado e, um ano depois, jamais pareceu estar tão longe. A troca de acusações entre os dois lados é cada vez maior. A Rússia acusa os americanos de não conseguirem pressionar os rebeldes moderados a se afastarem da colaboração com grupos terroristas e afirma até mesmo que os EUA toleram os extremistas em prol do objetivo maior, que seria derrubar Assad. Já os americanos afirmam que a Rússia sofrerá uma série de consequências "profundamente negativas", como disse o vice-secretário de Estado, Antony Blinken, em depoimento ao Comitê de Relações Exteriores do Senado americano. Entre elas, segundo ele, está ser vista como cúmplice de Assad, do Hisbolá e do Irã no "massacre de muçulmanos sunitas". Ele diz que os EUA estão "considerando ativamente outras opções" para encerrar a guerra, que já custou 500 mil vidas e causou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. O cálculo do presidente Vladimir Putin, de que o engajamento no conflito sírio poderia ajudar a aliviar as sanções econômicas do Ocidente, também não se concretizou. Analistas avaliam que, ao contrário, a imagem da Rússia no Ocidente está cada vez pior, principalmente diante da destruição de Aleppo. Países ocidentais acusam a Rússia e Assad de cometerem crimes de guerra na cidade. "Acho que a situação se mostrou mais dura do que os russos esperavam", afirma Derek Chollet, um antigo assessor do Departamento de Defesa dos EUA. "Não vejo evidências de que a intervenção da Rússia na Síria esteja elevando sua influência diplomática ou política" no mundo. "Na verdade, o que se ouve dos europeus é que a intervenção na Síria é tão chocante na sua brutalidade que acabou com qualquer possibilidade de eliminar as sanções à Rússia por causa da Ucrânia", acrescenta. MD/AS/afp/ap/dpa

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