Há um século, o samba pedia passagem

Roberta Jansen

Em 1916, Donga reconheceu nas manifestações espontâneas da comunidade negra um valor artístico e registrou "Pelo telefone". Era o "nascimento" de um gênero que já existia - estranho mesmo, bem a cara do Brasil.Na casa da lendária Tia Ciata (1854-1924), numa área pobre do centro do Rio, negros se reuniam para "fazer um samba", como se dizia no início do século 20: tocar música, festejar, batucar. Mãe de santo famosa, a tia baiana reservava o quintal dos fundos para as celebrações religiosas – então clandestinas – do candomblé. Na sala de estar, ela recebia músicos, como Pixinguinha, que tocavam choro, um gênero já então considerado mais formal e erudito. Mas a diversão rolava mesmo na cozinha, o lugar do improviso, da brincadeira, da espontaneidade, do batuque, do samba propriamente dito. Ali não havia partituras, letras, nada escrito; reinavam as criações coletivas. "Ai, ai, ai / É deixar mágoas para trás, ó rapaz / Ai, ai, ai, fica triste se és capaz e verás" era um refrão recorrente na brincadeira. Um dos frequentadores assíduos da cozinha de Tia Ciata era o músico Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1890-1974), conhecido pela alcunha de Donga. E foi Donga que, num ímpeto que ele mesmo nunca soube explicar direito, pegou parte dos refrões ali repetidos e, junto com o jornalista Mauro de Almeida, criou Pelo telephone (com "ph" mesmo), adicionando versos, estruturando uma letra e escrevendo uma partitura. Mas não só. Num gesto ainda mais incomum para a época, ele registrou a música na Biblioteca Nacional sob o gênero samba – que formalmente nem era reconhecido –, em 27 de novembro de 1916, há exatos cem anos. Formalizou, assim, o que, até então, era uma brincadeira feita entre celebrações religiosas e uma música já dita mais séria. "Pelo telefone é o quintal junto com a cozinha. E o grande papel de Donga foi reconhecer naquelas manifestações espontâneas dos negros um valor artístico e comercial", afirma o curador do novo Museu da Imagem e do Som (MIS), Hugo Sukman. "Donga percebeu que aquilo não era só diversão, poderia ser uma música, uma canção, poderia ser escrita, ter uma partitura e uma letra. E, sendo uma música, deveria ser registrada e, assim, poderia gerar lucro." Para o compositor e escritor Nei Lopes, o documento declaratório de autoria que Donga e Mauro de Almeida apresentaram às autoridades em 1916 é, sim, a "certidão de nascimento do samba", muito embora ele faça uma ressalva: "Não foi um registro, como se diz, pois a comprovação da autoria por registro só foi legalmente instituída em 1973; mas foi uma atitude que criou um fato jurídico de consequências importantes, num tempo em que música era igual a passarinho voando, o dono era quem 'pegasse no ar e engaiolasse' primeiro." Especialistas em música dizem que Pelo telefone, na verdade, não é um samba, como consideramos hoje, mas sim um maxixe. A sonoridade musical do samba como a reconhecemos atualmente só surgiria dez anos depois, em 1927, com Se você jurar, de Ismael Silva, e com toda a turma de sambistas do Estácio. No entanto, dizem os especialistas, isso não tem a menor importância. O fato relevante sobre Pelo telefone é que foi a primeira música oficialmente registrada como samba a fazer um enorme sucesso popular logo que foi gravada, para o carnaval de 1917. "Evidentemente que o arranjo musical é de maxixe, como era comum na época", sustenta o pesquisador Ricardo Cravo Albin, autor do Dicionário de Música Popular Brasileira. "Mas ela foi intitulada samba, e foi a primeira vez que se usou o samba como gênero musical." "É um maxixe, claro. Até porque não existia samba", confirma o coordenador da Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, Luiz Fernando Vianna, autor de diversos livros sobre música brasileira. "Samba era uma palavra que circulava há um tempo já, mas como sinônimo de festa, batucada, música. Só então, passou a ser usada como ritmo." Alguns especialistas sustentam que já existiriam outras músicas registradas como samba, mas nenhuma delas foi gravada e fez sucesso. E Pelo telefone foi um grande sucesso. Por isso, Cravo Albin defende que a data a ser comemorada como centenário seria a de 20 de janeiro de 1917, a da gravação e divulgação da música. "Não se falava em outra coisa no carnaval de 1917; foi um megassucesso", afirma Hugo Sukman, que também é autor de vários livros sobre música popular. "Isso gerou não apenas essa visão de que o samba é importante, é uma obra de arte, um produto; como mudou a história do samba, elevou o nível do samba. Até então, música de carnaval era qualquer música, mas, a partir dali, se começou a fazer música para o carnaval." "Acho muito importante essa data do registro. Tudo bem que a música não seja do Donga e também não seja um samba", diz Sukman. "É tudo estranho mesmo, mas é bem a cara do Brasil."

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