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Checkpoint Berlim: Os males da gentrificação

Clarissa Neher

27/03/2017 06h20

Padaria em Kreuzberg se torna símbolo do combate ao processo de valorização de espaços urbanos na capital alemã. Investidor resolve expulsar estabelecimento que não combinaria mais com o bairro e desencadeia protestos.Uma inesperada notícia pegou de surpresa os moradores do bairro de Kreuzberg. Depois de 20 anos, a tradicional padaria Filou teria que fechar suas portas no meio deste ano. A decisão não partiu de seus proprietários, mas do dono do imóvel onde o estabelecimento se encontra: um resultado da especulação imobiliária e da gentrificação do bairro.Há alguns anos, o imóvel foi adquirido pelo investidor britânico Charles Skinner, considerado por muitos a figura mais odiada em Berlim no momento. Depois de idas e vindas devido a um aumento no aluguel, o investidor cancelou o contrato com os donos da padaria.Skinner alega diferença entre ele e os proprietários, chegando a dizer que cancelou o contrato porque os produtos vendidos na padaria eram muito ruins para seu gosto. A Filou, para ele, não combinaria mais com o bairro. É uma padaria simples, bem diferente do restaurante chique que o investidor abriu ao lado.A expulsão de Filou causou protestos. Uma passeata em Kreuzberg para defender estabelecimentos comerciais ameaçados pela gentrificação reuniu 2 mil pessoas no fim de fevereiro, e protestos passaram a ocorrer quase todo fim de semana. Diversos moradores da região penduraram faixas nas quais pediam para a que Filou continuasse onde está.Mas o caso da Filou não é uma exceção na cidade. Além de estabelecimento comerciais, inquilinos de regiões que passam por processos de gentrificação sofrem com esta constante ameaça, e aqueles que resolvem ficar precisam se preparar para batalhas judiciais e retaliação dos donos de imóveis.Nos últimos anos, Berlim se tornou um paraíso para investidores imobiliários que compram barato pensando em lucrar muito com pesados aluguéis, devido ao crescimento da cidade e à alta procura por residências.Para inquilinos, há uma regulamentação que ajuda um pouco a controlar o aumento dos aluguéis, como a tabela oficial que estabelece o valor máximo em determinada região. Mas isso não está sendo suficiente. O novo governo da capital pretende criar barreiras para frear os preços. Até lá, os inquilinos contam apenas com o apoio de vizinhos. No caso da Filou, esse apoio foi fundamental e encheu de esperança outros estabelecimentos comerciais na mesma situação. A pressão dos protestos foi tanta que, na semana passada, o dono do imóvel voltou atrás e anunciou que a padaria poderá continuar onde está, pelo menos nos próximos três anos, e sem aumento do aluguel.Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.