Pé na praia: O pastor e sua capela

Thomas Fischermann

De sua varanda na beira de um rio na floresta, no norte do Brasil, o pastor via o campo de futebol e dois bares com bordel. Era difícil transmitir a mensagem do evangelho.Na beira de um rio na floresta, bem lá em cima, no norte do Brasil, fiquei sentado no terraço do pastor. Há muitos anos, o religioso havia se mudado para lá, um ninho de garimpeiros minúsculo. Esperava salvar almas do demônio, porém, encontrou dificuldades no caminho. De sua varanda, o pastor via o campo de futebol do lugar, e dois bares com bordel. Um chamava-se "Abraço" e o outro "Tira Faca". O pastor juntava as pontas dos dedos enquanto falava comigo sobre Jesus, louvou a castidade e explicou que se deve passar a vida toda com uma única mulher. Mas era difícil transmitir a mensagem do evangelho. "Muitos homens aqui deixaram suas famílias em uma cidade qualquer", explicou o pastor, com olhar severo. A maioria não quer ter nada a ver com religião. Embrenham-se pelas matas procurando ouro e cultuam a riqueza. Dariam suas vidas por cachaça e pelas mulheres dos cabarés. Para sobreviver neste lugar sem Deus, o pastor também tinha uma mercearia. Montou um alto-falante sobre a porta. Toda tarde a partir das 13h30 tocava um programa evangélico. Mas, nesse meio tempo, disse o pastor, já se arrependeu de sua ideia. Primeiro, porque o bordel resolveu copiar o truque e também trouxe caixas de som. Passou a tocar música de festa bem alto por toda noite, e isso não deixava o pastor dormir. "Eu também tenho uma família", disse o pastor. Sua esposa morava na cidade mais próxima, a um dia de viagem de barco e de caminhão. Os dois filhos do pastor cresceram sem seu pai, enquanto este cuidava de seu rebanho de almas na floresta. Se ele não gostaria de voltar para eles um dia? Perguntei. "Claro que sim, um dia", disse o pastor, mudando de assunto. "Primeiro gostaria de terminar meu grande projeto aqui na vila e concluir a construção de minha capela." Os homens na vila disseram que o pastor já estava construindo esta capela há anos. Ele não volta nunca mais. Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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