Eleição causa terremoto político na França

Lisa Louis, de Paris (ca)

Avanço de Macron e Le Pen abala alicerces da política francesa e abre para os partidos tradicionais, os socialistas e os republicanos, um tempo de reflexão. Eleição legislativa será primeiro teste diante do novo cenário.A princípio, os pavilhões de exposição ao sul de Paris pareciam grandes demais para a legião de apoiadores de Emmanuel Macron que festejavam ali, na noite de domingo (23/04), a vitória de seu candidato no primeiro turno da eleição presidencial francesa. Mas quando o ex-banqueiro de 39 anos subiu finalmente ao palanque, acompanhado da esposa Brigitte, tinha-se a impressão de que o salão todo estava lotado e vibrava de entusiasmo, cantando bem alto "Macron Président", fazendo tremular bandeiras da França. De acordo com as pesquisas de opinião, em duas semanas, é esperado que ele também vença o segundo turno da eleição. "Hoje a França ganhou!", clamou Macron. A multidão quase explodiu de alegria. Aquela foi uma ocasião histórica não somente para os apoiadores do movimento "Em Marcha!", mas também para a França. Esse momento não levou somente um azarão ao topo, mas também significou, pelo menos temporariamente, o fim do sistema bipartidário da Quinta República Francesa. Surpreendentemente, os resultados do primeiro turno são pouco surpreendentes. Nas últimas semanas, as pesquisas de intenção de votos já previam que Macron ganharia a eleição e Marine Le Pen, da populista de direita Frente Nacional, ficaria em segundo lugar. Mas muitos temiam que tais institutos de pesquisa se enganassem também na França. Assim como aconteceu nas eleições presidenciais americanas, nas eleições legislativas holandesas e no referendo do Brexit. Na França, a campanha eleitoral não produziu dois – como de costume – mas quatro favoritos. Entre eles, também estavam o político de extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon e o candidato de centro-direita François Fillon. Esses quatro favoritos estavam tão próximos uns dos outros que, estatisticamente, qualquer um deles tinha chance de chegar ao segundo turno, levando em conta também que, até pouco antes da eleição, um terço dos eleitores não sabia em que votar. Além disso, os institutos de opinião haviam previsto uma abstenção histórica – acima de um terço. Guinada no debate político No final, aconteceu como esperado. E embora o comparecimento às urnas tenha sido menor que na última eleição presidencial, mesmo assim ele chegou a estimados 77%. Acima de tudo, o resultado causa um terremoto político e deve marcar uma guinada na política da França. "É a primeira vez na história da Quinta República que nenhum dos candidatos dos tradicionais partidos de centro-direita e centro-esquerda chega ao segundo turno", diz Nicholas Startin, professor de política europeia e francesa na Universidade de Bath, no Reino Unido. Segundo Startin, o debate entre os dois turnos eleitorais passa a não ser dominado pelos típicos temas de esquerda e direita. "Haverá antes uma discussão entre apoiadores e opositores da globalização", comenta. A esse respeito, Macron e Le Pen não poderiam ser mais diferentes. A líder da Frente Nacional defende o protecionismo econômico, um referendo sobre a saída da União Europeia (UE) e, como ela mesmo diz, uma contenção da "imigração maciça". Macron, por outro lado, é pró-europeu e defensor do liberalismo econômico. Diante do cenário montado para o segundo turno, Vincent Martigny, cientista político do Instituto Cevipof de Paris, diz estar 90% certo de que Macron se tornará o próximo presidente da França. "Nossa 'Frente Republicana' também vai sair vencedora desta vez", afiança Martigny. "Os demais partidos vão, como sempre, se unir para impedir uma vitória da Frente Nacional." As pesquisas de opinião apontam que Macron deverá vencer o segundo turno, em 7 de maio próximo, com até 65% dos votos. E, de fato, grandes nomes dos socialistas e dos republicanos, rivais históricos, já se uniram contra Le Pen e declararam seu apoio ao candidato independente. Legislativas: teste de sobrevivência Para Vincent Martigny, o tema de real importância não é necessariamente o segundo turno eleitoral, mas as eleições parlamentares em junho, nas quais Macron terá de obter maioria para formar um governo sozinho. Algo que Martigny considera improvável. "Seria realmente um momento absolutamente histórico se um movimento tão jovem conseguisse, de uma vez só, eleger um número suficiente de deputados para a Assembleia Nacional", explica. Para ele, o mais provável é que Macron tenha de formar uma coligação – com o Partido Socialista, com os Republicanos ou com ambos. Segundo Startin, nas eleições gerais em junho, os Republicanos deverão se sair melhor que os socialistas. Sem os diversos escândalos envolvendo François Fillon, afirma o analista, eles teriam uma boa chance de ganhar a eleição presidencial. Atualmente, Fillon enfrenta um processo judicial. Ele é acusado de pagar salários a sua esposa e filhos com dinheiro público, sem que eles tenham trabalhado. "No entanto, os Republicanos são uma verdadeira máquina eleitoral, eles são muito bons em ganhar eleições, mesmo com divisões dentro do partido", explica o especialista. Para ele, apesar da derrota nas eleições do último domingo, um dia os Republicanos vão se unir em torno de um novo líder, voltando a formar uma nova força política. O cientista político explica ainda que, para os socialistas, a situação é mais difícil. No primeiro turno, o seu candidato Benoît Hamon angariou apenas cerca de 6% dos votos – bem longe dos quase 20% de Fillon, dos Republicanos. "O Partido Socialista não conseguiu, simplesmente, realizar as reformas necessárias – como, por exemplo, o Partido Social-Democrata (SPD) na Alemanha ou o Partido Trabalhista sob Tony Blair", lembra Startin. "Se ele quiser sobreviver, terá de se reformar seriamente." De qualquer forma, tem início agora para ambos os partidos tradicionais, os socialistas e os Republicanos, um tempo de reflexão. Pela primeira vez, depois de meio século, eles perderam o domínio sobre a política francesa.

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