União Europeia concentra esperanças em Macron

Christoph Hasselbach (de Bruxelas / av)

Cúpula da UE em Bruxelas começa sob clima mais otimista, inspirado por vitórias do presidente francês e de seu partido. Presidente do Conselho Europeu não exclui nem mesmo um retorno do Reino Unido ao bloco.O clima na União Europeia (UE) já deixou para trás seu ponto mais baixo – pelo menos é o que acredita o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. Há sinais "de uma lenta progressão ascendente", afirmou no convite para a conferência de cúpula que se iniciou nesta quinta-feira (22/06) em Bruxelas. O político polonês devia estar pensando, em primeira linha, na marcante vitória do pró-europeu Emmanuel Macron e de seu partido República em Marcha! na França. E, do outro lado, no relativo fiasco eleitoral da premiê britânica conservadora, Theresa May. Até agora, ela queria um Brexit "duro", ou seja, a ruptura radical com a UE. Agora, está lutando pela maioria para governar. As negociações para a saída do Reino Unido do bloco europeu já começaram, mas seus detalhes não constam da pauta da cúpula. Ainda assim, os chefes de Estado e governo dos demais 27 países-membros aguardam um sinal de Westminster sobre os direitos dos mais de 3 milhões de cidadãos da UE vivendo atualmente no Estado insular. Londres, em contrapartida, colocará na balança os direitos dos britânicos na UE. "Vamos esclarecer como pretendemos preservar os direitos dos cidadãos da UE e do Reino Unido", prometeu May ao chegar ao encontro. A questão, no entanto, é de que vale o comprometimento de uma primeira-ministra tão enfraquecida, que não se sabe quanto tempo ainda ficará no cargo. Os mais debochados já falam do "governo-zumbi" na capital inglesa. Neste ínterim, já começou a corrida pelo espólio do Brexit: os dois órgãos da UE sediados em Londres, a Autoridade Bancária Europeia (ABE) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), deverão se transferir para o continente, e todos os Estados-membros competem para abrigá-los. Macron reforça parceria com Berlim Aos poucos, os demais chefes de governo dão sinais de estarem fartos de fantasias apocalípticas. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, declarou em Bruxelas que percebe "um clima otimista". Para ela, "a configuração do futuro tem primazia diante das negociações de saída com o Reino Unido. O claro foco deve estar no futuro dos 27 Estados-membros". Essa é também a visão de Macron, que participa de sua primeira cúpula regular, ostentando o status de grande esperança da UE. O presidente de 39 anos recordou o ex-chanceler federal alemão Helmut Kohl, morto na semana passada e que dentro de poucos dias será o primeiro estadista homenageado numa cerimônia fúnebre europeia. "Eu gostaria que retornássemos ao espírito de cooperação que uma vez reinou entre François Mitterrand e Helmut Kohl", comentou Macron numa entrevista publicada por diversos jornais europeus, entre os quais o alemão Süddeutsche Zeitung. Caso contrário, adverte, a Europa está ameaçada de se desintegrar. O novo astro Macron pretende continuar desenvolvendo a União Europeia, pelo menos a zona do euro, e para tal aposta no tradicional aliado de Paris, Berlim. Visando nada menos do que um ministro de Finanças e um orçamento comum europeu, ele expressou sem rodeios a esperança de que "a Alemanha não se recuse". Para Merkel, no entanto, sobretudo em momento de campanha para as eleições gerais, isso soou demais como "união de transferência" e "coletivização de dívidas". Assim, a líder conservadora comentou os ambiciosos planos de Paris de forma benevolente, porém evasiva: pode-se pensar a respeito. Mais ela não disse. Chegando a Bruxelas, o novo presidente francês também sinalizou que pretende levar a sério o medo que os cidadãos têm da globalização, ao dizer que a Europa precisa se "proteger" dos que "não respeitam determinadas regras". A alusão foi à disputa com a China em torno de exportações de aço, e se firmas chinesas devem poder adquirir empresas europeias, quando o contrário não é possível. Utopias europeias Ao que tudo indica, uma nova unidade e autoafirmação entre os 27 Estados restantes após o Brexit são as palavras de ordem em Bruxelas. A questão é se isso é praticável. Os recorrentes atentados ou tentativas de ataque, muitos com motivação fundamentalista islâmica, fazem com que os países se aproximem uns dos outros, pelo menos emocionalmente. Maior cooperação nas questões de defesa são outro tema "em que o projeto europeu precisa ser reanimado", formulou a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini. Também o combate à imigração indesejada é no interesse comum de todos os membros. No entanto, quando se trata de conclusões concretas, as opiniões divergem. Os países do Leste Europeu, por exemplo, são estritamente contra acolher refugiados vindos dos dois principais países de ingresso, a Itália e a Grécia. E uma legislação de asilo comum continua não passando de uma utopia na agenda da UE. Enquanto isso, Tusk pensa igualmente no futuro da comunidade: uma União Europeia de 28 Estados-membros! Como revelou pouco antes da cúpula, alguns britânicos lhe perguntaram recentemente se em algum momento o Reino Unido poderia reingressar na UE. A resposta do presidente do Conselho Europeu foi: a UE se ergueu sobre sonhos que pareciam impossíveis de alcançar. E: "You may say I'm a dreamer, but I'm not the only one" ("Podem dizer que sou um sonhador, mas não sou o único"), completou Tusk, citando a canção Imagine, de John Lennon.

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