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O G20 pode salvar a globalização?

Robert Mudge (av)

08/07/2017 15h20

Movimentos antiglobalização opõem-se a conceito promovido por grupo de elite formado pelas 20 maiores potências mundiais. Mas especialistas apontam efeitos positivos e criticam estratégia "America first" de Trump.Para todos os fins e propósitos, uma das metas declaradas do Grupo dos 20 é tentar salvar a globalização – um alvo ambicioso, num mundo em que muitas nações ou se sentem relegadas ou se recusam a endossar o conceito.A professora Amrita Narlikar, presidente do Instituto Alemão para Estudos Globais e Locais (GIGA, na sigla em inglês), e que acaba de escrever um estudo sobre o futuro da globalização, afirma que há motivos para se preocupar."Há um nível de inadequação e de oposição, não só em termos de os pobres se sentirem deixados para trás, mas também no posicionamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a mudança climática, e na ascensão dos movimentos de direita e de esquerda."Entre crescimento e inclusãoUma das questões mais prementes é como transferir a riqueza e a prosperidade conquistadas com a globalização aos que ficaram para trás ou foram mais atingidos pelos efeitos da economia global e que cada vez mais vão depositando suas esperanças nos movimentos antiglobalização.No entanto, "os tomadores de decisões estão sendo ineficazes em explicar o que globalização significa, mesmo havendo numerosos indícios claros a respeito", comentou Narlikar à DW.Como exemplo, ela cita o sucesso no combate à pobreza extrema. Entre 1990 e 2015, o número de pessoas classificadas como extremamente pobres caiu 14%. No entanto, "esse tipo de mensagem não está sendo divulgada com a paixão e intensidade necessárias para comunicar a informação", lamenta a presidente do GIGA.O secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), José Ángel Gurría, argumenta numa veia semelhante. Mas, se existe uma séria resistência à globalização, "é porque nós estamos mais concentrados no elemento crescimento do que inclusão".Para mudar isso, "precisamos focar aquilo que chamamos de nexo entre produtividade e inclusão", explica Gurría. "Claro que a ideia é aumentar a produtividade, mas se não houver um elemento de inclusão, a produtividade vai bater no muro, haverá rejeição." Por outro lado, se o foco ficar apenas na redistribuição, o crescimento será abalado.Missão para a Alemanha?O tema comum que emerge dessas considerações é que os benefícios percebidos da globalização não são partilhados amplamente, e que os mais vulneráveis vão sendo deixados para trás.Mas, como integrar os que se sentem abandonados? E – talvez mais importante – quem pode assumir um papel de liderança de forma convincente? Em quem as nações pobres e em desenvolvimento confiarão, para guiá-las a um futuro mais promissor?É aí que a Alemanha poderia desempenhar um papel-chave, acredita Amrita Narlikar, pois sua economia é forte e ela tem a capacidade de funcionar como modelo. "Você tem um mercado aberto, mas com regras para auxiliar. A Alemanha é pioneira em áreas como o desenvolvimento verde e sustentável."O país pode, ainda, ajudar a dispersar tensão diante dos muitos detratores, para os quais o conceito de globalização carece de representatividade, já que apenas 19 Estados industrializados e em desenvolvimento, além da União Europeia, integram o ilustre clube do G20."A Alemanha tem um jeito sério e metódico de avançar a agenda do G20", o que é crucial para "melhorar a legitimidade e a inclusão" do grupo, diz a presidente do GIGA.Um ótimo exemplo é a liderança alemã da iniciativa G20 Compact with Africa, voltada a promover investimento privado e em projetos de infraestrutura no continente africano.Incompleta, porém incontornávelApesar dos pontos fortes e atributos da Alemanha, Narlikar não nega que a estratégia "America first" de Trump paira sobre o G20 como uma força dispersiva e contraproducente. E no entanto, diz, poderia ser tão simples: "Se os EUA querem ser os primeiros e liderar, então não ergam barreiras comerciais, não construam muros, não bloqueiem o combate à mudança climática."Ao mesmo tempo, a professora urge a Alemanha e a União Europeia a não caírem na armadilha de se tornarem "totalmente dependentes" dos EUA. O acordo de Paris sobre o clima continua sendo um grande exemplo de quanto a globalização pode alcançar, se houver "coragem e engajamento".A globalização não resolverá todos os problemas do mundo. Para uns, ela permanece um conceito abstrato, pouco realista; para outros, seus impactos negativos são demasiado reais. Seus defensores, não se iludem que ela permanece uma "obra em andamento", mas sem alternativa."Somente a cooperação internacional, e não o isolacionismo à la Trump, é capaz de alcançar os resultados necessários", conclui Gurría.