Rússia inaugura estátua de inventor do fuzil Kalashnikov

Roman Goncharenko (pv)

  • Pavel Golovkin/AP

Monumento de oito metros de altura, no centro de Moscou, retrata Mikhail Kalashnikov e sua criação. Arma desenvolvida pelo militar em 1947 já teve mais de 70 milhões de unidades produzidas

O fuzil de assalto Kalashnikov, também chamado de AK-47, é conhecido em todo o mundo e há décadas é um dos poucos sucessos russos de exportação. Nesta terça-feira (19/09), o criador da arma, Mikhail Kalashnikov, morto em 2013, ganhou um monumento em sua homenagem em Moscou. A inauguração coincide com o Dia do Fabricante de Armas, um feriado da indústria armamentista russa, celebrado há cinco anos em 19 de setembro.

A estátua de cerca de oito metros de altura de Kalashnikov fica num cruzamento no centro da capital da Rússia. O projetista de armas está num pedestal, trajando roupas simples de trabalhador e segurando sua invenção cuidadosamente com as duas mãos – como se fosse uma criança.

O inventor, com seu talento e sua modéstia, "encarna as melhores qualidades de um homem russo", disse o ministro da Cultura do país, Vladimir Medinsky, na inauguração. O fuzil de assalto é "uma verdadeira marca cultural da Rússia", afirmou Medinsky, que também é presidente da Associação Russa de História Militar, entidade que encomendou o monumento.

A inauguração da estátua, do escultor Salavat Scherbakov, foi constantemente adiada desde janeiro, e o monumento foi levemente retrabalhado. A composição consiste de duas partes: em primeiro plano, a figura de Kalashnikov; ao fundo, há outra estátua, do arcanjo Miguel matando um dragão com uma lança. A cena simboliza "a eterna luta entre o bem e o mal", define Scherbakov, citado pela mídia local. O escultor define o fuzil Kalashnikov como uma "arma do bem".

Mais de 70 milhões de fuzis desde 1947

A famosa arma de fogo celebra neste ano o seu 70º aniversário. Em 1947, o modelo desenvolvido por Kalashnikov venceu uma competição e começou a ser produzida em série. A primeira versão recebeu a abreviatura AK-47. Posteriormente, o fuzil foi modernizado várias vezes. Ele é considerado barato, simples e robusto. De acordo com o fabricante, mais de 70 milhões de Kalashnikovs já foram produzidos.

A empresa localizada em Ijevsk, cidade no leste europeu da Rússia, também produz armas de caça e de tiro desportivo e foi renomeada para Grupo Kalashnikov em 2013, divulgou ter triplicado seus números de exportação em 2016. No entanto, o fabricante russo de armas perdeu alguns mercados lucrativos. Os EUA colocaram a Kalashnikov na lista de sanções – reação à abordagem de Moscou na Ucrânia. Numa entrevista, o presidente-executivo da empresa, Alexey Krivoruchko, afirmou esperar retornar ao mercado americano.

Para o jornalista russo Oleg Kashin, o monumento Kalaschnikov é altamente simbólico. "Na Rússia de hoje, se tornou normal se referir a uma guerra não como uma tragédia, mas como uma boa publicidade para armas russas", disse Kashin em entrevista à DW. O pacifismo está fora de moda, por isso o "Kalashnikov ciclópico" é um símbolo adequado do espírito contemporâneo na Rússia.

"Não sei o que há de bom numa arma. Isso não passa de palavras vazias", escreveu o escritor russo Viktor Yerofeyev num comentário para a DW. Para ele, uma arma de fogo traz a morte e nenhum voto de felicidade. Ela poderia ser usada a "qualquer momento contra aqueles que a amam e a idolatram".

Vladimir louva Vladimir

Nos últimos meses, outros monumentos com poder simbólico foram inaugurados na Rússia – entre eles, a estátua do grão-duque medieval Vladimir, o Grande. Assim como o monumento a Kalaschnikov, este também foi esculpido por Scherbakov. Atualmente, o escultor de 62 anos parece ser o número um para esses projetos na Rússia.

Um santo, um fundador de Estado e um guerreiro – assim o presidente da Rússia, Vladimir Putin, descreveu em novembro de 2016 seu homônimo Vladimir, O Grande, na inauguração do monumento, que pode ser visto do Kremlin. Vladimir era um "defensor do solo russo", disse Putin, que aparentemente também se vê desta forma.

Vladimir, o grão-duque de Kiev, é considerado um dos governantes mais importantes da história do Estado medieval Rus Kievana, também conhecido como Principado de Kiev, onde Rússia e Ucrânia veem a raízes de seus povos, seus Estados e a origem de sua fé cristã. A estátua de 16 metros de altura retrata Vladimir 1º como um homem com barba e vestuário principesco, que se apoia com a mão direita numa grande cruz. Na mão esquerda, ele segura uma espada. Alguns observadores suspeitam que o monumento represente mais Putin do que o grão-duque de Kiev. Toda vez que o presidente russo vai ao Kremlin, ele tem de passar pela estátua de Vladimir.

Há cerca de um ano, em outubro de 2016, foi inaugurado um monumento do primeiro czar russo, o grão-duque Ivan 4º de Moscou, na cidade de Orjol, no sudoeste da Rússia. Ele entrou nos livros de história como Ivan, o Terrível. E ele também foi retratado com uma cruz e uma espada. Aparentemente é assim que se enxerga a Rússia atual.

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