Alemanha: a demografia do voto

Olhar para o mapa e para o perfil dos eleitores ajuda a entender como os dois maiores partidos do país obtiveram o pior resultado em décadas e como os nacionalistas conseguiram entrar no Parlamento.Apesar de considerar o resultado não satisfatório, a União Democrata Cristã (CDU) saiu vencedora da eleição legislativa da Alemanha de 2017 e garantiu um quarto mandato à chanceler federal alemã Angela Merkel. No entanto, não há dúvidas de que quem mais cantou vitória foi a legenda populista Alternativa para a Alemanha (AfD) – pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, um partido de nacionalista está representado no Parlamento alemão. Os resultados da eleição federal mostram não apenas números frios, mas oferecem dados demográficos sobre o espectro político da Alemanha e o comportamento do eleitorado – ganhos e perdas de cada legenda, migração eleitoral, votos por faixa etária, por estado e por sexo, além da famigerada comparação entre o oeste e o leste do país. A AfD venceu a disputa pela terceira força no Bundestag com 12,6% dos votos – atrás apenas da aliança CDU/CSU (33%) e do Partido Social-Democrata (SPD), que com 20,5% obteve o pior resultado de sua história. As outras três legendas que bateram a marca dos 5% e entraram no Parlamento são o Partido Liberal Democrático (FDP), com 10,7%, A Esquerda (9,2%) e o Partido Verde (8,9%). Impulsionada pela retórica anti-imigração, a AfD quase triplicou seu apoio em comparação com a eleição federal de 2013, quando recebeu apenas 4,7% dos votos. Com aumento de 7,9 pontos percentuais, os populistas registram o maior crescimento, seguido pelo FDP (5,9 p.p.), pela Esquerda (0,6 p.p.) e pelos verdes (0,5 p.p.). O resultado das urnas evidência a insatisfação do eleitor alemão com o atual governo, formado pela chamada "grande coalizão": CDU/CSU despencaram 8,5 pontos percentuais, enquanto o SPD caiu 5,2 pontos percentuais. Somados, são cerca de 4,6 milhões de eleitores que deixaram de votar nos dois principais partidos do país. SPD perde eleitores para todas as legendas Mas para onde migraram estes eleitores? A CDU registrou perdas para todas as legendas, exceto SPD. Aproximadamente 1,4 milhão de eleitores conservadores resolveram votar no FDP, enquanto quase 1 milhão de pessoas não se sensibilizaram com a promessa de Merkel de que "o que aconteceu em 2015 não deverá se repetir", em alusão ao fluxo migratório na Alemanha, e deram seus votos à AfD. O SPD perdeu votos para todos os partidos, e o FDP perdeu eleitores somente para a AfD (40 mil). Os populistas conquistaram eleitores de todas as bases políticas, com destaque para a conquista de 1,9 milhão de cidadãos que costumeiramente não iam às urnas ou votavam em legendas menores. O discurso nacionalista da AfD também atraiu 470 mil eleitores social-democratas e 400 mil da Esquerda. Ao todo, a legenda saltou de 2.056.985 eleitores, em 2013, para 5.877.094 em 2017. Em discurso após a divulgação dos resultados, Merkel admitiu que desejava um resultado melhor e se comprometeu a reconquistar o eleitor da AfD. "Faremos uma análise detalhada [do resultado]. Queremos recuperar os eleitores da AfD com a resolução de problemas, absorver suas preocupações e, em parte, seus medos", disse a chanceler federal. AfD, segunda força no leste O salto eleitoral da AfD se deve muito ao alcance obtido no leste da Alemanha. Os chamados "novos estados" da Alemanha são um notório reduto de ideologias extremistas – sejam elas de direita ou esquerda. Neles, a AfD obteve 20,5% dos votos (praticamente o dobro em comparação ao percentual nos estados do oeste alemão) e finalizou como a segunda força, atrás apenas da CDU (27,4%). Em 2013, a recém-formada AfD tinha recebido apenas 5,9% dos votos no leste. A Esquerda perdeu 5,4 pontos percentuais, de 22,7% para 17,3%. A AfD inclusive foi a legenda mais votada no estado da Saxônia (27%) – 0,1% à frente da CDU – e ficou em segundo na Turíngia, com 22,7%. A discrepância entre o eleitorado do leste com o do oeste chega a ser gritante: o SPD, por exemplo, somou 22% dos votos no oeste, mas apenas 14,6% no leste. Todos os partidos exceto A Esquerda e AfD pontuam melhor no oeste, que possui a maior densidade populacional do país – a população dos cinco novos estados (Saxônia, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Saxônia-Anhalt, Brandemburgo e Turíngia) é menor que a da Renânia do Norte-Vestfália. Na região que pertenceu à comunista RDA, A Esquerda recebeu 17,3% dos votos, enquanto no oeste apenas 7,2% . Sinal de alerta para CDU/CSU e SPD Ao analisar as faixas etárias do eleitores, CDU/CSU e SPD precisam se preocupar com o futuro. As duas principais legendas alemãs foram as únicas que obtiveram o seu maior percentual de votos da faixa etária mais avançada de eleitores de 70 ou mais anos – 45% dos eleitores mais idosos votaram na CDU/CSU, 25% no SPD. A Esquerda e o Partido Verde tiveram seus maiores sucessos na camada mais jovem, de 18 a 24 anos, enquanto o FDP mostrou uma consistência em torno dos 10% em todas as faixas etárias. Já a AfD se destacou na faixa etária entre 35 e 44 anos, na qual conquistou 17% dos votos. A idade média do eleitor alemão é de 52 anos. Dos 61,5 milhões de alemães autorizados a votar, 31,7 milhões eram mulheres e 29,8 homens. A faixa etária de 70 ou mais anos é a mais representativa, com 20,7% do eleitorado. A menor: 18 a 21 anos, com apenas 3,6%. Destes 61.675.529 eleitores, 46.973.799 compareceram às urnas – somando 76,2%, um crescimento de 4,7 pontos percentuais em relação ao pleito de 2013. Curioso: quase meio milhão (1%) dos votos foram inválidos. A alavanca do Partido Verde O anti-imigração AfD e o liberal FDP foram os únicos partidos que receberam mais votos de homens do que de mulheres. SPD e A Esquerda registraram empate técnico, enquanto CDU/CSU e os verdes atraíram mais mulheres do que homens. Computados somente os votos femininos, a terceira força teria sido o Partido Verde, seguido de perto de AfD, A Esquerda e FDP, consecutivamente. Por outro lado, a AfD foi o partido que mais progrediu no eleitorado feminino – com crescimento semelhante ao do FDP. Levado em conta o grau de escolaridade, os verdes foram a segunda força entre aqueles com ensino superior completo – a AfD obteve o menor percentual. Na próxima legislatura, o Parlamento alemão terá 709 deputados. Com 33% dos votos, a aliança CDU/CSU assegurou 246 assentos; o SPD 153; a AfD ficou com 94, enquanto FDP (80), A Esquerda (69) e os verdes (67) completam o plenário. O partido de Merkel tem agora a complicada missão de formar uma coalizão de governo. A Esquerda e a AfD foram descartadas de antemão, por ideologias e ideiais políticos divergentes. E o SPD anunciou não querer formar uma nova grande coalizão e que vai buscar uma reestruturação partidária se focando no trabalho de oposição. Tudo indica para uma tríplice aliança, chamada de "Jamaica", devido às cores dos partidos CDU, FDP e Verde. PV/ots

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos