Na Coreia do Sul, Trump preocupa tanto quanto Kim

Fabian Kretschmer

  • Ahn Young-joon/ AP

    27.set.2017 - Manifestantes sul-coreanos levam caricatura do presidente dos EUA Donald Trump durante protesto contra política dos EUA em relação à Coreia do Norte, perto da Embaixada dos EUA em Seul, na Coreia do Sul

    27.set.2017 - Manifestantes sul-coreanos levam caricatura do presidente dos EUA Donald Trump durante protesto contra política dos EUA em relação à Coreia do Norte, perto da Embaixada dos EUA em Seul, na Coreia do Sul

Presidente americano é considerado um belicista imprevisível e aliado pouco confiável. Aos poucos, aparecem sinais de tensão entre os sul-coreanos, geralmente acostumados com a instabilidade na península.

Para entrar no "túnel de invasão número 4", é importante não sofrer de claustrofobia: mal iluminada, a passagem de 1,7 metro de altura conduz através da região montanhosa no leste da fronteira entre as Coreias. Nas paredes aparecem, de vez em quando, marcas amarelas: são resquícios das bananas de dinamite que os norte-coreanos usaram para abrir caminho até o território inimigo. O túnel tem cerca de mil metros de comprimento. Segundo estimativas de engenheiros sul-coreanos, ele levou dez anos para ficar pronto.

A passagem somente foi descoberta no início dos anos 1990 e é o último dos quatro túneis norte-coreanos conhecidos. A existência dele foi por muito tempo negada pelo regime do então líder, Kim Il-sung, mas os indícios são claros: em caso de guerra, ele seria usado pelos norte-coreanos para iniciar uma invasão do sul.

"Segundo depoimentos de um dissidente norte-coreano, havia planos para mais 20 túneis de invasão como esse. Mas considero altamente improvável que eles tenham sido de fato construídos", afirma Stephen Tharp, um americano com forte sotaque sulista, óculos escuros e corte de cabelo militar.

Tharp conhece o terreno como poucos. No início dos anos 1980, quando ainda era um jovem soldado, ele patrulhava a região para as forças americanas. Mais tarde, durante os anos 1990, foi enviado ao vilarejo de Panmunjom para conduzir negociações com os norte-coreanos. Hoje, já aposentado, guia turistas pela região divisória, uma faixa de cerca de quatro quilômetros de largura que foi liberada para os civis em alguns pontos.

Pelo jeito, mesmo durante a pior crise na questão coreana em décadas, não há motivos para deixar de fazer uma tranquila visita turística à faixa que divide as duas Coreias – o lugar mais sinistro do mundo, como definiu o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, que passou por lá.

Belicista imprevisível

Enquanto a Coreia do Sul reage de forma relativamente serena aos testes de mísseis de Pyongyang, os famigerados tuítes do atual presidente dos EUA, Donald Trump, costumam virar manchete em todo o mundo. Essa situação eleva ainda mais a expectativa em torno da primeira visita de Trump à Coreia do Sul, anunciada para o início de novembro. Ao que tudo indica, ele também vai visitar a faixa divisória.

Mas o republicano não será recebido de braços abertos pelos sul-coreanos. É verdade que existe uma pequena minoria de ativistas ultraconservadores que exigem dele, em manifestações e cartazes, a destruição total da Coreia do Norte, mas a maioria dos sul-coreanos vê o atual ocupante da Casa Branca como um belicista imprevisível e, além disso, como um aliado pouco confiável, que não está muito preocupado com as vidas de 50 milhões de sul-coreanos.

"Não devemos ver a Coreia do Norte estritamente como um tema de política externa, separado da divisão política interna dos Estados Unidos", afirma o historiador americano John Delury, da prestigiosa Universidade de Yonsei, em Seul.

Depois das ameaças feitas por Trump, o conflito da Coreia do Norte se tornou uma parte central da identidade política do presidente.

"Ele criou todas as expectativas possíveis sobre o que faria contra a Coreia do Norte. Se, no fim, não fizer nada, ficará com a cara no chão."

Delury diz esperar que a opinião pública da Coreia do Sul vá às ruas durante a visita de Trump para deixar claro que um conflito militar não é uma opção.

Mochilas de emergência

Quem passeia por Seul por estes dias vê apenas sinais de normalidade: no fim de semana, o centro estava tomado por palcos ao ar livre, com diversos shows e apresentações, e barracas de comida. Os sul-coreanos estão levando tudo na boa, como sempre?

As impressões enganam, como a autora Han Kang deixou claro num artigo para o jornal The New York Times: "Temos medo de que uma crescente guerra de palavras resulte numa guerra real".

A escritora lembrou os horrores da Guerra da Coreia, que ainda estão vivos na lembrança de muitos sul-coreanos. Isso inclui os crimes cometidos por soldados americanos, como o massacre de Nogeun-ri, quando centenas de refugiados coreanos foram mortos a tiros. "Para nós, qualquer solução que não levar à paz é sem sentido", escreveu Han Kang.

Recentemente é possível ver alguns sinais de tensão na Coreia do Sul. No início de outubro, durante o feriado de Chuseok, algumas empresas presentearam seus funcionários com mochilas de emergência, que continham lanternas, porções de arroz e rádios com transistor.

Quando Trump ameaçou a Coreia do Norte com "fúria e fogo", a procura por ouro disparou na Coreia do Sul, e os treinamentos para civis foram ampliados. Blogueiros sul-coreanos debateram estratégias de sobrevivência para situações de emergência.

Coreia: uma península dividida em dois; entenda

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