Esqueleto de 42 mil anos volta a sua terra na Austrália para finalmente ser sepultado

  • Australian Broadcasting Corporation/AP

    Restos mortais de nativo que habitou território australiano há mais de 40 mil anos recebe funeral tradicional, após décadas sendo estudado em Canberra

    Restos mortais de nativo que habitou território australiano há mais de 40 mil anos recebe funeral tradicional, após décadas sendo estudado em Canberra

Os restos mortais de um aborígene que, há cerca de 42 mil anos, habitou o que hoje é conhecido por Austrália foram levados de volta ao seu local de sepultamento depois de passar praticamente quatro décadas na capital Canberra. Membros de vários grupos aborígenes organizaram nesta sexta-feira (17) uma grande cerimônia para marcar o retorno do "Homem de Mungo" à sua pátria ancestral.

O homem aborígene foi enterrado com os ritos funerários tradicionais pela segunda vez, cerca de 42 mil anos depois da época em que habitava a região dos Lagos Willandra, no estado de Nova Gales do Sul, sudeste da Austrália. O retorno do "Homem de Mungo" marcou o fim de uma longa batalha.

Descoberto em 1974 pelo arqueólogo Jim Bowler, o esqueleto totalmente intacto do "Homem de Mungo" – que recebeu este nome devido ao leito seco de um lago na região – levou a que pesquisadores duplicassem o tempo de presença humana no continente australiano de 20 mil para 40 mil anos. Mas a remoção dos ossos para estudos em Canberra, cerca de 600 quilômetros a leste do lago Mungo, irritou a comunidade aborígene.

Esperamos todos esses anos para recuperá-lo e estou tão feliz que ele tenha voltado, para seu lugar de repouso

Joan Slade, anciã do povo aborígene Ngiyampaa

O esqueleto chegou ao local num carro fúnebre preto com a bandeira aborígene em preto, amarelo e vermelho pintada nas portas. Uma cerimônia tradicional de fumaça, com folhas de goma verdes queimadas numa pequena fogueira, celebrou o retorno dos restos mortais ao solo vermelho e salgado do lago Mungo.

"Hoje é um daqueles momentos catalíticos. Faz de nós, os proprietários tradicionais, os guardiões da nossa cultura", disse Michael Young, um homem paakantyi e membro de uma associação aborígene que lutou pelo retorno do "Homem de Mungo" à sua terra. "Eles [os restos] serão mantidos num lugar secreto e seguro para que possamos transmitir às próximas gerações o legado que essas pessoas nos deixaram."

Australian National University/Reuters
Esqueleto de homem pré-histórico descoberto na Austrália

Embora descobertas arqueológicas subsequentes tenham retrocedido ainda mais a data da primeira chegada de humanos na Austrália, a descoberta do "Homem do Mungo" foi, na época, um enorme avanço para a compreensão da história humana.

Seu sepultamento, com os membros esticados, as mãos cruzadas na altura da virilha e cobertas por um ocre extraído a cerca de 200 quilômetros de distância do enterro, ajudaram a provar que a civilização ancestral dos aborígenes – a cultura existente mais antiga do mundo – remonta à época em que os neandertais ocupavam a Europa. A descoberta reescreveu a história australiana – com a imagem de uma cultura aborígene com costumes complexos e um rico sistema de crenças.

Universidade pede desculpas

Há muito tempo os povos aborígenes têm protestado sobre a decisão de remover os restos ancestrais e transportá-los para Canberra para estudos antropológicos na Universidade Nacional Australiana. A instituição emitiu um pedido de desculpas formal aos anciões aborígenes há dois anos. Os restos também estiveram expostos num museu antes de seu retorno.

"Foi um caminho longo para o nosso povo. Muitos dos nossos anciões iniciaram essa mesma batalha que tivemos. Eles nos deixaram esse legado", disse a aborígene Mary Pappin, da comunidade Muthi Muthi. Outros 104 corpos da era do gelo foram enterrados junto do "Homem de Mungo".

 

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